battle_on_kosovo1389

Um texto de José Pedro Barreto (*)
Originalmente publicado na revista Egoísta de 9 de Dezembro de 2001

(No seguimento de Pelo sangue derramado)

 
Kosovo, Junho de 1389

Nos idos de 1389 (quatro anos depois da nossa Aljubarrota), o reino cristão da Sérvia está já longe do esplendor que fizera dele um dos mais florescentes da Europa medieval); os turcos otomanos avançam pelos Balcãs, ao assalto da Europa bizantina. Reunida pelo príncipe Lazar, a fina-flor da nobreza sérvia sai a dar combate às tropas do sultão Murad I na planície de Kosovo Polje, o Campo dos Melros. Na véspera da batalha, os turcos terão oferecido a Lazar a escolha entre a rendição com garantias ou o massacre. E diz a lenda, cantada nas estrofes de um riquíssimo cancioneiro épico, que o profeta Elias lhe apareceu com uma mensagem da Virgem: se escolhesse o reino terrestre, ele duraria o tempo de uma vida. Mas se escolhesse o Reino dos Céus, ele duraria toda a eternidade. Lazar escolheu o Céu, e avançou para a batalha.

Não há muitos pormenores históricos do combate. Sabe-se apenas que foi um caos sangrento em que os campos se dizimaram de parte a parte, não poupando os respectivos comandantes. As primeiras notícias que circularam pela Europa sugeriam mesmo uma vitória cristã sobre as tropas do Islão. Mas a carnificina deixou força aos turcos para voltarem anos depois e continuarem a conquista, enquanto os sérvios deixavam todo o seu alento sepultado no Campo dos Melros. E a lenda encarregou-se de transformar a data num mito que embalou tida a nação durante seis séculos de domínio otomano. A derrota do Kosovo é vista pelos sérvios como um Gólgota colectivo, o martírio de um povo em nome da sua fé, uma data que inspira os sonhos de redenção nacional. Toda a cultura popular sérvia se construiu em torno das memórias do Kosovo, com a força de uma Jerusalém perdida. Ainda no dealbar deste século, as mulheres e os combatentes sérvios usavam lenços ou bandas negras de luto, e as mães saudavam o nascimento dos filhos cantando-lhes «Salve, pequeno vingador de Kosovo».

Toda a história de um dos povos mais dilacerados da Europa, até a mais recente, é dominada por este mito fundador. Foi no Kosovo, na evocação dos 600 anos da batalha (1989), que Slobodan Milosevic inflamou os seus compatriotas e desencadeou uma década de guerras na ex-Jugoslávia. E Francisco Fernando, herdeiro do trono imperial austríaco, pagou com a vida o facto de ter resolvido passear por Sarajevo no dia 28 de Junho de 1914. A data que inspirou ao sérvio Gavrilo Prinzip os tiros que detonaram a I Guerra Mundial é o dia de S. Vito (Vidovdan) em que, nos campos de Kosovo, berço espiritual da nação, o santo príncipe Lazar escolheu o reino dos Céus como testemunho do seu martírio redentor.

Guy Cuyvers

 
(*) Biografia de José Pedro Barreto

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