Este poema foi escrito e publicado no princípio dos anos 60 e pretendia reflectir com ironia ácida o clima opressivo do tempo e até alguns factos concretos, como o projecto da ponte sobre o Tejo (então bandeira propagandística privilegiada do regime) ou o corte das barbas a estudantes presos…
Pedro Tamen, Outubro de 2008 (*)

Dextra, a sina implica sons de vento; não nos sabe
a boca a como dantes era - vibração,
embuste ou dano.  Cresce a papoila e lá isola
a força nítida, flectida, não reflexa.
Não tem dos ditos sons uma audição visível
- mas o tacto.  A nós, olfacto e  tempo
se misturam no cadinho imperfeito
que os finos dedos formam (dedos
ou trémulos suspiros? maçãs do rosto
ou neve?)  Mais duvida a penumbra
que a escuridão dos olhos, cesto, abrigo
do mais danado não; mas é nela
que a mão dorida poisa e faz a tarde.
De nós a oito dias não a vela
rodará; agora zune.
Neste momento exacto,
como a gaivota limpa, aqui é isto:
a cólera dos numes.  O peso adulto.
O pente sobre o Tejo. E as sereias.
Aviso aos que nos cortaram as barbas:
cada um dos nossos pêlos é contado.

Pedro Tamen, Poemas a isto, Moraes ed., Lisboa, 1962.

 
(*) Biografia de Pedro Tamen.

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