Um texto de Fernanda Paraíso (*)

Bento Gonçalves foi preso no Arsenal de Marinha onde era torneiro mecânico, a 29 de Setembro de 1930, «quasi a horas de largar o trabalho». O modo como foi preso motivou um inquérito interno e um subsequente protesto junto da Polícia de Informações. 

No Arquivo Central da Marinha, onde se pode consultar o espólio dos documentos do antigo Arsenal, encontrei duas cartas, datadas de 30 de Setembro, e um rascunho sem data. 

Na primeira carta, o Adjunto da Repartição de Trabalhos comunica ao Director das Construções Navais que «ontem, pelas 16 e meia horas se dirigiu a esta Repartição um agente da Polícia, o qual me disse haver muita urgência em obter o depoimento do operário nº 66/155, Bento António Gonçalves, da Oficina de Máquinas, sobre qualquer assunto que não me comunicou (…)». 

A segunda carta, escrita pelo Chefe de Secretaria e dirigida à mesma Direcção, faz uma narração mais pormenorizada das circunstâncias em que se deu a prisão:       

«(…) vi um agente da Policia de Informações , que me disse desejar levar na sua companhia o operário nº 66/155 Bento António Gonçalves, para depor como testemunha no Torel (…), respondi-lhe que para isso era necessária uma requisição (…) pelo agente encarregado das averiguações (…) e que para isso não precisava de companhia (…), [ao que ele] retorquiu ser da máxima urgência e por isso não viera munido da respectiva requisição (…)
Entretanto chegou o mestre da oficina de Máquinas, a que o chefe da Repartição de Trabalhos encarregou de mandar apresentar o referido operário (…) e vindo este até à porta da Direcção (…) [disse-lhe então que estava] “o referido agente ali presente encarregado de o acompanhar até ao Torel, para ali ir depor, e que portanto se fosse vestir.
O referido operário seguiu para a oficina.
Soube posteriormente por me ter sido relatado verbalmente que o referido agente abusivamente seguiu o operário até à oficina em modos, parece que provocantes, segurando uma pistola (…)
É deveras edificante a falta de correcção e atitude do agente, depois de lhe ter observado quais as normas que tinha que seguir (…).»

Esta carta dá entrada na Intendência do Arsenal a 1 de Outubro e o despacho do dia seguinte refere directamente o rascunho manuscrito do protesto que terá sido enviado à Polícia de Informações e que transcrevo na íntegra:

«À Direcção da Polícia de Informações
Tem sempre o pessoal desta Intendência procurado prestar à polícia todo o auxílio, não sendo preciso para se efectuar a prisão dum operário que se encontre no Arsenal mais do que dirigir-se às pessoas que exercem autoridade neste Arsenal.
Há dias um agente dessa polícia procedeu de uma forma que reputo inconveniente, dirigindo-se para a porta duma oficina onde tinha ido vestir-se, por ordem superior, o operário que pretendia prender.
Por ser inútil e inconveniente rogo a V. Exa. dê instruções para que o facto não se repita, lembrando-lhe que no recinto deste Arsenal há uma polícia privativa.»

Bento Gonçalves seria deportado para os Açores, e quase de imediato, se atentarmos nas datas. De facto, Mário Castelhano relata o seu encontro com um grupo de deportados que vinham de Lisboa no vapor Lima, quando nele embarca a 13 de Outubro de 1930:

«Ainda não tínhamos atingido a escada de portaló e já de bordo criaturas amigas nos saudavam. Novas vitimas da ditadura, elementos da organização operaria de Lisboa e Porto (…) Era o Júlio Luís dos Arsenalistas do Exército, o Bento Gonçalves, dos Arsenalistas da Marinha, Fernando Barros, Anastácio Ramos, Aníbal Dantas, José da Silva, António Carvalho, Manuel João, António Nunes, da organização do Porto e mais outros, companheiros de luta das várias tendências estabelecidas no meio operário e que são causa, em parte, do seu actual enfraquecimento. (…)»

Os deportados seriam distribuídos por várias ilhas e localidades nos Açores. O destino de Bento foi Lages do Pico onde desembarca a 15 de Outubro. Mário Castelhano segue viagem até à povoação de Cais do Pico onde permanecerá até Março. Mas infelizmente não volta a mencionar o seu futuro companheiro no Tarrafal! Bento Gonçalves foi posteriormente enviado para Cabo Verde, mas não sei pormenores nenhuns sobre essa estadia, excepto que teve um filho de uma cabo-verdiana…

(1) Mário Castelhano, Quatro Anos de Deportação, Lisboa, 1975, ed. Seara Nova.

(*) Biografia de Fernanda Paraíso

Anúncios