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Um homem desdobra, cuidadosamente, quase com carinho, um papel muitas vezes dobrado. Desfaz-lhe os vincos como quem acaricia as rugas de um ente querido. Uma mulher está sentada, muito direita. As mãos, pousadas sobre a mala, no colo, dizem tudo sobre a importância do seu conteúdo. Quando a abre, são papéis o que sai do interior.   Como são papéis o que outros, sérios e graves como eles, depositam sobre a mesa. 

Estamos em Maliana, Timor-Leste, e estes papéis são testemunho e razão de actos da resistência, armada ou clandestina. Apanhados pelo inimigo, poderiam significar a morte do seu portador, ou dos responsáveis pelo local onde estavam guardados. 

Isso mesmo diz, em Leotela, um dos responsáveis da Resistência, ao depositar . um conjunto de documentos nas mãos de um historiador – um homem que, espera, dê sentido a todos esses papéis. Di-lo de uma forma simples, lapidar: «Isto é o nosso sangue, a nossa vida.» Sabe porque o diz: muitos dos seus companheiros foram mortos, muitos sofreram, por razões que esses documentos ajudam a explicar. 

Há lágrimas nos olhos do historiador, dos populares, de todos que assistem a essa entrega de documentos. Como haverá outro dia, noutra terra, Suai, onde responsáveis da resistência entregam ao historiador e aos que o acompanham não só os documentos que lograram esconder, mas os restos, queimados, que retiraram das casas incendiadas pelo inimigo.

São três cenas de Timor-Leste, testemunhadas em 2005. Lembrei-me delas em 2007, quando, na prisão de Mansoa, na Guiné-Bissau, Carlos Sambu, um antigo preso, abriu a camisa para mostrar algo cuidadosamente escondido: documentos da época da clandestinidade, entre os  quais um bilhete em que Rafael Barbosa, então dirigente do PAIGC, o apresentava a Amílcar Cabral. Preso em Mansoa, deportado depois para o Tarrafal, aqueles papéis preservados com mil cuidados são parte da sua história, que exibe com alegria, mais que com orgulho, frente aos antigos camaradas de prisão. 

São gestos que me vêm à memória sempre que vejo a displicência – quase o desprezo – com que, em Portugal, se trata a memória da Resistência ao Estado Novo. (E não me refiro apenas à tendência para transformar lugares marcantes dessa memória em condomínios e pousadas.) 

Há um ano, em 2 de Dezembro de 2007, houve em Dili duas cerimónias extraordinárias: no Ginásio da Universidade, uma cerimónia pública solene, presidida pelo Primeiro-Ministro Kay Rala Xanana Gusmão, de reconhecimento do Estado de Timor-Leste a 205 guerrilheiros que integraram a frente armada na luta pela independência nacional por mais de 15 anos, sob a forma da entrega de um cheque no montante de nove mil e seiscentos dólares americanos; no Arquivo & Museu da Resistência Timorense, a imposição da Ordem da Guerrilha aos Combatentes da Libertação Nacional. As duas foram resultado de um minucioso trabalho de memória, feito sob a égide do então Presidente da República, Xanana Gusmão: a realização de um vasto conjunto de inquéritos com vista ao apuramento e verificação dos dados relativos aos combatentes da Resistência tornou possível, com ampla participação popular, assinalar publicamente o esforço e o sofrimento desses timorenses. 

Talvez Portugal e outros países da CPLP tenham algo a aprender com Timor…

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