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Por ocasião do centenário do nascimento de Pavel (Francisco Paula de Oliveira), realizam-se esta semana, em Lisboa, dois colóquios. Este blogue associa-se à efeméride, divulgando hoje a primeira parte de um artigo publicado no jornal Expresso, em 4/12/1993, pouco depois de Pavel morrer. A segunda parte será publicada amanhã.

Um artigo de Edmundo Pedro (*)

Francisco Paula de Oliveira – o Pavel, pseudónimo que adoptara na clandestinidade – acaba de falecer no México com o nome que foi forçado a adoptar, de Antonio Rodriguez. Conheci-o em fins de 1932, quando se encontrava detido na enfermaria do Limoeiro. Fora transferido do Aljube para aquele estabelecimento prisional por se encontrar tuberculoso. Algum tempo depois, e atendendo ao seu precário estado de saúde, transferiram-no sob prisão para o sanatório da Ajuda. Acabou por fugir dali com o apoio de meu pai, que o levou para a sede clandestina do PCP (situada, então, na Rua S. Sebastião da Pedreira), de que meus pais eram responsáveis. Essa circunstância permitiu-me conhecê-lo de perto e apreciar as suas invulgares qualidades, tanto no plano da sua fascinante personalidade como no da sua já então vasta cultura geral e política. Era um homem apaixonado pela literatura, pela história, pela filosofia, pelas artes e, evidentemente, pela política. O seu pendor especulativo e a sua transbordante imaginação explicam, de resto, a circunstância de se ter tornado conhecido na empresa onde trabalhava (o Arsenal da Marinha) sob o nome de Viagens à Lua.

Francisco P. de Oliveira entrou na clandestinidade no fim de 1931 ou início de 1932, abandonando a oficina de máquinas do Arsenal justamente na altura em que eu ali fui admitido. Algum tempo depois foi preso. Visitei-o várias vezes na cadeia, como elemento de ligação, levando e trazendo mensagens do partido. Meu pai era um quadro do PCP e eu, já então membro activo da JCP, era utilizado nessas tarefas – tarefas que acabariam por conduzir-me, aliás, cerca de um ano depois, à prisão, ao tentar transmitir à célula do PCP do Regimento de Caçadores Sete (sediado, nesse tempo, no Castelo de S. Jorge), na véspera do 18 de Janeiro de 1934, instruções relacionadas com o movimento que eclodiu naquela data.

Francisco Paula de Oliveira (tal como outros grandes vultos da literatura mundial) era um autodidacta. Sabia várias línguas, o que nada tinha de especial, mas cometeu a preza extraordinária de ter aprendido a língua russa sozinho, em poucos meses, enquanto esteve na enfermaria do Limoeiro! Apesar de termos vivido em comum durante poucos meses, exerceu uma influência determinante sobre a minha orientação política e cultural.

Como era natural, Pavel tornou-se rapidamente, a meus olhos, em todos os aspectos, o modelo de referência do quadro comunista que eu nesse tempo aspirava ser: incondicionalmente devotado à luta por um mundo mais justo e mais humano (representado, nessa época, pelo projecto comunista) – e disposto a todos os sacrifícios (mesmo o da própria vida) na luta pela concretização desse objectivo.

Em meados de 1933, minha mãe foi detida na fronteira quando regressava de Espanha , aonde se deslocara em missão partidária. Depois de um certo tempo de incomunicabilidade, enviaram-na para as Mónicas. Não revelou a morada da sede clandestina do PCP, mas, no seguimento desse percalço, como era de norma, o partido transferiu a sua sede para outro lado – e eu deixei de ter contacto com Pavel. Só cerca de meio século depois tornaria a encontrá-lo!

Com efeito, em 1977, Francisco Paula de Oliveira, que se radicara no México e ali se tornara famoso como escritor e intelectual de grande projecção, deslocou-se a Portugal a convite de Mário Soares e pude assim retomar o contacto com ele, não só no jantar que o então primeiro-ministro lhe ofereceu como em diversos encontros pessoais, o que significou para mim um reencontro verdadeiramente exaltante, visto que Pavel continuava a representar no meu imaginário uma figura mítica.

A importância intelectual da obre de Francisco Paula de Oliveira para a cultura mexicana, em vários domínios (nomeadamente como ficcionista e crítico de arte), em particular na área da pintura, foi tal que o Governo daquele país lhe prestou há poucos anos uma homenagem nacional, em reconhecimento pelo seu significativo contributo nessa matéria. Os seus livros, tanto os de ficção como os que tratam das matérias em que se especializou e adquiriu notoriedade – particularmente os de crítico de arte – estão traduzidos em inúmeras línguas, incluindo o russo.

Francisco Paula de Oliveira perdeu-se para a cultura nacional (para a qual as suas extraordinárias aptidões poderiam ter dado um contributo valiosíssimo) e para a luta, no nosso país, por um mundo mais humano – luta que, aliás, prosseguiu no México, sua terra de adopção, incansavelmente, até ao fim dos seus dias. O seu profundo humanismo, servido por uma pena brilhante, foi ali posto ao serviço da dignificação dos povos autóctones oprimidos pela colonização espanhola e ainda hoje marginalizados.
Que circunstâncias extraordinárias fizeram com que este homem invulgar, que amava o seu país, dele se desligasse ao ponto de ter praticamente esquecido o idioma que cultivou com esmero durante a primeira parte da sua vida? Que trauma enorme o atingiu para que efectuasse um corte tão radical com a sua memória, com o seu passado – com a sua origem?

Tendo seguido para a União Soviética no início de 1934, após o 18 de Janeiro, ali ganhou, rapidamente, uma sólida reputação como quadro da Internacional Comunista. Com a detenção de Bento Gonçalves, secretário-geral do PCP, em Dezembro de 1935, pouco depois de regressar da URSS, o PCP fica decapitado. Em face disso, a Internacional Comunista decide enviar para Portugal, com a missão de reorganizar o partido, Francisco Paula de Oliveira. Chega aqui, clandestinamente, em 1937 e é detido, em condições nunca inteiramente esclarecidas.

Dados os seus antecedentes clínicos, enviam-no para a enfermaria do Aljube. Ali, em contacto com o ajudante de enfermeiro ao serviço da prisão (Augusto, que pertencera à Juventude Comunista) convence-o a participar no plano da fuga, que elaborara. O Augusto acompanhá-lo-ia na fuga.

Identificado com o projecto, o jovem enfermeiro entra em contacto com a direcção do PCP, que decide dar todo o seu apoio à execução do plano (esta versão foi-me confirmada pelo Dr. Ludgero Pinto Basto, então membro da direcção do PCP).

Francisco Paula de Oliveira consegue fugir do Aljube e chegar a Paris com o apoio e a activa colaboração da direcção do PCP. Contacta ali com o representante da Internacional Comunista, que considera a fuga do secretário-geral interino de um partido comunista clandestino, nas condições em que se operou, um acontecimento suspeito. Resolve, por isso, suspendê-lo e submetê-lo a um inquérito – inquérito cujo resultado nunca mais foi conhecido!

(Continua)

(*) Biografia de Edmundo Pedro.
N. da R. – Este artigo deu origem a uma resposta por parte de Ludgero Pinto Basto, também publicada no Expresso. A mesma será referenciada, para eventual leitura online, quando terminarmos a publicação do texto de Edmundo Pedro.

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