Um texto de João Bernardo (*)

Há não muito tempo fui dar um curso a Salvador da Bahia e os alunos encontraram oportunidade, entre as aulas e a proliferação de actividades anexas que sempre acompanham esse tipo de coisas, para andarem comigo a visitar a cidade e mesmo para dar uns mergulhos naquela água tépida e sem ondas a que aqui no Brasil chamam mar. Numa destas andanças, ao passarmos em frente da escadaria de uma igreja, uma aluna perguntou-me: «Não reconhece?» Fitei o templo mal conservado, com o estuque da fachada a pelar, os degraus gastos e pouco limpos, disse que não, que o lugar não me recordava nada. «O Pagador de Promessas, professor, é a escadaria do filme». E ali, de repente, vi-me há muito tempo atrás, no emblemático ano de 1962, quando iniciei a actividade militante que desde então nunca deixei. 

Naquela época, entre os grandes amigos do meu pai contava-se o juiz Quesada Pastor. As duas famílias visitavam-se muito e em criança eu brincara com os filhos, especialmente a mais velha, que tinha a minha idade e havia sido na infância uma grande companhia. Quesada Pastor era um homem culto e com um largo escopo de interesses, em certas questões de história tinha mesmo uma grande erudição, era amável também e assaz irónico. Eu gostava muito de falar com ele e de o ouvir falar. Com estas características, especialmente a cultura, compreende-se que Salazar o tivesse nomeado director da Censura. O lápis azul podia ser manejado pelas mãos toscas de militares reformados, mas era necessário que houvesse alguém inteligente e sábio para dirigir aquilo tudo. 

Quesada Pastor tinha entrado para as esferas governativas no séquito de Pedro Theotónio Pereira, de quem, se não me engano, fora chefe de gabinete. Lembro-me de o meu pai comentar, um tanto irritado, que o seu amigo, apesar de ateu, desde que se aproximara do governo passara a frequentar a igreja todos os domingos, de missal debaixo do braço e com o inevitável chapéu preto debroado. Provavelmente o meu pai nessa ocasião esquecera-se do precedente de Henrique IV. 

Salazar gostava de receber ele mesmo os principais coordenadores da repressão, independentemente dos ministros da tutela, e portanto Quesada Pastor ia todas as semanas despachar com o senhor presidente do Conselho. Não se podia marcar jantares para esses dias porque ele chegava invariavelmente atrasado. Salazar gostava de fazer esperar aqueles que se julgavam detentores de algum poder, para verem que, perante ele, não tinham nenhum.

E num desses jantares em casa dos meus pais Quesada Pastor contou que acabara de inspeccionar um filme que, em princípio, deveria ser inteiramente proibido, mas era uma obra tão boa esteticamente e com uma tal carga de emoção que ele não tivera coragem de o condenar e o filme ia ser autorizado. Por este motivo pudemos ver em Portugal o Pagador de Promessas. Mas decerto não seriam apenas estas as razões, porque não foram poucas as obras-primas do cinema, não menos perfeitas esteticamente nem menos pungentes de conteúdo, que os serviços da Censura não hesitaram em proibir. O que me interessa aqui indicar, e o que eu de repente lembrei diante do escadório da Igreja do Paço de Salvador da Bahia, é que em algum ponto um artista conseguiu abrir uma frincha nas vedações repressivas do Estado fascista e entrar por ela dentro.

Estou certo de que esta história tem uma moral, mas qual ela é, isso não sei.

 
(*) Biografia de João Bernardo

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