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   (Clicar para ler)

 
Morreu ontem o António Alçada. Não o via há uns anos desde que, em seguida a um encontro casual à volta duma bica, ficámos a falar do mundo, dos homens, do passado e, sobretudo, das pessoas, dos seus sonhos e frustrações. 

Não me foi possível ir despedir-me dele. Infelizmente à mesma hora tinha a despedida doutro amigo dos bancos da faculdade. Por isso me lembrei de me despedir assim – lembrando-o nos «Caminhos». 

Para alguns da minha geração e dum certo percurso no catolicismo, o António teve, no final dos anos cinquenta e na primeira metade dos sessenta, uma influência positiva e diria mesmo decisiva. 

A Morais, ainda então na baixa (Rua da Assunção? só anos depois veio para o Largo do Picadeiro) era um refúgio e um alfobre de ideias, de cultura e sobretudo de descoberta que nos ajudou, das formas mais diversas, a crescer nas convicções mas também nas dúvidas (e que tantas eram..) 

Eram os anos ainda anteriores e sobretudo os que se seguiram à «crise», outra crise bem diferente da actual, que em 62 ganharia muita juventude universitária para a oposição ao regime. Gente vinda dos mais diversos sítios mas também  da JUC e doutros centros de reflexão e activismo católicos e que encontraram naquele espaço e naquele convívio como que a continuidade do que viveram na universidade, com uma amizade e uma abertura muito pouco usuais hoje e, certamente, muito raras naquela altura. 

E foi na Morais e com o António Alçada que começámos, ou continuámos, o mergulho nos Bernanos, Mauriac, Teilhard de Chardin e, sobretudo, Emmanuel Mounier e o Personalismo, mas também no Temps Modernes e no Esprit, que por lá, ainda estudantes, começámos a ler. Também em Camus, Merleau-Ponty, Sartre (tudo cultura francesa como competia na altura e que nos chegava semanalmente, quando chegava, no Express – não confundir com o actual…), revista de combate e debate ideológicos.

E foi aí que se nos abriu o convívio possível com gerações anteriores à nossa, com outras vivências, outra cultura, obra e caminho, mas para quem éramos também uma esperança que «as coisas estavam a mudar».

Depois veio O Tempo e o Modo e tudo o que à volta da revista foi possível durante uns anos. Foi uma época de esperança numa sociedade mais justa e, para muitos de nós, numa Igreja Católica capaz de responder às interrogações e aos ideais de Justiça que tantos queriam ver realizados aqui e…o mais depressa possível

E foi ainda, para os da minha geração, o encontro com gentes de outras origens e percursos que fizeram um caminho comum e que, penso, aprenderam a respeitar-se na sua diversidade mas com um objectivo comum – a abertura e libertação da sociedade portuguesa que, afinal, só acabou por ser possível muitos anos depois. Recordo um que, por razões várias, tanto me influenciou – o Francisco Lino Neto.

Os jornais referem a figura de A. Alçada sobretudo sob as vestes de escritor. Eu gostaria de deixar aqui nos «Caminhos» um perfil diferente – o de intelectual engagé (já agora mais um francesismo…) que foi capaz de agitar, confrontar e pôr muita gente tão diversa a confrontar-se consigo próprio e com os outros.

Com a elegância e o afecto ou, dito doutro modo, com a afectuosa elegância que colocava no cultivo da amizade…

Mais tarde continuei, por algum tempo, pouco, a gozar da sua presença amiga, num escritório de advocacia que fizemos sob a sua direcção e iniciativa, na Rua dos Duques de Bragança, com o Vaz da Silva e o Sá Borges que aí se mantiveram mais tempo. Para ele, a advocacia não era vida; o escritório era para receber os amigos e tratar dos assuntos da Morais. Mas serviu-me a mim para muita conversa de fim de tarde, nas costas da PIDE. (As traseiras davam para as traseiras da PIDE…!)

Nunca perguntei ao A. Alçada qual o filme da sua vida (nem, aliás, penso que existam como peças únicas…). Mas arrisco que ele gostaria de ver, se está em sítio de ver, o C’eravammo tanto amati do E.Scola. Ou serei eu?!

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