Um texto de José Pedro Barreto (*)
  Originalmente publicado na revista Egoísta de 9 de Dezembro de 2001

 
(No seguimento de Anti-Clausewitz ou o elogio da derrota.)
 
Os grandes desastres militares têm na memória dos grupos humanos um efeito incomparavelmente mais poderoso do que as vitórias. Em muitos aspectos, eles representam a morte que possibilita um renascimento, uma purificação pelo martírio, um mito fundador, em suma. 

Uma das datas mais celebradas pelos americanos é a de Pearl Harbor, o «Dia da Infâmia» que justificou, no limite, as bombas atómicas no Japão. Waterloo destruiu Napoleão, mas redimiu a França e levou o próprio Duque de Wellington a soltar a sua famosa frase: «Pior que uma derrota só uma vitória destas…». O trauma da perda de Cuba às mãos dos americanos, em 1898, levou a um florescimento cultural riquíssimo na Espanha finalmente liberta dos estorvos do império colonial. A um nível mais restrito, as grandes unidades militares tiram a sua mística e o seu «espírito de corpo» de episódios trágicos – como a mais célebre de todas a Legião Estrangeira francesa, que celebra o dia de 186 em que 65 dos seus se bateram até à morte contra dois mil mexicanos na hacienda de Camerone. 

De Alcácer-Quibir aos campos do Kosovo, das praias de Gallipoli ao inferno de Pearl Harbor, a Waterloo, às falésias de Masada e a tantos outros lugares de tragédia, homens e povos nasceram pelo sangue derramado.   
 
 
Os demónios da saudade
Alcácer-Quibir, Agosto de 1578

Os portugueses celebram justamente Aljubarrota como data decisiva da sua História. Mas é Alcácer-Quibir que molda de forma incomparável o imaginário lusitano. Portugal ganhou personalidade e força na vitória, mas foi na derrota que o martírio lhe deu uma alma e lhe alimentou as correntes profundas do ser, marcando-o com ferro em brasa. Nenhum de nós espera Nun’ Álvares que era um herói. Mas todos, de certo modo, esperamos D. Sebastião que era um tonto. Em cada um de nós dorme o luto e a vontade de redenção por esse dia tão português – em que a basófia, o improviso, a desorganização e o descuido transformaram uma vitória possível num desastre memorável.

A batalha de 4 de Agosto de 1578 durou pouco mais de meia hora: o tempo de a hoste portuguesa, reforçada com terços alemães, italianos, castelhanos e de aventureiros de todas as partes, avançar incautamente e ser, primeiro, dizimada pela artilharia moura e depois envolvida pelos braços do «crescente táctico». Uma estranha apatia do rei e uma sucessão de ordens incoerentes aceleraram a confusão. Restou a enorme bravura individual da maioria dos fidalgos e do próprio D. Sebastião, que nada adiantou para o desfecho. Os prisioneiros portugueses foram tantos que faltou corda aos mouros para amarrá-los.

Desaparecia o rei, ficava o país sangrado de morte, mas na abrasada charneca marroquina nascia um dos mais poderosos mitos nacionais da História europeia. E nos três séculos seguintes, em cada bater de coração português, em cada lágrima, em cada trinado de guitarra ou estrofe de fado, em cada olhar fito no horizonte ecoavam a esperança, a saudade e a comunhão de sentimentos que nenhuma vitória nos poderia ter dado.

Barry Lyndon

 
(*) Biografia de José Pedro Barreto

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