asm2

Um texto de Manuel António Pina (*)

Originalmente publicado em Notícias Magazine, de 16/11/2008

Heine chamou aos historiadores profetas do passado pois a História, como todas as formas de memória, pode ser escrita, ou imaginada, de intermináveis modos. Escrever a História é, de facto, uma espécie de exercício de arte combinatória de alguns da totalidade infinita dos acontecimentos, dando-lhes coerência narrativa e tentando adivinhar neles alguma forma de sentido ou de desígnio. O homem é um animal causal e precisa desesperadamente de sentido. Infelizmente, a sucessão dos acontecimentos históricos (o que quer que isso seja) raramente tem sentido, o sentido é algo que havemos de ser nós a conferir-lhe.

Vem isto a propósito de o ex-embaixador Hall Themido ter vindo, em livro recente, a reescrever a acção de Aristides Sousa Mendes no salvamento de judeus durante a 2ª Guerra. Na História de Hall Themido, Salazar fez o que devia ao demitir o cônsul, sendo «incompreensível criticar» o Ministério dos Negócios Estrangeiros, «incluindo o ministro, por ter aplicado a lei nas circunstâncias da época». Aristides Sousa Mendes foi punido pela sua «actuação irregular» ao conceder vistos (como se sabe, «irregulares») a judeus em fuga à barbárie nazi, pois era necessário «manter disciplina nos serviços que de forma directa ou indirecta pudessem, com a sua actuação, afectar o estatuto de neutralidade» do país.

Para Hall Themido, relevante na actividade de Aristides Sousa Mendes enquanto cônsul em Bordéus não foi ter sacrificado a carreira a salvar gente dos campos de extermínio, mas o facto (provavelmente também «histórico») de o processo disciplinar de que foi alvo ter sido «o último de vários […] ao longo da carreira».

Segundo o ex-embaixador, Sousa Mendes é «um mito criado por judeus» (onde é que já ouvi algo parecido sobre Auschwitz?), e é «totalmente irrealista» falar-se em 30 000 vistos «concedidos em apenas alguns poucos dias pelo cônsul e seus familiares, de forma cega, no consulado e até nos cafés da vizinhança» (onde é que já ouvi algo parecido sobre os números do Holocausto?). Talvez, com efeito, 30 000 seja um número redondo de mais. Talvez Sousa Mendes tenha, desobedecendo a Salazar, salvo apenas 29 999 judeus. Ou talvez, quem sabe?, tenha sido apenas um. A dimensão ética da sua desobediência e do sacrifício a que, por isso, se expôs não depende do número de pessoas que terá salvo. Mesmo que, para outros, devesse ter seguido a ética (chamemos-lhe assim) da obediência e cuidado da própria carreira, deixando os judeus que lhe pediam auxílio ir (azar deles) para as câmaras de gás.

Ao contrário de Sousa Mendes, Hall Themido teve uma longa carreira cumprindo ordens (onde é que também já ouvi isto?), quer sob o fascismo quer depois do 25 de Abril. «Manda quem pode e obedece quem deve» e, por isso, nunca lhe terá passado pela cabeça desobedecer aos superiores, fossem quem fossem e ordenassem o que ordenassem. E, na sua hierarquia de valores, não há, pelos vistos, nada «superior», nem as leis dos homens nem a lei de Deus, ao seu ministro.
As citações de Hall Themido foram recolhidas do “Expresso”.

(*) Biografia de Manuel António Pina

Anúncios