Nos passados dias 12 e 13 Setembro 2008, realizaram-se, no convento dos Capuchos, que comemorou então os seus 450 anos, duas récitas da ópera Der Kaiser von Atlantis oder die Tod Verweigerung («O Imperador da Atlântida ou a abdicação da Morte»), composta, em 1943, por Vicktor Ullmann, com libretto de Peter Kien, no campo de concentração de Theresienstadt (Terezin, a norte da actual República Checa). Estreada na sua totalidade pela primeira vez em Portugal, com organização da Câmara Municipal de Almada e da Associação Ginásio Opera (1), a ópera foi concebida pelos dois artistas durante o cativeiro em Theresienstadt, para apresentação no campo de concentração. Devido à sua temática pacifista e anti-hitleriana, o espectáculo jamais seria levado à cena dado que, nos ensaios realizados em Outubro de 1944, o comando local das SS proibiram a sua apresentação. Pouco tempo depois, Ullmann, Kien e todo o cast foram enviados para Auschwitz, onde acabariam por morrer nas câmaras de gás. Apenas em Dezembro de 1975, trinta anos depois da sua criação, a ópera teria a sua estreia mundial no Bellevue Center de Amesterdão.

Dada a perplexidade que pode haver com o facto de ter sido composta uma ópera – não foi aliás caso único em Theresienstadt – num campo de concentração nazi, convém dar algumas explicações sobre a forma como ele foi concebido pelos nazis, como instrumento de propaganda para esconder os seus crimes, a par aliás com a destruição das câmaras de gás e as transferências dos deportados dos campos do extermínio, nas «marchas da morte», no final da guerra. Lembre-se que, questionado sobre as atrocidades cometidas, o próprio chefe das SS, Heinrich Himmler disse a um deportado estar convicto que ninguém iria acreditar na magnitude do crime do extermínio e que ainda hoje os negacionistas do Holocausto utilizam o exemplo de Theresienstad.

Enquanto Chelmno, Maidanek, Belzec, Sobibor, Treblinka e Auschwitz-Birkenau, entre outros, foram campos de extermínio, Theresienstadt teve desde o início, diversos outros objectivos: concentrar a maioria dos judeus do Protectorado da Boémia e Morávia, bem como certas categorias de judeus da Alemanha e de países da Europa ocidental; servir como ponto de paragem de judeus antes da transferência gradual a caminho dos campos da morte a leste de extermínio e esconder o extermínio dos judeus.

Efectivamente, as autoridades alemãs utilizaram desde logo Theresienstadt para apresentar o campo como um «gueto modelo». Os primeiros 1.300 judeus checos chegaram a Theresienstadt, no final de Novembro de 1941, juntando-se-lhes depois alemães, austríacos e holandeses, nomeadamente pessoas proeminentes de mérito especial e velhos. O alojamento estava separado por sexo, ficando as mulheres com os filhos abaixo de 12 anos, separados dos homens e dos filhos acima daquela idade. Os assuntos internos eram tratados por um Conselho de Anciões, composto por judeus que colaboravam na gestão do campo, esperando assim evitar as deportações. Graças ao grande número de artistas, escritores e académicos encarcerados no campo, havia um vasto programa de actividades culturais.

Em Setembro de 1942, quando havia cerca de 54.000 judeus internados, entre eles o compositor Viktor Ullmann, que chegou a Theresienstadt com a mulher Elisabeth vindos de Praga, o comando SS abriu ali lojas e um café. Paralelamente à apresentação de Theresienstadt como um «campo modelo», os nazis «eliminavam», através da deportação para leste, o excesso de prisioneiros do gueto, onde grassava a morte, devido à doença e à má alimentação, provocadas pela sobre-população. A primeira deportação de 2.000 judeus para Riga ocorrera em Janeiro 1942, depois outros foram transferidos para guetos na Polónia e nos Estados Bálticos e, em Outubro desse ano, para Treblinka e Auschwitz.

Em 18 Dezembro desse ano de 1942, doze governos aliados, incluindo o checo, no exílio em Londres, denunciaram o tratamento dos judeus pelos nazis e, provavelmente por isso, Heinrich Himmler ordenou em 2 de Fevereiro de 1943, a paragem dos transportes de Theresienstadt, para Auschwitz, num período em que ali havia 44.672 prisioneiros. Em Maio de 1943, foi criado em Theresienstadt um banco e foi impresso papel de moeda para pagamento do trabalho dos judeus nas fábricas do gueto que trabalhavam numa tenda de circo então erguida. Em Julho, os números e letras das ruas e edifícios foram mudados para nomes e a palavra «gueto» foi eliminada de Theresienstadt, sendo substituída, por «estabelecimento de judeus».

Mas o verdadeiro «programa de embelezamento» de Theresienstadt foi encetado pelos nazis, no final de 1943, para receber uma inspecção da Cruz Vermelha Internacional (CVI), pressionada pelo governo dinamarquês no exílio, que quis conhecer as condições de vida do gueto, para onde tinham sido enviados 466 judeus dinamarqueses, em 5 Outubro 1943. Na primavera de 1944, os nazis começaram a preparar a visita da CVI. O comando SS chegou ao ponto de produzir um filme intitulado Der Führer schenkt den Juden eine Stadt («O Führer oferece uma cidade aos Judeus») em que prisioneiros – mais tarde enviados para Auschwitz – foram obrigados a participar, utilizando cenários com fachadas de prédios. Foram plantadas flores na praça, o café e as lojas foram embelezadas, além de serem construídos um pavilhão de música, um espaço para as crianças brincarem, um clube para eventos sociais, uma sinagoga e uma biblioteca para os judeus. A visita da CVI, ocorrida em 23 de Julho de 1944, durou seis horas mas os eventos culturais duraram uma semana, com vários espectáculos, entre os quais a apresentação da ópera de crianças Brundibar e a actuação de uma banda de jazz, chamada Ghetto Swingers, apesar de os nazis terem banido o jazz e o swing da Alemanha.

No Outono, depois da visita da CVI, recomeçaram os transportes de Theresienstad, onde havia então cerca de 30.000 prisioneiros, para Auschwitz. Num desses transportes, incluíram-se Peter Kien e Viktor Ullmann que, durante os dois anos que permaneceu em Theresienstadt, compôs diversas cantigas a capella, coros, três sonatas para piano, uma peça baseada em Die weise von Liebe und Tod des Cornets, de Christoph Rilke, além da ópera Der Kaiser von Atlantis. Dos 18.402 judeus do gueto enviados para Auschwitz, em onze transportes, entre 28 de Setembro e 28 de Outubro de 1944, só sobreviveriam 1.570. Após estes transportes, ficaram em Theresienstadt cerca de 11.000 pessoas, incluindo 819 crianças abaixo de 15 anos. Em 5 Março de 1945, Adolf Eichmann visitou Theresienstadt para preparar nova visita da CVI, em 15 de Abril, e o gueto voltou a obter um bom relatório dessa instituição internacional. Cinco dias depois, Theresienstad foi entregue à CVI.

Dos 139.654 judeus originariamente deportados para Theresienstadt, entre 24 de Novembro de 1941 e 20 de Abril de 1945, 86.934 foram transportados para vários campos de extermínio a leste e destes apenas 3.097 sobreviveram. Após 20 de Abril desse ano, chegaram ao gueto 13.454 deportados, evacuados de outros campos alemães, fechados antes da chegada das tropas soviéticas, e, em resultado disso, grassou uma epidemia de tifo em Theresienstadt que matou 33.430 pessoas. Quando a guerra terminou, em 8 de Maio de 1945, havia ali 29.320 prisioneiros; todos os outros tinham sido enviados para campos de extermínio ou haviam morrido no interior dos muros desse campo. As 1.260 crianças sobreviventes do gueto de Bialystok na Polónia oriental que chegaram a Theresienstadt, em 1942, foram enviadas, acompanhadas de médicos e enfermeiros para fora desse gueto, pretensamente para serem trocados por prisioneiros de guerra alemães na Suíça, mas acabaram, ao invés, por ser enviadas para Auschwitz e assassinadas, não sendo contabilizadas pelos nazis como tendo sido enviadas para leste.

 
(1) A encenação e direcção cénica couberam a João Maria de Freitas Branco e a direcção musical a Jean Sebastien Bereau. Interpretaram a ópera o baixo João Oliveira, no Arauto, os barítonos Luís Rodrigues e Pedro Correia, respectivamente, no Imperador e na Morte, a meio soprano Madalena Bole, no Tambor, a soprano Teresa Cardoso Menezes, na Rapariga, e Mário João Alves, tenor, assegurando as personagens do Arlequim e do Soldado. Houve ainda a intervenção do corpo de baile da Associação Gestos.

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