Novembro 2008


carvskis11Na historiografia do 25 de Abril são ainda dominantes as teses de que 1. A revolução apanhou de surpresa as diplomacias mundialmente dominantes, especialmente a Norte-Americana. 2. A intervenção dos Estados Unidos em todo o processo, particularmente no Verão Quente, e a sua influência no seu desfecho (25 de Novembro de 75) são de reduzida importância.

A obra Carlucci vs. Kissinger, patrocinada pelo Instituto Português de Relações Internacionais e pela Fundação Luso-Americana para o Desenvolvimento, que o veterano Bernardino Gomes assina em co-autoria com Tiago Moreira de Sá, desmonta de uma vez por todas essa visão ingénua de uma revolução estritamente nacional, que se faz e desfaz nas barbas do gigante americano, sem que este levante um dedo… numa imaginosa reactualização de David contra Golias, ou numa mais moderna versão do famoso slogan small is beautiful

A partir de agora, sempre que se fale de intromissões e pressões estrangeiras na nossa revolução, ou de apoio norte-americano às forças democráticas portuguesas na transição para a democracia (e a opção por uma ou outra formulação não é, naturalmente, mera questão de semântica!) não se poderá mais argumentar com o estafado fantasma da teoria da conspiração…, o que significa que reflexões por muitos consideradas fantasiosas, como as de Varela Gomes (Revista História nº66, Abril de 1984, por exemplo) e outros, são hoje estudos credíveis, assim provando que também na história, como dizia Vergílio Ferreira, «um erro é uma verdade à espera de vez».

Contudo, entre tantas revelações surpreendentes, confesso que a maior surpresa para mim foi o modo natural e totalmente desinibido com que os autores relatam a intervenção americana em Portugal, como procedimento trivial, burocrático, de mera rotina… e que, sabe-se lá porquê, me fez presente a imagem de Carlucci, (afinal o verdadeiro herói desta história) num programa da RTP, em 1991, no qual, com visível bonomia e desprendimento, se prestou a falar das «brigas» daqueles bons velhos tempos….

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Texto elaborado a partir das intervenções efectuadas no Colóquio «Os Comunistas em Portugal 1921-2008» (8 de Nov.) e no «Congresso Karl Marx» (15 de Nov.).


1. Os partidos e organizações da esquerda radical maoísta fazem parte de um fenómeno que se produziu ao mesmo tempo em partes significativas do globo, e que se filia, de maneira mais imediata, nos impactos provocados pelo conflito sino-soviético e pela revolução cultural chinesa. Apesar de provenientes do mesmo contexto territorial e político, estes dois acontecimentos provocaram diferentes ondas de choque. Na verdade, enquanto a dissenção entre a União Soviética e a China, ocorrida nos alvores da década de sessenta, alimentou cisões no interior dos PCs tradicionais (foi isso que aconteceu também em Portugal, com a ruptura inaugural de Francisco Martins Rodrigues, em 1963-64)[1], a revolução cultural chinesa, iniciada em 1966, teve sobretudo expressão nos meios juvenis radicais, junto de sectores que, em regra, nunca militaram nos PCs pró-soviéticos e que, apesar do discurso ferreamente leninista, mantinham proximidades de fundo com o activismo voluntarista de um certo anarquismo histórico.

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A poucos dias do 25 de Novembro de 1975, o VI Governo, liderado por Pinheiro de Azevedo, auto-suspendeu-se, por considerar que tinha deixado de ter condições para exercer a sua actividade.

Neste vídeo, as declarações prestadas aos jornalistas pelo primeiro-ministro, em 20 de Novembro, mostram bem o clima em que se vivia e as características da personagem.

   
No dia seguinte, 21 de Novembro, um juramento de bandeira de 170 recrutas do Ralis, de punho fechado, viria a ficar célebre.

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E também com imagem.

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Acabou de sair o número 4 da revista Arquivos da Memória.

La Asociación Cultural Mórrimer y el Ayuntamiento de Barrancos tienen el placer de invitarles al estreno del nuevo documental Los Refugiados de Barrancos. El acto tendrá lugar en el salón de actos del municipio de Barrancos el viernes 28 de noviembre a las 21:30 horas (20:30 en Portugal). (…)

 
Sinopsis de Los Refugiados de Barrancos:

Septiembre de 1936. Los últimos pueblos republicanos situados junto a Portugal son conquistados por las tropas del general Franco. Al igual que en Badajoz y otras poblaciones, la represión que desatan es brutal. El apoyo del dictador portugués Salazar a los golpistas no hace aconsejable huir hacia Portugal, pero para muchos es su única salida. De esta manera, cientos de personas deciden cruzar la frontera perseguidos de cerca por los sublevados. El procedimiento habitual de las autoridades portuguesas es entregarlos a sus aliados franquistas. Sin embargo, gracias a la humanitaria intervención del teniente portugués António Augusto de Seixas, se crean junto a la localidad de Barrancos dos campos de refugiados para alojar y proteger a este grupo de españoles.

Pavel

Divulgamos hoje a segunda parte de um artigo publicado no jornal Expresso de 4/12/1993, pouco depois da morte de Pavel. A primeira parte pode ser lida aqui.

Um texto de Edmundo Pedro (*)

Quando Paula de Oliveira, em 1977, a convite de Mário Soares, visitou Portugal pela primeira vez, contou-me este episódio – que constituiu, segundo me disse, o maior choque da sua vida!

Com efeito, chegara a Paris eufórico, depois de um feito extraordinário, disposto a renovar a sua actividade política – e em vez de ser saudado efusivamente pelo sucesso da sua fuga e por tudo o que esse sucesso representava, viu-se afastado sob infamante suspeita!

A notícia da sua fuga chegou rapidamente ao Tarrafal – e foi por nós saudada com enorme entusiasmo. Considerámo-la uma grande derrota para o regime: muitos dos que ali estavam tinham conhecido F. Paula de Oliveira na intimidade e estavam seguros da sua inteireza de carácter e da sua enorme dedicação à causa em que profundamente acreditava – e à qual devotara, por completo, a sua vida.

Enquanto a situação não fosse esclarecida (o que, como se compreende, seria extremamente fácil recorrendo às informações do PCP), Francisco Paula de Oliveira assumiria a personalidade de um homem que morrera na Guerra Civil de Espanha e passaria a chamar-se Antonio Rodriguez. E assim aconteceu! Munido do passaporte de Antonio Rodriguez, Francisco Paula de Oliveira foi riscado do mundo dos vivos e, em seu lugar, ressuscitou Antonio Rodriguez, o qual, depois de fisicamente morto, acabou por reaparecer no México e ali fazer uma brilhante carreira de escritor! Um tema a desafiar a imaginação de um Kafka…

Francisco Paula de Oliveira aceitou estoicamente a situação que lhe criaram. Esperou serenamente o resultado do inquérito, certo como estava de aquela infamante suspeita seria facilmente ultrapassada. Não protestou, não pavz2afez barulho (a exemplo do que aconteceu a tantas outras vítimas do estalinismo), visto que continuava a ser comunista e não queria prejudicar a imagem do movimento a que devotara a sua vida. Não acusou ninguém. Os soviéticos admitiriam mais tarde, em privado, que o seu caso fora um erro trágico! Mas, a exemplo do que aconteceu com alguns dos obreiros fundamentais da Revolução Russa, que desapareceram da História por imposição de Estaline, também a figura lendária e exemplar de Pavel, o brilhante operário que se guindou pelo seu talento aos cumes da cultura mundial, foi apagada da história do PCP e do movimento operário por imposição de A. Cunhal, a quem a projecção e a inteligência de F. Paula de Oliveira obviamente incomodavam. E também a má consciência em relação ao crime de lesa-humanidade cometido contra aquele insigne filho da classe operária.
Com o pintor David Alfaro Siqueiros

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Por ocasião do centenário do nascimento de Pavel (Francisco Paula de Oliveira), realizam-se esta semana, em Lisboa, dois colóquios. Este blogue associa-se à efeméride, divulgando hoje a primeira parte de um artigo publicado no jornal Expresso, em 4/12/1993, pouco depois de Pavel morrer. A segunda parte será publicada amanhã.

Um artigo de Edmundo Pedro (*)

Francisco Paula de Oliveira – o Pavel, pseudónimo que adoptara na clandestinidade – acaba de falecer no México com o nome que foi forçado a adoptar, de Antonio Rodriguez. Conheci-o em fins de 1932, quando se encontrava detido na enfermaria do Limoeiro. Fora transferido do Aljube para aquele estabelecimento prisional por se encontrar tuberculoso. Algum tempo depois, e atendendo ao seu precário estado de saúde, transferiram-no sob prisão para o sanatório da Ajuda. Acabou por fugir dali com o apoio de meu pai, que o levou para a sede clandestina do PCP (situada, então, na Rua S. Sebastião da Pedreira), de que meus pais eram responsáveis. Essa circunstância permitiu-me conhecê-lo de perto e apreciar as suas invulgares qualidades, tanto no plano da sua fascinante personalidade como no da sua já então vasta cultura geral e política. Era um homem apaixonado pela literatura, pela história, pela filosofia, pelas artes e, evidentemente, pela política. O seu pendor especulativo e a sua transbordante imaginação explicam, de resto, a circunstância de se ter tornado conhecido na empresa onde trabalhava (o Arsenal da Marinha) sob o nome de Viagens à Lua.

Francisco P. de Oliveira entrou na clandestinidade no fim de 1931 ou início de 1932, abandonando a oficina de máquinas do Arsenal justamente na altura em que eu ali fui admitido. Algum tempo depois foi preso. Visitei-o várias vezes na cadeia, como elemento de ligação, levando e trazendo mensagens do partido. Meu pai era um quadro do PCP e eu, já então membro activo da JCP, era utilizado nessas tarefas – tarefas que acabariam por conduzir-me, aliás, cerca de um ano depois, à prisão, ao tentar transmitir à célula do PCP do Regimento de Caçadores Sete (sediado, nesse tempo, no Castelo de S. Jorge), na véspera do 18 de Janeiro de 1934, instruções relacionadas com o movimento que eclodiu naquela data.

Francisco Paula de Oliveira (tal como outros grandes vultos da literatura mundial) era um autodidacta. Sabia várias línguas, o que nada tinha de especial, mas cometeu a preza extraordinária de ter aprendido a língua russa sozinho, em poucos meses, enquanto esteve na enfermaria do Limoeiro! Apesar de termos vivido em comum durante poucos meses, exerceu uma influência determinante sobre a minha orientação política e cultural.

Como era natural, Pavel tornou-se rapidamente, a meus olhos, em todos os aspectos, o modelo de referência do quadro comunista que eu nesse tempo aspirava ser: incondicionalmente devotado à luta por um mundo mais justo e mais humano (representado, nessa época, pelo projecto comunista) – e disposto a todos os sacrifícios (mesmo o da própria vida) na luta pela concretização desse objectivo.

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