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Francisco Paula de Oliveira («Pavel»), operário serralheiro do Arsenal de Marinha e dirigente da Federação das Juventudes Comunistas Portuguesas (FJCP) na clandestinidade, desde 1932, foi preso pela primeira vez pela polícia política, em Fevereiro desse ano, mas acabou então por ser solto por falta de provas. Mais tarde, a PVDE apuraria que, dias antes dessa detenção, «Pavel» havia iniciado a reorganização das juventudes comunistas, numa reunião realizada na Costa da Caparica, onde fora nomeado um novo secretariado da Federação das Juventudes Comunistas Portuguesas (FJCP), no qual ele próprio ficara responsável pela imprensa.

Depois, ainda segundo o relatório daquela polícia, «Pavel» tinha sido enviado como delegado português a um congresso das juventudes comunistas espanholas, que não chegara a realizar-se. Após regressar de Madrid, convocara nova conferência regional para a Costa Caparica, tendo proposto nova reorganização da FJCP e, pouco depois, redigira um informe em nova reunião realizada na Amadora. Tinha ainda participado na organização de um plano de acção para a agitação para 4 de Setembro de 1932 e, nesse dia, havia sido ele a discursar num comício relâmpago em Alcântara.

Em 13 de Março de 1933, «Pavel» foi novamente preso, quando, na clandestinidade, visitava a sua mãe numa casa na Rua do Ferragial, em Lisboa. Ao verificar que ele sofria de uma grave doença pulmonar e não querendo que morresse nas suas mãos, a polícia transferiu-o da cadeia Aljube para a enfermaria do Limoeiro. Foi aqui que Edmundo Pedro conheceu «Pavel», que, devido ao seu precário estado de saúde, acabou por voltar a ser transferido, sob prisão, para o hospital-sanatório da Ajuda, de onde ele conseguiria evadir-se, em 3 de Setembro de 1933, com a ajuda de um indivíduo de nome Ferreira da Silva, motorista, e de Gabriel Pedro que o levou depois para uma sede clandestina do PCP, em Lisboa (1).

Fugindo para Espanha e daí para a URSS, «Pavel» fixar-se-ia, durante três anos, em Moscovo, para cursar na Escola de quadros leninistas e exercer tarefas práticas na Internacional Comunista da Juventude (ICJ), enquanto era condenado à revelia, em Portugal, a dois anos de prisão correccional. Entretanto, em 11 de Novembro de 1935, o PCP sofreu uma grande machadada, com as prisões, num encontro de rua em Lisboa, dos membros do seu Secretariado, José de Sousa, Júlio Fogaça e Bento Gonçalves. Devido a essas prisões, a ICJ decidiu que a delegação da FJCP permanecesse em Moscovo, até ao princípio 1936, e depois, numa reunião do Bureau Latino do Comintern, realizada na capital da URSS, ficou decidido que «Pavel» deveria regressar a Portugal para reorganizar o PCP. Após uma estadia de meses em Paris e Madrid, «Pavel» regressou clandestinamente a Portugal, no início de 1937, num cargueiro vindo de Marselha. Pouco depois de aportar à Rocha de Conde de Óbidos, em Lisboa, integrou o Secretariado do PCP, com Alberto Araújo, Francisco Sacavém e Firminiano Cansado Gonçalves.

Seguindo as directivas do VII Congresso da IC, «Pavel» iniciou o combate ao radicalismo sectário e a propensão para acções violentas, preocupando-se também em erguer a Frente Popular e formar uma central sindical única, que englobasse a CGT anarquista, a Comissão Inter-Sindical (CIS), dos comunistas e os Sindicatos Autónomos, dos socialistas. Na FJCP, foram também dados passos no sentido da concretização da política frentista, sendo criado, nas universidades, o Bloco Académico Antifascista (BAA), activa entre 1936 e 1938.

Em 10 de Janeiro de 1938, «Pavel» voltou a ser preso, desta vez pelo agente José Gonçalves da PVDE, após ter tentado resistir e lançar fogo ao arquivo, numa casa da Rua da Beneficência n.º180-2.º, onde estava montada a sede do secretariado do PCP e a redacção do Avante! Dois dias depois, Maria Eugénia Martins, que vivia com «Pavel» mas não se encontrava nessa casa quando este fora preso, também foi detida pelo agente António Pinto Soares, na Avenida Sacadura Cabral.

Interrogado várias vezes pelo capitão José Ernesto Catela do Vale Teixeira, secretário-geral da PVDE, e pelo investigador Raul Pinheiro, «Pavel» foi considerado, por essa polícia, «depois de Bento Gonçalves e José de Sousa, o mais hábil e perigoso condutor das massas revolucionárias». Dada a precariedade da sua saúde – tuberculose -, baixou à enfermaria do Aljube, onde entrou em contacto com o enfermeiro Augusto Rodrigues, que lhe disse ser um antigo militante da FJCP (2). Como «Pavel» desafiasse os guardas da cadeia, cantando canções revolucionárias, Augusto Rodrigues avisou-o de que nem ele nem o PCP lucrariam com a «brutal sova» de que estava ameaçado. Depois de um momento de desconfiança inicial e de o pôr à prova, «Pavel» acabou por confiar nesse enfermeiro, que lhe prometeu ajuda para uma evasão, desde que ele próprio pudesse ir para a URSS e que também fugisse o seu ex-controleiro na FJCP, António Gomes Pereira, que estava muito doente e queria morrer em liberdade.

Com a sua ajuda, «Pavel», o enfermeiro e este outro preso, António Gomes Pereira, conseguiram, em 23 de Maio de 1938, fugir. Atingindo a clarabóia de um prédio lateral ao Aljube, no qual penetraram, desceram depois as escadas, até à rua, onde os aguardavam dois automóveis, um, com Inácio Fiadeiro e a sua mulher, Stella Bicker, e outro, com Manuel Domingues. «Pavel», que se magoou durante a fuga, foi levado ao médico comunista Ludgero Pinto Basto, que o tratou e, após um período em que andou escondido em diversas casas de militantes do PCP, acabaria por ir para o Porto e, daí, sair do país, clandestinamente, na caixa de carvão de um navio sueco, via Casablanca, até Marselha e Paris. Ao descrever a prisão e fuga de «Pável», Fernando Gouveia aproveitou para referir a «intriga e luta interna» na organização clandestina do PCP e da FJCP em Portugal e no estrangeiro.

Em 5 de Setembro de 1938, a IC, através do se delegado em Paris, Victorio Codovilla considerou suspeitas as condições da fuga de «Pavel» e, concluindo, como já o havia feito anteriormente, pela existência de indícios de infiltração policial no PCP, decidiu suspender as relações com a direcção deste partido. Em Paris, onde se encontrava, sem saber da suspensão do PCP, Francisco Paula de Oliveira elaborou, com a data de 9 de Fevereiro, um relatório, para a IC, reconhecendo a incapacidade de ter conseguido uma viragem completa da actividade partidária, na linha do VII Congresso do Comintern. O seu balanço não era porém completamente pessimista, dado que, segundo ele, o número de militantes do PCP estaria acima dos 500 e que esse partido teria tido avanços em matéria sindical, na influência na imprensa legal e em associações desportivas, bem como na infiltração em aparelhos e organizações do próprio regime. Abandonado pela IC e pelo PCP do interior, «Pavel» exilar-se-ia no México.

(1) Edmundo Pedro, «A segunda morte de Pavel», in Expresso, 4/12/1993, artigo reproduzido neste blogue aqui e aqui.
Mais tarde, Ferreira da Silva esteve em Tânger (1959) e terá sido informador da PIDE, provavelmente com o pseudónimo «Nunes da Silva», denunciando nomeadamente o exilado Fernando Queiroga, participante no «golpe» da Mealhada, em 1946. Transferido de Marrocos para a Argélia e trabalhando inicialmente como topógrafo, Ferreira da Silva informaria a PIDE sobre Humberto Delgado e participaria na tentativa de rapto, em Espanha, de Tito Morais, realizada por António Rosa Casaco e José Gonçalves, que sofreram uma acidente de viação, em Zafra, pelo que a operação falhou.

(2) Ludgero Pinto Basto, num depoimento publicado no Expresso de 31.12.1993, em resposta a um texto de Edmundo Pedro, afirmou que o enfermeiro nunca tinha sido da FJCP e havia sido aliciado na cadeia pelo próprio «Pavel». No entanto, este último, confirmou que o enfermeiro o abordou, dizendo-lhe que tinha sido da organização comunista da juventude, como se pode ver em José Pacheco Pereira, Álvaro Cunhal. Uma Biografia Política, «Daniel…», p. 311.

Fontes e bibliografia:
– Arquivo da PIDE/DGS, processo 25/38, de Francisco Paula de Oliveira, Maria Eugénia Martins Correia, Alexandre Martins Correia, Alberto Araújo, Virgínia Inês de Lima, Ludgero Pinto Basto e outros.
– José Pacheco Pereira, Álvaro Cunhal, Uma Biografia Política, «Daniel, o Jovem Revolucionário (1913-1941)», volume 1, Lisboa, Temas e Debates, 1999, pp. 305-325.

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