Os dois primeiros textos desta série podem ser lidos aqui e aqui.
 
Nos dois posts anteriores, descrevi a acção da ARA que levou o nome de «Muxima» e iniciei o relato das investigações da PIDE/DGS para a descoberta dos autores. Prossigo hoje o relato desta investigação, baseado no dossier «Muxima» daquela polícia, a que tive acesso depois de instaurada a democracia.

Depois de interrogados vários empregados do despachante aduaneiro que tratou do envio do caixote com as cargas explosivas disfarçadas no meio de bagagem, foi interrogado na sede da PIDE o próprio despachante titular do escritório, em cujo auto se diz a certa altura:

«…Que o ANTÓNIO PIRES [nome falso do membro da ARA que fez o despacho] entretanto informou telefonicamente que se deslocaria aos seus escritórios na passada segunda feira, dia dezassete [de Janeiro de 1972], para recuperar o troco… Que o ANTÓNIO PIRES não apareceu até hoje e por isso o declarante não tem dúvida em entregar a esta Direcção Geral a diferença entre as despesas por si efectuadas com o despacho da caixa em questão e os mil e quinhentos escudos que recebeu, pois que tem em seu poder um saldo de MIL DUZENTOS E OITENTA ESCUDOS…»

A DGS, desesperada com a falta de resultados, prosseguiu incansável os interrogatórios. Seguiu-se o balcão da TAP onde fora efectuada a reserva da viagem.

O mais curioso e dramático é que a PIDE/DGS tanto vasculhou que encontrou um infeliz cidadão de Idanha-a-Nova com o nome de António Pires e que, para maior desgraça sua, trabalhava em Lisboa na Sociedade Portuguesa de Explosivos. É certo que não morava em nenhum Casal Garcia e é óbvio que a polícia política já sabia muito bem que a autoria da operação de sabotagem pertencia à ARA (esta organização já tinha reivindicado a acção) e portanto não era verosímil que toda a tramitação do despacho do caixote tivesse sido feito por alguém que se apresentava com o verdadeiro nome e ainda por cima dava um morada também verdadeira.

Por isso a prisão deste António Pires servia apenas para a PIDE apresentar serviço e intimidar. Quem lhe mandava a ele chamar-se António Pires, ser de Idanha-a-Nova e ainda por cima trabalhar numa empresa de explosivos?! «Estava mesmo a pedi-las», terão raciocinado os pides.

Este foi um dos Antónios Pires incomodados e presos pela PIDE/DGS, numa investigação que levou à cadeia um número desconhecido de inocentes e a interrogatórios e abertura de fichas muitas dezenas de cidadãos. Quem tivesse o nome de António Pires corria sério risco de ser incomodado. Eis como o agente da PIDE/DGS, que o foi prender o deu logo por culpado faz, em papel timbrado da DGS, a sua apresentação na prisão do Forte de Caxias:

«Para os fins que forem de Justiça, faço apresentar a V.Exª., António Pires, casado, pedreiro, nascido a 17 de Agosto de 1936, na freguesia de Penha Garcia, concelho de Idanha a Nova, filho de…e de…, residente na Quinta da Medideira , nº 2 – Amora, que hoje pelas 08h45, foi por mim detido na sua residência, por vir desenvolvendo – actividades contra a segurança do Estado.
O detido recolheu à cadeia de Caxias por determinação superior.
Caxias, 28 de Fevereiro de 1972
O Agente
Albertino António Moreira.»

Em seguida, este António Pires de Idanha-a-Nova foi submetido a interrogatório, a cujo auto pertencem os extractos seguintes:

«Auto de Declarações
Aos 28 dias do mês de Fevereiro do ano de mil novecentos e setenta e dois, nesta localidade de Caxias…aqui foi presente o arguido António Pires, nascido na freguesia de Penha Garcia, concelho de Idanha a Nova, … casado, pedreiro na Sociedade Portuguesa de Explosivos, residente em…»
«À matéria dos autos e sendo-lhe perguntado se é ou não verdade ter despachado um caixote, … por intermédio do despachante oficial JOSÉ INÁCIO DA CRUZ LOPES, declarou: – que não despachou qualquer caixote para Luanda e nada conhece acerca de tal assunto…
«Perguntado ainda no sentido de esclarecer que actividades contrárias à segurança do Estado tem desenvolvido, nomeadamente em colaboração com elementos integrados nos vários sectores da oposição ao regime vigente, ou filiados em organizações terroristas, declarou: – que nunca desenvolveu qualquer actividade contrária à segurança do Estado. E mais não declarou.»

Não havia o menor indício de que aquele António Pires tivesse qualquer relação com a sabotagem reivindicada pela ARA, mas isso não impedia a PIDE/DGS de o deter, interrogar e manter preso em Caxias.

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