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Ter pisado o mesmo Tarrafal, ter vivido o mesmo inferno, ter habitado por dentro a mesma «frigideira», respirado os mesmos 40 graus de Sol, ter ouvido os mesmos gritos dos guardas e assistido, depois, no fim, no fim mesmo de tudo, ter assistido ao mesmo rumor, primeiro longínquo, a apurar os ouvidos, depois mais nítido – mas, mas, mas, podemos acreditar? – viiiiva Cabo-Veeeerde e… lá o que fosse aproximava-se como um apocalipse mas ao contrário…viiiiva o paigêcêêê.

Era 1 de Maio de 1974, cinco dias depois de Lisboa, ali no Tarrafal, o céu a cair e a levantar-se, rasgando cercas e muros e entregando de mãos estendidas o paraí…a liberdade, libeeertem os preeesos! Liberdaaade! Gritavam. Ouvia-se, a caminho do campo de concentração. Gritavam para si, a ganhar forças, e para os outros, para os outros ouvirem. Uma multidão afoita sem bandeiras nem ordem levantava os braços, aproximava-se e tudo à volta parava, e olhava os campos, as árvores e os bichos do Tarrafal. Depois chegaram os capitães e disseram que sim, que era verdade. As amarras estavam caídas, as grilhetas despejadas no chão.

Ter pisado o mesmo Tarrafal não quer dizer que venham todos a fazer o mesmo caminho. A vida é um mundo de trajectos diferentes. Podemos escolher o caminho ou o caminho escolher-nos a nós. Há o mérito, sem dúvida, mas também há as oportunidades, as boas escolhas ou as escolhas em má hora. As condições de cada um são diferentes e isso decide também. Decide o saber, decide o ter. Decidimos nós… ou  as circunstâncias decidem por nós.

Dos libertados do campo de concentração estiveram no colóquio internacional Tarrafal -Uma Prisão dois Continentes, na Assembleia da República, em 29 de Outubro – um colóquio da iniciativa do Movimento «Não Apaguem a Memoria!» (NAM) – um destacado diplomata de Cabo Verde, um embaixador de Angola, um embaixador da Guiné-Bissau e um professor universitário em Luanda. Mas José Pedro Castanheira numa peça jornalística no Expresso de 25 de Outubro, a antecipar-se ao citado colóquio, deu particular destaque a um ex-tarrafalista que fez outros caminhos ou outro caminho o escolheu, diferente dos que distinguiram aqueles seus companheiros de infortúnio no Tarrafal.

Manuel dos Santos Júnior, que afinal não esteve no colóquio, foi, de acordo com a reportagem, militante do efémero partido comunista angolano e fundador do MPLA, um dos prisioneiros que reabriu o campo do Tarrafal para os presos políticos de Angola, Guiné-Bissau e Cabo Verde. Foi libertado doze anos depois. A pobreza tornou-lhe a vida madrasta. Andou por Espanha, França, Suiça, voltou a Angola e fixou-se em Portugal onde calcorreou trabalhos e profissões várias. Um acidente que lhe deixou traumatizada uma perna foi o início do desemprego e da perda das economias. Até ser salvo da rua pelo Rendimento Social de Inserção e pela Santa Casa da Misericórdia.

Fui pelos caminhos da net espreitar a Torre a Tombo. Procurei o Tarrafal dos africanos, do «Campo de Trabalho de Chão Bom». É o mesmo «Campo de Concentração da Morte Lenta» do Tarrafal que amortalhou trinta e dois portugueses entre eles Bento Gonçalves, secretário geral do PCP e Mário Castelhano, dirigente da Confederação Geral do Trabalho. Onde estiveram presos o pai, Gabriel Pedro e o filho, Edmundo Pedro, com17 anos (e que agora, daqui a poucos dias, vai festejar os 90).

Encontrei correspondência do chefe da prisão para os chefes da PIDE e, se os tormentos inauditos não iam para o papel da correspondência oficial, sempre encimados por um suspeito «ao Serviço da República» e arrematados no fim com o «A Bem da Nação» falso como Judas, se as torturas físicas não manchavam a correspondência da PIDE, os ofícios sobre assuntos triviais não conseguiam esconder a tortura das consciências.

Num desse digitalizados documentos da Torre do Tombo, que aqui tenho estampado à minha frente, mostra-se o ofício enviado da cidade da Praia pelo carcereiro director do Campo ao director carcereiro da liberdade, chefe da delegação de Cabo Verde da DGS (DGS que não era outra senão a PIDE, com os disfarces de Marcelo Caetano). Diz o ofício:

«…tenho a honra de informar a V. Exª que promovi a devolução ao remetente, ex-recluso Manuel dos Santos Júnior, residente em Lisboa, (…) uma encomenda vinda pelo correio e destinada também ao recluso Armindo Augusto Fortes.

Desconhece-se o conteúdo da encomenda porque não chegou a ser levantada dos correios do Tarrafal.

O ex-preso político Manuel dos Santos, foi mandado pôr em Liberdade pelo venerando tribunal da relação de Lisboa, sem ter dado quaisquer garantias de não voltar à prática de actividades político-subversivas, tendo embarcado para Lisboa em 10-3-970. Sendo pobre e de Família pobre, é de admirar a frequência com que tem mandado encomendas de roupas, livros e medicamentos para os antigos companheiros de prisão.

Apresento a V.Excª respeitosos cumprimentos

A BEM DA NAÇÃO

Chão Bom, 19 de Julho de 1972.»

Mas podemos ler isto sem que se nos revolvam as tripas? A linguagem untuosa «tenho a honra de informar». O bufo (ou seria apenas o desgraçado a não querer perder o emprego?) tinha muita honra em informar! E lamenta que o preso tenha sido libertado pois não tinha dado garantias de não voltar a lutar contra este mundo de pernas para o ar e esta gentinha a seu serviço. Tudo por excessiva magnanimidade do venerando tribunal da relação. Tribunal fascista, repito eu, que mais não seja para que assim, insultando-o, desse alguma reparação ao preso libertado e mal tratado. E depois ao director, que não era rico nem nada que se aproximasse, repugna-lhe o acto do preso libertado apoiar os seus ex-companheiros com roupas, livros e remédios, ademais porque é pobre e de famílias pobres. Se fosse rico talvez se admitisse, era caridade. Mas pobre… pobre é solidariedade, gaita. É subversivo! E ele, carcereiro/director, manda para trás como deve ser.

Era o Tarrafal. O Tarrafal quotidiano. Não o das brutais torturas. Isto é uma frincha de tapume a mostrar-nos o dia a dia, os momentos normais. Na humilhação, na prepotência. Torniquete das vontades, das consciências, um estertor lento para melhor se sorver a agonia. Mas os Tarrafais e os Gulags do século XX podem renascer como Phoenix nos Guantânamo e Abu Ghraib’s no século XXI. Essa a primeira lição que nos aconselha a conhecer os velhos Tarrafais. Outra conclusão é que ter pisado o mesmo «Chão Bom» não é garantia de que a todos se oferecem os mesmos futuros caminhos.

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