Último texto desta série  Os três primeiros podem ser lidos aqui, aqui e aqui. 
 
Nos três posts anteriores, descrevi a sabotagem, pela ARA, de material de guerra que deveria seguir para a guerra colonial, em Angola, no navio Muxima, em Janeiro de 1972, e o trabalho de investigação desenvolvido pela PIDE/DGS.

A polícia política interrogou todos os tripulantes do navio Muxima, os em­pregados, os encarregados e até os administradores das empresas ligadas à carga de mercadorias. Foram interrogados os conferentes marítimos, os guardas da GNR e da Guarda Fiscal que estiveram de serviço no cais de Alcântara, as pessoas que despacharam bagagens para o Muxima, fami­liares destes, os motoristas que conseguiram identificar como tendo transportado bagagem ao cais de embarque, agentes de navegação. Foram interrogados os empregados e administradores de empresas que enviaram carga para o Muxima, os empregados da TAP onde fora feita a reserva da viagem para Angola, os empregados e o despachante oficial da firma através da qual se fez o despacho. Tudo isto consta com abundância de pormenores no dossier «Muxima» da PIDE/DGS.

As iniciativas de investigação não deixavam por vezes de ter uma certa carga ridícula. Seria verosímil que depois das explosões o quadro da Acção Revolucionária Armada que fizera o despacho do caixote com as bombas voltasse ao escritório do despachante oficial? Mas foi para acautelar tão ridícula presunção que a polícia manteve apertada vigilância junto dos escritórios do despachante oficial durante mais de um mês, na esperança de que quem se fizera passar por António Pires lá fosse buscar o troco do despacho!!! Parece inacreditável mas foi isso mesmo que, com excesso de meios e défice de bom senso, a PIDE/DGS fez.

Dois dias depois da operação da ARA o deputado Cazal-Ribeiro pediu na Assembleia Nacional «a maior severidade, implacável severidade, para a procura e o castigo dos autores do atentado da madrugada do dia 12, na doca de Alcântara, covarde como todos aqueles que trazem a marca da A.R.A. – organização comunista de tendência, ao que parece, maoista»«A bandeira portuguesa tem de continuar a flutuar, embora isso pese àqueles que a renegam, do Minho a Timor se não queremos negar-nos a nós próprios…». Referindo-se depois a padres de Moçambique que não deixaram entrar a bandeira portuguesa numa igreja, aos «piratas do Santa Maria» Henrique Galvão e outros, a Miguel de Vasconcelos nos idos de 1640, e outros «renegados» como os da ARA, o deputado fascista sentenciou que todos «constituem uma página negra para a nossa história e são a excepção das nossas virtudes e da nossa raça: a negação dos nossos pioneiros – Santos, Mártires e Heróis!».

A História repete-se, a primeira vez como tragédia a segunda como farsa. O caso que me relataram, passado em 1972 e contemporânea da actividade da ARA, talvez se possa encaixar nesta máxima de Marx.

Ia a entrar no restaurante dos deputados, no palácio de S. Bento, em 1999, quando Luís Queiró, presidente do Grupo Parlamentar do CDS/PP e pessoa de trato agradável, se me dirigiu:

– Ó senhor deputado («senhor deputado» é a forma usual e genérica de tratamento entre deputados que não tenham uma relação pessoal muito próxima), calha bem encontrá-lo porque aqui o meu colega Moura e Silva tem um caso curioso para lhe contar.

Fernando Moura e Silva, com uns quinze anos em 1972, tinha sido eleito para a direcção da Associação Recreativa Aboinense, na sua terra natal, Aboim, no concelho de Amarante. Por isso distribuía na rua uns comunicados da ARA a Associação Recreativa Aboinense. O caso é que para as autoridades de então a associação podia ser recreativa e ser aboinense, agora o que não podia era usar a sigla ARA porque lhes feria os ouvidos.

«Andam aí uns miúdos a distribuir comunicados da ARA!!!», terá soado aos ouvidos das autoridades na sede do concelho.

O presidente da câmara achou prudente comunicar o caso ao representante local da DGS e este obviamente considerou indispensável investigar o caso. Fernando Moura e Silva e outros rapazes da ARA de Aboim foram chamados à Câmara para serem ouvidos pelo pide de serviço. Responderam como souberam e não era difícil. ARA só conheciam a sua! Como castigo tiveram de mudar o nome da associação. Passou então além de «Recreativa» a ser também «Cultural». Deste modo a sigla passou de ARA a ARCA para não agoniar os fascistas.

Tempo de PIDE, Peniche e Tarrafal. De Mocidade Portuguesa, Legião e saudação fascista. De censura prévia, prisão e exílio. De perda do emprego por razões políticas, de banimento da função pública e da Universidade… Tempos em que uma telefonista, ou uma enfermeira, não podia casar para não prejudicar o trabalho – ou se casasse perdia o emprego.

Não deixemos que se apague a memória do tempo do medo, arbítrio e opressão para melhor entendermos o que é a ausência de liberdade e a defendermos.

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