Um texto de Jorge Martins (*) 

António Vieira (1608-1697) é um dos casos mais célebres de filo-semitismo. Autor de várias petições e cartas favoráveis aos judeus, acabaria por se tornar uma referência cultural e mental seiscentista. Chama­do a Lisboa em 1641 como diplomata e conse­lheiro régio, Vieira endereçaria a sua primeira petição a favor dos cristãos-novos em 1643, intitulada «Proposta feita a el-Rei D. João IV, em que se lhe representava o miserável esta­do do Reino e a necessidade que tinha de admitir os judeus mercadores que andavam por diversas partes da Europa».

Considerava decisiva a influência dos comerciantes judeus nessa con­juntura internacional («homens de grandíssimos cabedais, que trazem em suas mãos a maior parte do comércio e riquezas do mundo»), que propor­cionariam ao reino grande opulência e, sobretudo, a difícil conservação da independência pós-Restauração. Para tal, D. João IV deveria conceder o perdão aos judeus, como fez o próprio Papa, que

«…ad­mite os que nós chamamos Cristãos-novos (entre os quais e os velhos nenhuma diferença se faz em Itália toda), senão que dentro na mesma Roma e em outras Cidades consente Sinagogas públicas e Judeus que professam a lei de Moisés (…) Pois se na cabeça da Igreja se consentem homens que professam publica­mente o judaísmo, porque não admitirá Portugal homens cristãos baptizados, de que só pode ha­ver suspeita que o não são verdadeiros?».

Quanto à questão judaica, Vieira sustenta que

«…a heresia das outras Nações é muito mais con­tagiosa que o judaísmo, porque o que está mais distante pega-se menos, e como o Judaísmo não confessa a Cristo, dista mais da fé católica que a seita dos hereges, (…) pois se a necessidade da guerra nos obriga a ad­mitir entre nós heresias mais contagiosas, por que não admitiremos as que são menos arriscadas?».

Depois de ter passado pelas garras da Inqui­sição coimbrã (1663-1667) e condenado pela sua simpatia pelos judeus, o je­suíta retomaria, já exilado em Roma, as suas petições filo-semitas, opondo-se ao decre­to régio que determinava a expulsão do reino de todos os cristãos-novos acusados de judaísmo. Trata-se do «Papel a favor dos Cristãos-Novos», em que Vieira se opunha frontalmente ao citado decreto-lei (22/6/1671), promulgado na sequência do célebre assalto à Igreja de Odivelas em 10 de Maio desse ano:

«Na lei que agora se promulga, vemos que, porque não há culpados, são muitos os castigados. Estivera a gente de nação de muito melhor con­dição neste Reino, se constatara que dois ou três homens dela cometeram este nefando crime; por­que, na prova que contra eles resultasse, se mos­traria a inocência de todos os outros; e contudo, porque não consta que algum deles o cometesse, e por ser possível que o cometesse um maldito herege ou um desesperado cristão-velho, pade­cem agora tantos milhares de cristãos-novos, sendo os mais deles conhecidamente inocentes, como são todos os que moram fora desta cidade e nas Conquistas do Reino».

Palavras certeiras, que a história confir­maria, tanto quanto à injustiça de se tomar a par­te pelo todo – se se provasse a autoria judaica do roubo -, como à possível origem cristã-velha do verdadeiro responsável pelo assalto.

Em 1674 surgiriam outros papéis, designadamente o Desengano católico sobre a causa da gente de nação hebreia» e o «Memorial a favor da gente de nação hebreia…». No «Desengano católico», o jesuíta começa por contrapor ao perdão geral uma outra solução para a questão judaica: «É certo que os cristãos-novos, descendentes do sangue hebreu, não pedem nem pretendem perdão geral, porque o perdão é remédio para culpados, e eles querem só remédio para inocentes (…)». E desfere um forte ataque à Inquisição, denunciando o clima de medo com que governava o país: «(…) em Portugal todos têm a boca fechada com mil temores e respeito da Inquisição, como porque os inquisidores não dão ouvidos a nenhum re­querimento ou proposta e se fecham com a sua soberania e potência, sem admitirem alguma razão, nem de cristãos-velhos nem de cristãos-novos (…)». A solução seria a reforma dos estilos e do regimento da Inquisição, retirando a exagera­da autoridade ao Santo Ofício, que permitia que não se obedecesse aos breves papais. Recorde-se que 1674 foi o ano em que a Santa Sé suspendeu a acção dos inquisi­dores, castigo que evoluiria para a suspensão do próprio tribunal entre 1678 e 1681.

Quanto ao «Memorial», dirigido a D. Pedro II, António Vieira insiste em desqualificar os pareceres dos inquisidores sobre os cristãos-novos: «(Oh bom Jesus! acudi pela Vossa causa, que deste ódio nasce toda a desgra­ça desta gente, que vós remistes com o vosso pre­ciosos sangue!)». Os estatutos da «pureza de sangue» mereceram-lhe algumas interessantes conjecturas, distanciando-se da oficial política racista do Estado português:

«Cristão-novo, em todo o rigor de direito e força de verdade, é e se diz de todo aquele que foi baptizado em pé, ou seu pai e avô paterno ou sua mãe; porém o que foi baptizado ab infantia, cujos pais e avós tam­bém o foram, é e deve ser julgado por tão verda­deiramente cristão-velho como quantos o são, o que é tanto verdade, que ainda em juízo compe­tente pode uma pessoa jurar que outra é cristã-velha, quando na forma sobredita lhe conhecer seus pais e avós paternos, e por isso lhe chamam pecaminosos e injustos os estatutos que excluem os descendentes dos cristãos-novos (…)».

Sustentava que a acção da Inquisição havia chega­do precisamente a resultados contrários aos pretendidos: «Os es­tilos do Santo Ofício, tem mostrado a experiência (e desta certifique-se Vossa Alteza, que só quem os experimentou pode ser boa testemunha), que os inocentes perecem e os culpados triunfam, porque esses na boca têm o remédio e no coração o veneno». Justifica o fim dos referidos estatutos:

«O sangue é o que Deus deu a cada um, sem eleição de quem o tomou; o procedimento é o que cada um fez em si com liberdade e livre alvedrio nas obras, e por isso é razão que seja defeito em cada um o mau procedimento. Mas o ter bons ou maus pais, ou descender deste ou daquele sangue, não é defei­to nenhum em quem o tem; de outro modo teria culpa no homem, não o que ele obrou, senão o que Deus fez. (…) Um português baptizado ao outro dia do seu nascimento, neto e bisneto, quarto e quinto neto, sexto e sétimo neto de avós baptizados, haja sempre de ser cristão-novo! Oh lástima! Oh dor! É isto uma cousa contra o sentir dos Santos Pa­dres e contra a razão natural; (…) todas as cousas novas se vão fazendo velhas com o tempo; aqui vemos totalmente o contrá­rio, porque quem de uma vez teve a reputação de cristão-novo, por mais tempo que passe, to­dos os seus descendentes foram sempre cristãos-novos (…) e ficam cristãos-novos para sempre».

O combate de António Vieira não resultou no fim da Inquisição, é certo, mas abriu caminho a uma plêiade de filo-semitas – D. Luís da Cunha, Francisco Xavier de Oliveira, Ribeiro Sanches e Melo Freire -, cuja acção culminaria na legislação pombalina que acabou com a discriminação antijudaica, com os autos-de-fé e com o poderio da Inquisição, «um Estado dentro do Estado», como lhe chamaria António José Saraiva. Em todo o caso, o jesuíta chamaria a atenção para a prestimosa colaboração dos judeus com os nossos reis, quando a situação económica do país o exigia: «Digam-me que ocasião e que necessidade houve em que eles não fossem os primeiros que acudissem com seus ca­bedais? Digam-me se houve ocasião em que os Senhores Reis portugueses se temessem desta gente? Se houve ocasião em que o Reino recebes­se por causa dano grave?».

Obviamente, todas as perguntas mereceriam uma única resposta: não, bem pelo contrário.

 
(*) Biografia de Jorge Martins

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