Outubro 2008
Monthly Archive
Quarta-feira, 29.Out.2008
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História,
Testemunhos
Comentários Desativados em Tarrafal – O «período agudo»

Em Agosto de 1937, depois de uma tentativa frustrada de fuga por parte de um grupo de prisioneiros, estes foram forçados a cavar uma vala em volta do campo, que garantisse maiores condições de segurança e matasse à nascença quaisquer ilusões de sucesso em novas tentativas de evasão. É a este acontecimento que Edmundo Pedro se refere no texto que aqui transcrevemos, no dia em que se assinala o 72º aniversário da chegada dos primeiros presos ao chamado «Campo da Morte Lenta».
Edmundo Pedro, Memórias. Um Combate pela Liberdade, Âncora Editora, 2007, pp. 213-214.
«O trabalho da abertura da vala prosseguiu durante algum tempo. Mas eram cada vez menos os prisioneiros que escavavam o fosso. Nos primeiros dias, os guardas percorriam as tendas para ver quem estava em condições de trabalhar. Compeliam os que estavam deitados, com os primeiros sintomas de febre, a levantarem-se e a alinharem na formatura que precedia o trabalho da vala. Não me recordo, com rigor, o tempo que alguns de nós aguentámos aquele trabalho-escravo. Talvez duas semanas. Talvez três. Quando a quase totalidade dos prisioneiros ficara retido nas camas pelas febres elevadas, o Manuel dos Reis foi obrigado a suspender a abertura da vala. Fiz parte do número reduzidíssimo dos que aguentaram até ao fim aquele trabalho de forçados.
Estava prestes a completar dezanove anos. Era saudável e vigoroso. Não estava ainda enfraquecido pelo regime prisional.
O meu pai, logo que abandonou a frigideira, foi integrado numa das brigadas empenhadas na escavação da vala. Tinha, naquela altura, trinta e nove anos. Saíra da cela punitiva combalido. Mas esteve entre os poucos que, como eu, aguentaram até ao fim aquela dolorosa provação.
Quando acabava o trabalho, ia ter comigo para saber como é que eu tinha suportado o penoso castigo diário. Procurava incutir-me coragem. Mas eu, naquela fase, estava altamente moralizado. Apesar de apreciar o seu apoio, a verdade é que não precisava dele. Estava firmemente determinado a aguentar as consequências previsíveis da luta que empreendera por aquilo que então considerava uma sociedade mais justa, configurada na experiência soviética em curso. O modo bárbaro como éramos tratados só confirmava a justeza do combate em que me empenhara pela justiça integral que identificava com aquela experiência.
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Terça-feira, 28.Out.2008
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Ecos
Comentários Desativados em Ecos (22)
Terça-feira, 28.Out.2008
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História
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Um texto de Fernanda Paraíso (*)
Bento Gonçalves foi preso no Arsenal de Marinha onde era torneiro mecânico, a 29 de Setembro de 1930, «quasi a horas de largar o trabalho». O modo como foi preso motivou um inquérito interno e um subsequente protesto junto da Polícia de Informações.
No Arquivo Central da Marinha, onde se pode consultar o espólio dos documentos do antigo Arsenal, encontrei duas cartas, datadas de 30 de Setembro, e um rascunho sem data.
Na primeira carta, o Adjunto da Repartição de Trabalhos comunica ao Director das Construções Navais que «ontem, pelas 16 e meia horas se dirigiu a esta Repartição um agente da Polícia, o qual me disse haver muita urgência em obter o depoimento do operário nº 66/155, Bento António Gonçalves, da Oficina de Máquinas, sobre qualquer assunto que não me comunicou (…)».
A segunda carta, escrita pelo Chefe de Secretaria e dirigida à mesma Direcção, faz uma narração mais pormenorizada das circunstâncias em que se deu a prisão:
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Segunda-feira, 27.Out.2008
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História
1 Comentário
Um texto de Jorge Martins (*)
António Vieira (1608-1697) é um dos casos mais célebres de filo-semitismo. Autor de várias petições e cartas favoráveis aos judeus, acabaria por se tornar uma referência cultural e mental seiscentista. Chamado a Lisboa em 1641 como diplomata e conselheiro régio, Vieira endereçaria a sua primeira petição a favor dos cristãos-novos em 1643, intitulada «Proposta feita a el-Rei D. João IV, em que se lhe representava o miserável estado do Reino e a necessidade que tinha de admitir os judeus mercadores que andavam por diversas partes da Europa».
Considerava decisiva a influência dos comerciantes judeus nessa conjuntura internacional («homens de grandíssimos cabedais, que trazem em suas mãos a maior parte do comércio e riquezas do mundo»), que proporcionariam ao reino grande opulência e, sobretudo, a difícil conservação da independência pós-Restauração. Para tal, D. João IV deveria conceder o perdão aos judeus, como fez o próprio Papa, que
«…admite os que nós chamamos Cristãos-novos (entre os quais e os velhos nenhuma diferença se faz em Itália toda), senão que dentro na mesma Roma e em outras Cidades consente Sinagogas públicas e Judeus que professam a lei de Moisés (…) Pois se na cabeça da Igreja se consentem homens que professam publicamente o judaísmo, porque não admitirá Portugal homens cristãos baptizados, de que só pode haver suspeita que o não são verdadeiros?».
Quanto à questão judaica, Vieira sustenta que
«…a heresia das outras Nações é muito mais contagiosa que o judaísmo, porque o que está mais distante pega-se menos, e como o Judaísmo não confessa a Cristo, dista mais da fé católica que a seita dos hereges, (…) pois se a necessidade da guerra nos obriga a admitir entre nós heresias mais contagiosas, por que não admitiremos as que são menos arriscadas?».
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Sábado, 25.Out.2008
Posted by Joana Lopes under
Notícias
Comentários Desativados em Tarrafal: uma prisão, dois continentes

Programa e informação detalhada sobre o Colóquio organizado pelo NAM!
Sábado, 25.Out.2008
Posted by Raimundo Narciso under
História,
Testemunhos
[9] Comments
Recuemos um pouco. A 1972. A 10 de Fevereiro. Cabo Verde é uma «província ultramarina portuguesa». E na Ilha de São Nicolau reabriu o campo de concentração do Tarrafal, agora com o nome de Campo de Trabalho de Chão Bom. Neste «Campo da Morte Lenta», as condições extremas de vida, maus tratos, torturas, falta de assistência médica, mataram 37 portugueses dos 340 que em levas foram chegando desde a inauguração, em 29 de Outubro de 1936, até ao seu fecho em 26 Janeiro de 1954.
A derrota dos fascismos, na Europa em 1945, fechou o campo de concentração do Tarrafal, as lutas de libertação das colónias portuguesas reabriram-no. E desde 1961, há 11 anos, que o «Chão Bom» (cínico o nome!, a lembrar o ARBEIT MACHT FREI – O TRABALHO LIBERTA – à entrada do campo de extermínio de Auschwitz) ficou reservado para os «portugueses» das «províncias ultramarinas» de cujas mortes e sofrimentos ainda pouco se disse.
Estão aqui, agora, em 1972, angolanos, guineenses e cabo-verdianos…(que para os moçambicanos há, em Lourenço Marques, a Machava). Mais de 20 anos de prisão é a pena de alguns. Por delitos de opinião, por não aceitarem ser colonizados na sua terra. Muitos não têm acusação judicial, só uma decisão administrativa.
Faltam apenas 2 anos, 2 meses e 15 dias para que o mundo concentracionário do «Chão Bom» se desmorone sob os nossos olhos e faltam apenas alguns meses mais sobre a revolta dos capitães para que esta África colonizada conquiste a independência. A espessura do tempo e a espessura do mar não deixa ver o navio grande da libertação que se aproxima e cada um destes homens que estão aqui, na nossa frente, só podem viver os dias que correm sob o império do passado. Mas com a cintilante, a inquebrantável esperança na libertação.
O Senhor Director do «Campo de Trabalho de Chão Bom» está atento, lê a correspondência que vem para os presos e intercepta-a mas não sem comunicar ao Senhor Director Provincial da Delegação da Direcção Geral de Segurança de Angola, escalão intermédio entre o «Chão Bom» e o chão óptimo (para esta gentinha) da sede da PIDE/DGS, em Lisboa.
Eis uma das cartas do director do Campo de Concentração do Tarrafal para o director da PIDE/DGS em Luanda, a dar conta do seu trabalho. A intercepção, o roubo da correspondência, como o roubo da restante liberdade é tão inaceitável, tão repulsiva que o ar de normalidade de tudo o que aqui rotineiramente se passa só pode ser entendido pela monstruosidade do que é uma ditadura. Para mais colonial.
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Sexta-feira, 24.Out.2008
Posted by Joana Lopes under
Ecos,
História
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Número especial de Nouvel Observateur, que não poderia vir mais a propósito da recente polémica, neste blogue e não só, sobre história e memória (*).
«Cette place [de l’historien] est devenue problématique et marquée par une profonde contradiction. Les bases mêmes du métier ont été ébranlées. L’historien n’est plus inséré dans une continuité dont il était le dépositaire et le garant. Il a perdu ses propres certitudes et son magistère.» Pierre Nora, La politisation de l’histoire, p.8.
(*) À venda em Portugal, mas não é fácil encontrar.
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