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Este texto insere-se num conjunto de cartas e documentos trocados entre Salazar e Pedro Teotónio Pereira. João Miguel Almeida concretizou a importante recolha de correspondência trocada entre estas duas figuras do regime de 1945 a 1968. Esta carta não se encontra datada mas foi certamente escrita em 31/10/1961 ou pouco depois. 

 
Um texto de João Miguel Almeida (*)
 
DOCUMENTO 309[1]

EMBAIXADA DE PORTUGAL
WASHINGTON

Senhor Presidente

Escrevo de corrida porque a mala vai partir.

Muito lhe agradeço o telegrama ontem recebido. O caso dos Metodistas[2] precisa de séria consideração. Não podem ser postos em liberdade depois de todas estas semanas na cadeia e da tempestade que eu tenho aguentado aqui, sem a conclusão natural que só pode ser o julgamento. Temos de os libertar depois de bem provada a culpabilidade, até para a política futura a seguir com esta qualidade de «missionários».

A fita aqui, continua mas mais atenuada e com o Departamento de Estado guardando silêncio prudente.

Com a maior alegria mando a V. Excia o texto do discurso de Williams anteontem à noite em New York. Não o posso traduzir porque chegou agora mesmo o texto completo. Representa indiscutivelmente uma grande mudança. Deixou de falar em self-determination e só usa a expressão self-expression. Tudo indica que estamos em face dum princípio de evolução na sua vinda a público. E é bem significativo que seja o Williams a fazê-lo. Compare V. Excia os termos deste discurso com a conversa de há um mês!

Já deve ter sido transmitido pelas agências mas os resumos são sempre muito insuficientes. Este texto precisava de ser habilmente usado aí em Lisboa sem levar muito longe a nossa satisfação mas aparentando certa confiança num melhor entendimento.

Se não surgir um incidente, pode dizer-se que está estabelecida a ponte.

A pretalhada vai dizer que o Williams os está a atraiçoar.

Vou já prevenir o Franco Nogueira em N. York. Ele vem para aqui em 6 e começará as conversas em 7.

Tenho recebido uma nuvem de cartas de apoio ao meu artigo do United States News de todos os pontos da América.

Jantei anteontem com o Sr. Mikinski que manda cordiais saudações a V. Excia.

Fez excelente serviço aqui a declaração de Delgado[3] acerca de Galvão. A parte relativa ao caso do Santa Maria[4] foi especialmente construtiva.

Respeitosos cumprimentos
PedTheoPereira

 
In João Miguel Almeida, António Oliveira Salazar – Pedro Teotónio Pereira. Correspondência Política (1945-1968), Lisboa, Instituto de História Contemporânea. Círculo de Leitores. Temas e Debates, 2008, p. 660. 

 


[1] AOS/CP-213, 92.ª, F. 475.

[2] Junto com esta carta encontrava-se um texto em inglês sobre a situação social e política na África sob domínio português escrito Rev. Malcolm McVeigh, missionário, entre 1958 e 1961, da Igreja Metodista em Angola e já regressado aos Estados Unidos. Os Metodistas desempenhavam missões em Angola desde 1885, encontrando-se presentes em três zonas atingidas por revoltas: Baixa do Cassange, Luanda e Dembos. De acordo com o cálculo do Reverendo, dos 167 pastores e professors metodistas da região de Luanda, 26 estavam presos, 21 tinham sido mortos e 76 encontravam-se em paradeiro desconhecido.

[3] Humberto Delgado – ver Documento 10.

[4] Em 22 de Janeiro de 1961 o Santa Maria paquete de luxo da Companhia Nacional de Navegação, foi assaltado, nas Caraíbas, por um comando do DIR (Directório Revolucionário Ibérico de Libertação).  A «Operação Dulcineia», como foi denominada, fora concebida pela União dos Combatentes Espanhóis e pelo Movimento Nacional Independente, de oposicionistas portugueses ligados a Humberto Delgado. Jorge Sotomayor e Henrique Galvão lideravam, respectivamente, o grupo espanhol e português. O Governo português invocou a aliança da NATO e tentou levar os EUA, Reino Unido e França a retaliar. Em vão. O barco, rebaptizado «Santa Liberdade» acaba por desembarcar a tripulação no Brasil, após promessa de apoio de Jânio Quadros. O navio é entregue em troca de asilo político.

 
Biografia de João Miguel de Almeida

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