Rua António Maria Cardoso, Lisboa
Conceição Neuparth (Centro de Documentação 25 Abril)

 
Continuo com este post a falar de Abril. Tentando, é certo, explicá-lo como acontecimento histórico passado, mas sobretudo para compreender a sua actualidade e, porque não, recuperar um pouco da sua excepcional força simbólica e da sua energia mobilizadora. Porque, como dizia Maiakovski, «é bom começar a escrever versos sobre o 1º de Maio em Dezembro, quando já se começa a ter uma vontade louca desse Maio». 

 
Nenhuma revolução é completa e total, ou, numa formulação mais drástica, todas as revoluções falham, porque as realidades sociais a que dão origem são um produto híbrido de rupturas e continuidades.  É pois uma questão clássica nos estudos do fenómeno revolucionário em geral, e obviamente do nosso em particular, saber o que muda com a revolução e o que permanece. F. Furet traduz esse dilema, a que nenhum historiador pode fugir, através da oposição révolution modalité (a revolução no seu processo interno) e révolution contenu (a revolução no seu balanço externo). 

O primeiro conceito fala da revolução como ruptura radical com uma situação anterior e instauração de uma totalmente nova. Sob o modelo da identidade e da transparência, conta-se a experiência directa dos revolucionários, através de uma história que vive da vertigem, da pulsão íntima dos acontecimentos encadeados por uma dinâmica própria, uma história sem conceitos, muito diferente da exigência racional que os selecciona e organiza, quando analisados do exterior. Uma dinâmica que está longe de ser linear, pois que, tendo origem num encontro de vontades dos sujeitos, os transcende e ultrapassa a breve texto, fazendo deles intérpretes ou mediadores de grandes desígnios históricos, mas também vítimas directas das ondas de choque que o terramoto revolucionário sempre desencadeia, e que se traduz na consagrada máxima de que as revoluções devoram sempre os seus filhos.

A história das revoluções está repleta de relatos dessa torrente revolucionária que, se por um lado «produz em poucos dias sucessos mais importantes que toda a história anterior da humanidade» (Robespierre), e cuja heroicidade e grandeza só é comparável ao «assalto dos céus» (imagem usada por Marx a propósito da Comuna de Paris), por outro faz surgir do seu interior vagas tumultuosas de refluxo, que nenhum dos actores pode controlar e que os arrasta numa direcção que pouco ou nada tem a ver com os seus objectivos e propósitos conscientes.

O segundo conceito fala da revolução não como uma criação ex-nihilo, mas como o prolongamento e concretização de tendências perceptíveis na situação pré-revolucionária. Valoriza-se, portanto, a continuidade, à luz de análises quantitativas, de tempos longos e contínuos, e de estruturas que mudam muito lentamente. Um conjunto de instrumentos seguros para significativo número de historiadores que preferem a previsibilidade à surpresa.

As perspectivas esquematicamente apresentadas configuram modelos de análise consagrados, que o autor de Penser la Révolution Française identifica com Michelet e Tocqueville: Michelet, o poeta historiador, totalmente irmanado com os ideais democrático-revolucionários, cuja obra celebra a quase milagrosa coincidência entre os valores, o povo e a acção dos homens; Tocqueville, o critico liberal moderado da democracia, que contrapõe ao fracasso da revolução francesa, o êxito da evolução inglesa. O acontecimento ou a sua análise; ou ainda a revolução que se conta a si própria, através da experiencia directa dos seus actores, ou que é contada por outros indirectamente, através de uma racionalização retrospectiva; finalmente: a revolução ou a evolução.

Neste jogo de espelhos entre a revolução como processo histórico objectivo e a revolução como conjunto de acontecimentos (acontecidos e vividos) se insinua a persistente obscuridade que ameaça qualquer uma das perspectivas, ambas pecando por excesso de distância ou de proximidade. Talvez que a complexidade do fenómeno revolucionário só se atinja através da pulverização das categorias de uma temporalidade histórica e da sua férrea sequência cronológica (passado, presente, futuro) em nome de uma temporalidade mítica ou simbólica, reversível e transtemporal. Ou seja, de um presente que realiza um jogo imprevisível com o passado e com o futuro. Um presente que se alarga muito para lá da fria cronologia e convoca uma memória mais profunda do que a memória historiável.

Porque entre o «assalto dos céus» e a queda na crua realidade, entre o 14 de Julho (Tomada da Bastilha) e o 9 Thermidor ou o 18 Brumário, entre a tomada do Palácio de Inverno e a vitória do partido bolchevique, ou, remetendo para a nossa realidade, entre o 25 de Abril de 74 e o 25 de Novembro de 75, algo de excepcional aconteceu que, como diz Luís Trindade «pode ter deixado incólume, a prazo, a nossa estrutura social, mas manchou a narrativa politica portuguesa».

É que a revolução, mesmo derrotada ou desvirtuada, conserva uma espécie de invencibilidade: permanece na memória dos povos como narrativa exaltante e inspiradora, fonte das mais fundas expectativas de felicidade colectiva, corrente subterrânea de energias mobilizadoras contra a depressão e a decadência, «voo de águia» ou «salto de tigre» sobre o caminhar lento e penoso de uma humanidade hostil e sem esperança.

(Continua)

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