Quando miúdo, a partir dos meus oito anos, durante as férias escolares, eu costumava ir, em viagem solitária, desde o Barreiro até à minha terra natal, uma aldeia perto de Sabrosa, no Alto Douro. 

Na época, no render das metades do século passado, em que, neste país, qualquer distância, mesmo pequena, implicava uma viagem trabalhosa, as minhas deslocações de férias pareciam-me uma volta ao mundo. Apanhava o barco que atravessa o Tejo ao fim da tarde, ia de autocarro até Santa Apolónia, entrava no comboio até ao Porto às onze da noite (era chamado de «comboio correio» e parava em tudo quanto era estação), chegava à Invicta na manhã seguinte, mudava, em São Bento, para o comboio da linha do Douro, descia no Pinhão depois da hora do almoço, tomava a camioneta da carreira para Vila Real e, finalmente, descia na minha aldeia no fim da tarde. Eram, mais ou menos, vinte e quatro horas de viajar ininterrupto entregue a mim próprio, pois só tinha acompanhamento familiar no ponto de partida e no destino final. Sentia aquilo como uma eternidade e era permanente o estado de pânico suado a imaginar-me perdido algures rodeado de adultos desconhecidos em metrópoles desumanas. Em cada ponto do percurso, não tinha qualquer noção se estava perto ou longe dos destinos das etapas, os bilhetes eram vários e eu sofria atrozmente com o pesadelo de imaginar um revisor-inquisidor chegar-se a mim e eu não conseguir encontrar o papel certo para lho apresentar. Assim, passava os tempos de viagem a verificar se não havia perdido os bilhetes e a verificar, paragem por paragem, que não me tinha nem enganado no trajecto nem ultrapassado o meu destino intermédio. Ia procurando cumplicidades e protecção nos adultos que se revezavam como meus companheiros ocasionais de viagem, confirmando se estava no comboio ou autocarro certo e quantas estações faltavam para o meu destino. Cruzava informações de uns passageiros com outros e, se surgiam discrepâncias nas sentenças, sentia-me perdido por não saber em quem acreditar. O pior, o clímax do medo, era quando se aproximava a descida na estação do Pinhão, em que a paragem do comboio durava não mais de dois minutos. Decorava a sequência das estações anteriores, três estações antes já tinha tirado a mala e encostava-me à porta com ela para usar bem os poucos minutos em que era preciso abrir a porta e saltar para a plataforma agarrado a uma mala quase do meu tamanho.

Então e depois, nunca me enganei nos destinos nem nos trajectos. Nunca perdi qualquer bilhete. Mas, ainda hoje, quando viajo, sofro do sindroma de pensar que, se calhar, entrei no transporte errado ou perdi o título de transporte. No que me reconheço, esta é a única faceta em que sempre me senti um rapazinho permanente, numa espécie de imunidade solitária ao envelhecimento.

 
Biografia de João Tunes.

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