Um dos principais objectivos do programa do Movimento «Não Apaguem a Memória!» (NAM!) é criar um museu da luta contra a ditadura e pela liberdade no edifício da antiga Prisão do Aljube de Lisboa, que actualmente é utilizado por serviços dependentes do Ministério da Justiça, para o que conta com o apoio do ministro Alberto Costa e do presidente da Câmara Municipal de Lisboa, António Costa. Também por isso, parece-me interessante trazer aqui, aos Caminhos da Memória, testemunhos do que foi esta prisão política do fascismo português. Na esperança de que outros testemunhos surjam, reproduz-se este que, a meu pedido, José Hipólito dos Santos, membro dos corpos sociais do NAM, me enviou. Raimundo Narciso 

 
Um texto de José Hipólito dos Santos (*)
 
Depois de quatro meses e meio de incomunicabilidade nos «curros» do Aljube, só interrompida por três sessões de «interrogatórios contínuos» (eufemismo de sessões de tortura…) na Rua António Maria Cardoso (ao Chiado, em Lisboa), e no seguimento de uma greve de fome, uma carrinha Mercedes levou-me para a Cadeia de Caxias, no Reduto Norte do Forte. Luz, água à disposição, instalações sanitárias com chuveiro, companheiros e o cheiro a campo que vinha da mata em frente do forte deram-me de imediato uma sensação de bem estar, de luxo… E depois havia direito a «recreio» e a visitas da família!

Fui preso no Barreiro, em 11 de Janeiro de 1962, dentro do recinto das fábricas da CUF, tendo sido conduzido de imediato para a sede da PIDE onde se iniciou, pouco depois, uma primeira sessão de contacto directo com a violência… 

Já de madrugada, fui levado para o Aljube, para os «curros»… onde acabei por ficar 127 dias, sendo que eu sabia que a maior parte dos presos não iam para ali e que raramente ficavam mais de umas semanas. Neste período estive «ausentado» três vezes, num total de 23 dias e noites sem dormir, na sede da PIDE.

Ao chegar, no meio de grande silêncio, apenas quebrado pelo barulho das chaves a bater no chaveiro que o guarda usava, e depois de despojado de tudo o que não fosse roupa, foi-me entregue um conjunto de utensílios – uma colher de alumínio e dois púcaros de plástico, um para água e outro para urinar…

Pelas 7 horas, ainda meio atordoado, abriu-se a porta com um grande estardalhaço, fui mandado sair e de imediato agarrado por um barbeiro que, sem nada dizer, me fez sentar num banco, frente à porta do «curro» e meteu a máquina na minha cabeça… De repente fiquei completamente careca – uma violência que me doeu bem mais que os murros e pontapés daquela madrugada, até pelo seu carácter inesperado, dado nunca ter ouvido falar dessa prática que não era habitual.

Aquele «curro» (também designado por «gaveta»), o 10, era para dois presos -menos de 4 metros de comprimento (quase quatro passos), pouco mais de um metro de largura. Contra a parede, duas tarimbas de madeira pesada, que se podiam levantar, com um enxergão duro e sebento (1); ao fundo, uma primeira porta gradeada, depois um espaço onde, numa prateleira inacessível, eram depositados alguns bens pessoais (cinto, cordões dos sapatos, mais tarde alguns utensílios higiénicos). E mais uma porta, pesada, com um postigo para o guarda olhar e por onde entrava, quando estava aberto, um pouco de luz e de ar.

Ao regressar de um primeiro período de «interrogatório» de sete dias, sinto-me «contente» de voltar ao meu «curro»! A pressão, a tensão, a violência em que tinha vivido aqueles dias fazia-me «sonhar» com o regresso ao «curro»…

Com dificuldade em andar, com as pernas inchadas por ter sido obrigado a manter-me todo aquele tempo em pé ou sentado, quando o guarda abre a porta, tenho a surpresa de me deparar com outra pessoa – um indivíduo corpulento de uns 40 anos, voz grossa, que me olha desconfiado e interrogativo. Estava ali há dois dias e não sabia se eu era uma armadilha da PIDE para nos «descairmos» ou nos «confessarmos» um ao outro… Também eu, depois de ter dormido, tomei as minhas precauções!

Acabámos por nos entender e organizar a nossa vida naquele espaço de quatro metros quadrados – fazíamos ginástica, à vez…, jogávamos com uma bola feita de miolo de pão, falávamos das nossas actividades profissionais e de livros que tínhamos lido, tudo em voz baixa e discretamente, pois era proibido falar e ter actividades…. Era o Eduardo (2), operário montador de estruturas metálicas, um homem corajoso que fora preso por ter ido a Beja [assalto ao quartel de Beja, em 1962 no âmbito de uma tentativa de derrubamento da ditadura] e com quem me entendi bem. Ficámos juntos algumas semanas, durante as quais ele foi para nova sessão na PIDE, e depois calhou-me a mim ir novamente para «interrogatório contínuo».

No regresso, muito combalido e outra vez «contente» por voltar para o «curro», já não encontrei o Eduardo. Tinha protestado em altos berros contra o facto de eu estar há já uma semana na sede da PIDE e por isso tinha sido castigado.

Fiquei portanto sozinho. Reorganizei o meu quotidiano, comecei a embirrar com o contexto que me parecia altamente deprimente – paredes que eram cinzentas até uma altura de uns dois metros e meio e depois passavam a ser brancas, assim como o tecto. Tinha a sensação de que estava no fundo dum poço de mais de quatro metros! Certamente era essa a intenção – tudo estava concebido para acentuar o isolamento e gerar situações de depressão facilitadoras da intervenção policial.

Como poderia mudar essa situação? Sair dali parecia um pouco complicado, pois os pides tinham dito que não desistiam de me «espremer» e que teria de voltar para nova sessão…

Assim, restava-me ver o que era possível fazer para «melhorar o meu habitat»!

A primeira acção foi começar a raspar, com o cabo da colher, aquele cinzento da parede, pondo a cal no púcaro que levava duas vezes por dia à casa de banho. Era pouco, muito pouco, mas dava-me alguma satisfação, até porque, para não dar nas vistas, alargava bocados em que a cal já tinha caído. Comecei a colar na parede, com a ajuda de sabão, bocados de papel branco em que a Maria Luísa, minha mulher, embrulhava a roupa que trazia. Recortava à mão figuras que inventava. Depois, numa visita, pedi algumas fotos de família, que igualmente foram coladas sobre a parte ainda cinzenta.

Ao fim de algum tempo, as paredes tinham mudado, tinha dado um pouco de personalidade àquele antro, o que me dava grande gozo. Isso, a ginástica, a comunicação (batendo na parede) com os «curros» ao lado, 9 e 11, e com um que ficava por trás, consumiam o essencial do meu tempo. Ao terceiro mês comecei também a receber livros, depois de passarem pela fiscalização.

Contudo, um dia à tarde, oiço o estardalhaço do costume para abrir a porta, fora das horas habituais – um indivíduo entra no «curro» e desata aos gritos: que eu estava enganado, que aquilo era uma prisão e não um quarto de hotel, era uma falta de respeito, que eu pensava que podia brincar com eles mas que iria sofrer as consequências… Era o Rosa Casaco (3) que mandou um guarda arrancar tudo o que eu havia colado, de imediato, me castigou com corte de visitas e me transferiu para outro «curro», o 7, para uma só pessoa e portanto mais pequeno dois passos!

Algum tempo depois, fui levado para mais uma «estadia» na sede da PIDE, interrompida, ao fim de oito dias, ao cair da noite de 30 de Abril, porque os pides estavam com muito «trabalho»… Eu ouvia chegar, dia e noite, carros com presos, uma autêntica avalanche de prisões estavam a ser feitas nesses dias para tentar evitar as manifestações do 1º de Maio, que, nesse ano, teve um impacto como há muitos anos não acontecia. Foi com grande alegria que, já no Aljube, pela tarde do dia 1 ouvi os «Abaixo o fascismo», gritados por muita gente que se manifestava nas ruas da Baixa.

Acabei por ser transferido para Caxias, umas semanas mais tarde, depois de uma greve da fome, que fiz para exigir a minha saída dos «curros».

 
(1) Os lençóis eram proibidos, mas havia dois cobertores «de tropa». Logo à vista, e também pelo cheiro, era claro que não tinham sido lavados desde há muitos anos. Cada vez que algum de nós se mexia levantava uma nuvem de poeira…. Passávamos bastante tempo a espirrar e acabámos por chegar à conclusão que isso resultava do pó dos cobertores. Decidimos então levá-los para a casa de banho e sacudi-los, o que fizemos perante a surpresa dos guardas que não estavam preparados para tomar uma decisão! Como os trabalhadores das antigas carvoarias, ficámos literalmente acastanhados – cara, cabelos, narinas, garganta – como castanhas ficaram as paredes, o lavatório, toda aquela casa de banho. E, nos dias a seguir, continuava a pousar o pó, dando-nos a possibilidade de passar ali algum tempo para proceder à limpeza que nos foi imposta.

(2) Joaquim Eduardo Pereira, antigo militante do PCP, tendo participado no V Congresso clandestino (1957), conforme J. Pacheco Pereira, em 3º Volume da biografia de Álvaro Cunhal.

(3) O inspector da PIDE que dirigiu o assassinato do General Humberto Delgado em Fevereiro de 1965.

 
(*) Biografia de José Hipólito dos Santos

Anúncios