Pavel

Divulgamos hoje a segunda parte de um artigo publicado no jornal Expresso de 4/12/1993, pouco depois da morte de Pavel. A primeira parte pode ser lida aqui.

Um texto de Edmundo Pedro (*)

Quando Paula de Oliveira, em 1977, a convite de Mário Soares, visitou Portugal pela primeira vez, contou-me este episódio – que constituiu, segundo me disse, o maior choque da sua vida!

Com efeito, chegara a Paris eufórico, depois de um feito extraordinário, disposto a renovar a sua actividade política – e em vez de ser saudado efusivamente pelo sucesso da sua fuga e por tudo o que esse sucesso representava, viu-se afastado sob infamante suspeita!

A notícia da sua fuga chegou rapidamente ao Tarrafal – e foi por nós saudada com enorme entusiasmo. Considerámo-la uma grande derrota para o regime: muitos dos que ali estavam tinham conhecido F. Paula de Oliveira na intimidade e estavam seguros da sua inteireza de carácter e da sua enorme dedicação à causa em que profundamente acreditava – e à qual devotara, por completo, a sua vida.

Enquanto a situação não fosse esclarecida (o que, como se compreende, seria extremamente fácil recorrendo às informações do PCP), Francisco Paula de Oliveira assumiria a personalidade de um homem que morrera na Guerra Civil de Espanha e passaria a chamar-se Antonio Rodriguez. E assim aconteceu! Munido do passaporte de Antonio Rodriguez, Francisco Paula de Oliveira foi riscado do mundo dos vivos e, em seu lugar, ressuscitou Antonio Rodriguez, o qual, depois de fisicamente morto, acabou por reaparecer no México e ali fazer uma brilhante carreira de escritor! Um tema a desafiar a imaginação de um Kafka…

Francisco Paula de Oliveira aceitou estoicamente a situação que lhe criaram. Esperou serenamente o resultado do inquérito, certo como estava de aquela infamante suspeita seria facilmente ultrapassada. Não protestou, não pavz2afez barulho (a exemplo do que aconteceu a tantas outras vítimas do estalinismo), visto que continuava a ser comunista e não queria prejudicar a imagem do movimento a que devotara a sua vida. Não acusou ninguém. Os soviéticos admitiriam mais tarde, em privado, que o seu caso fora um erro trágico! Mas, a exemplo do que aconteceu com alguns dos obreiros fundamentais da Revolução Russa, que desapareceram da História por imposição de Estaline, também a figura lendária e exemplar de Pavel, o brilhante operário que se guindou pelo seu talento aos cumes da cultura mundial, foi apagada da história do PCP e do movimento operário por imposição de A. Cunhal, a quem a projecção e a inteligência de F. Paula de Oliveira obviamente incomodavam. E também a má consciência em relação ao crime de lesa-humanidade cometido contra aquele insigne filho da classe operária.
Com o pintor David Alfaro Siqueiros

Num livro publicado pela editorial A Opinião (obviamente ligada ao PCP), dedicado à divulgação da carreira política de Bento Gonçalves, na qual se faz uma análise da vida interna do partido, nomeadamente do período em que ele dirigiu o PCP com Pavel, não há uma palavra sequer sobre o importantíssimo papel por ele desempenhado em todo esse período de verdadeira fundação do partido! Pavel fora, antes de seguir para a URSS, um dos três membros do Secretariado Executivo do PCP. Fora secretário-geral da Federação da Juventude Comunista Portuguesa. Fora uma figura importante da Internacional Comunista. Fora companheiro de trabalho de Bento Gonçalves na oficina de máquinas do Arsenal da Marinha. Fora um destacado dirigente do sindicato daquela empresa! Como é que a Imprensa de um partido que continua a afirmar-se da classe operária pode passar em silêncio a morte de um tal homem? O que é que se esconde por detrás deste criminoso e deliberado apagamento da memória de um militante essencial na história do partido? Será só má consciência?

Ou, e ainda e sempre, a omnipresença, na direcção do PCP, do inquisitorial espírito estalinista?
Em 1940-41, pouco tempo depois desta ocorrência, A. Cunhal reorganiza o PCP apoiado nos quadros regressados do Tarrafal.

Passa, na prática, a exercer o cargo de secretário-geral. A nova direcção não se lembra mais de F. Paula de Oliveira, o lendário Pavel!

Há nesta criminosa omissão, neste aviltamento deliberado de um homem de uma enorme estatura moral condenado ao ostracismo e ao opróbio por ter cometido uma proeza notável, uma evidente responsabilidade colectiva. Mas há, da parte de Cunhal, que nessa conjuntura assume as funções que estavam cometidas a F. Paula de Oliveira (secretário-geral interino), uma responsabilidade particular. É que Cunhal manifestara aos jovens que com ele, no Verão de 1935, participaram no VI Congresso da Internacional Juvenil Comunista a opinião de que Pavel era a figura número um do partido – era aquele que, em seu entender, reunia o perfil mais adequado ao exercício do cargo de secretário-geral (esta versão foi-me transmitida pelos próprios, ao chegarem ao Tarrafal, algum tempo depois). Apesar dessa opinião, deixou-o ficar no México, a coberto do nome do nome de um morto – e não fez o mais pequeno gesto para esclarecer, a nível nacional e internacional, uma situação em relação à qual possuía todos os elementos que permitiam clarificá-la. Em vez disso, a direcção do PCP, de que era e é responsável, amarrou-o, para sempre, a uma infamante suspeita!

EM 1961 A. Cunhal e um importante grupo de dirigentes do PCP fugiram do Forte de Peniche com a colaboração de um dos guardas encarregados de os vigiar o qual, a exemplo do que fizera o enfermeiro do Aljube aquando da evasão de Pavel, os acompanhou na fuga. Os soviéticos e os seus homens de confiança a nível internacional não se lembraram de considerar essa fuga suspeita. Bem pelo contrário. A. Cunhal continuou a gozar da sua inteira confiança – e passou mesmo, depois da evasão e durante muito tempo, a viver em Moscovo.

Antes do regressar a Portugal, em 1936, Francisco Paula de Oliveira casou-se com uma russa, de quem teve um filho. Depois da fuga, a sua mulher foi perseguida na URSS, pelo simples facto de ter casado com ele! Para furtar o filho às perseguições de que a família foi alvo após a evasão, a russa mudou o nome do filho. Foi atingido pela mesma maldição (e o mesmo destino) que caíra sobre o pai! Vítimas do implacável estalinismo, tiveram ambos, para continuar a viver, de refugiar-se sob um falso nome e de assumir outra personalidade!

Seria interessante conhecer o que rezam os arquivos soviéticos sobre este drama digno dos melhores de Shakespeare – e trazer à luz do dia o modo como o PCP «arrumou» este melindroso caso.

A recente publicação de alguns documentos retirados dos arquivos soviéticos dá-nos algumas esperanças de, a partir da mesma fonte, vir a conhecer as verdadeiras razões que conduziram a Internacional Comunista e o PCP a enterrar em vida a figura extraordinária de Francisco Paula de Oliveira, a cuja honrada memória não podia deixar de prestar este merecido e saudoso preito de homenagem – a mesma homenagem que o México prestou ao seu heterónimo Antonio Rodriguez. O nome impoluto da grande figura moral que foi Francisco Paula de Oliveira exige uma reparação póstuma! Atrevo-me a sugerir, nesse sentido, a tradução e publicação das suas obras mais representativas, com o apoio, por exemplo, da Fundação Gulbenkian ou de qualquer outra entidade privada com vocação para esse tipo de iniciativas. De qualquer maneira, trata-se de um português ilustre roubado ao nosso património cultural por um crime imperdoável!

(*) Biografia de Edmundo Pedro.

N. da R. – Este artigo deu origem a uma resposta por parte de Ludgero Pinto Basto, também publicada no Expresso. A mesma está disponível online.

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