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Um texto de José Pedro Barreto (*)
Originalmente publicado na revista Egoísta de 9 de Dezembro de 2001

(No seguimento de Pelo sangue derramado)

 
Gallipoli, Abril de 1915 

Em 1915, os comandos Aliados estavam perante o impasse da guerra de trincheiras na Frente ocidental. Mas havia uma hipótese de quebrá-lo: se a esquadra britânica forçasse a passagem dos Dardanelos e ancorasse diante de Constantinopla poderia levar a Turquia à rendição, abrir uma via de abastecimento para a Rússia e golpear assim a Alemanha e a Áustria pelo flanco aberto. 

Uma primeira tentativa falhou: era preciso quebrar as sólidas defesas turcas nos Dardanelos com um desembarque anfíbio, e a missão foi confiada às tropas coloniais da Austrália e da Nova Zelândia, fiéis súbditos do Império britânico. Em Abril de 1915 os Anzac’s desembarcaram nas praias da península de Gallipoli cantando Waltzing Matilda, a tradicional marcha australiana. Os generais previam que tudo estaria resolvido em três dias. 

Uma canção popular ainda hoje repetida conta o que se passou: «Oh, nunca esquecerei esse dia terrível / Em que o sangue tingiu a areia e as águas / E como, nesse inferno a que chamam Suvla Bay / Fomos chacinados como carneiros no matadouro. O Zé Turco estava alerta, e serviu-se bem / Regou-nos de balas e granadas / E em apenas cinco minutos mandou-nos todos para o Inferno / Quase nos atirou de volta para a Austrália». 

A operação resulta num fiasco total. Sob o fogo dos turcos entrincheirados nas falésias, o calvário dos Anzac’s vai durar 259 dias, de Abril de 1915 a Janeiro de 1916. Raramente conseguirão avançar mais que umas dezenas de metros nas praias, apesar de vários episódios de bravura inaudita. Na hora da retirada, de um total de 500 mil homens desembarcados, 300 mil estavam feridos ou mortos. 

Para os turcos, Gallipoli evoca uma gesta heróica, sob o comando de um general chamado Mustafá Kemal que, anos depois, com o cognome de Attatürk, o Pai dos Turcos, haveria de erguer a nova República dos escombros do Império Otomano. Mas para australianos e neo-zelandeses, vindos do outro lado do mundo morrer numa praia longínqua de uma longínqua guerra europeia, ela marca o despertar da sua consciência nacional. Duas décadas depois ainda haveriam de marchar pelo Império. Mas o sangue derramado em Gallipoli amassara-as como nações adultas, impelindo-as a cortar um dia as amarras.

«Então, os que sobravam fizeram tudo para sobreviver / Naquela loucura de morte, sangue e fogo. E a banda tocava Waltzing Matilda
 

 
(*) Biografia de José Pedro Barreto

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