O primeiro texto desta série e a Bibliografia podem ser lidos aqui, o segundo aqui, o  terceiro aqui e o quarto aqui.

 
Volto às palavras iniciais do texto 1 – Mas de que amigo estou a falar, amigo de quem e em que circunstância? Refiro um evento trágico – a Guerra Civil que se desenrolou em Espanha entre 1936-39 e o apoio que o regime salazarista deu aos franquistas. Baseio esta série de textos numa comunicação que fiz num simpósio organizado pela Universidade Católica em 2006, cujas actas estão publicadas. (Jorge Fazenda Lourenço e Inês Espada Vieira (org), Guerra Civil de Espanha: cruzando fronteiras 70 anos depois, Lisboa, UC, 2007).

Neste texto e no anterior já se está a abordar o período pós Guerra Civil.

Numa época em que a mobilidade e os modos de comunicação eram muito distintas da actual também os encontros entre os dois governantes foram marcados pela parcimónia. Assim, entre 1939 e 1968, Salazar e Franco encontraram-se raras vezes, a saber: em Sevilha, a 12 de Fevereiro de 1942; por ocasião da visita oficial de Franco a Lisboa, que ocorreu de 22 a 27 de Outubro de 1949; em Pazo de Meirás e no Porto, em 26 e 27 de Setembro de 1950, respectivamente; em 14 e 15 de Abril de 1952, em Ciudad-Rodrigo; de novo em Ciudad-Rodrigo, em 8 e 9 de Julho de 1957; em Mérida, de 20 a 21 de Junho de 1960; de novo em Mérida, em 1963.

Os comunicados oficiais davam informações igualmente «oficiais» sobre as matérias em discussão mas tudo indica que, para além da afirmação simbólica das duas identidades peninsulares, estes encontros serviam para se analisar os posicionamentos dos dois países no contexto dos sucessivos cenários internacionais. Passado o complexo período da 2ª Grande Guerra e o seu rescaldo, havendo aí, obviamente, ampla matéria em discussão, no caso espanhol, estava em causa o desejo de ser admitido quer na OTAN quer na ONU, e contar com a mediação do governo português para esse objectivo e, no caso português, o desejo de apoio por parte de Espanha à política ultramarina de Salazar.

Um dos aspectos salientes e muitas vezes olvidado do relacionamento bilateral não oficial, numa época de fronteiras muito definidas e policiadas, era o grande volume de contrabando que se movimentava nos dois sentidos mas de forma mais pronunciada de Portugal para Espanha. As Guardas Civis de um e de outro lado chegaram a matar pequenos contrabandistas apanhados em delito, o que deu azo a algumas notas verbais diplomáticas de teor bastante azedo. Na década de 60 ocorreu o fenómeno massivo da emigração clandestina de portugueses em direcção a França, atravessando a Espanha por vezes em condições de extrema dificuldade, conduzidos por redes de passadores espanhóis e portugueses.

De referir ainda a questão de Olivença, a cidade portuguesa e o seu termo, totalizando 42 mil hectares, tomada pelos espanhóis em 1801, por ocasião da Guerra das Laranjas, e que, apesar de os dois países terem acordado a sua restituição a partir do Congresso de Viena de 1815, tal nunca se realizou. Salazar não se empenhou junto ao seu homólogo no cumprimento da restituição talvez por ter percebido que os espanhóis nunca cederiam e que tal assunto poderia danificar muito seriamente as relações entre os dois governos, empurrando Portugal para uma perda de face.

Poder-se-á concluir que no período em apreço a vivência das populações dos dois países foi profundamente marcada pela personalidade e ideologia dos seus respectivos ditadores e que os regimes eram, em consequência, profundamente pessoalizados. Quer num caso quer noutro os sistemas em vigor desapareceram simultaneamente com o desaparecimento dos chefes sem que, evidentemente, se tenham apagado as profundas marcas impressas na História dos dois países que partilham o espaço da Península Ibérica.

Caracterizando as complexas relações luso-espanholas, como são sempre as relações de vizinhança, o historiador e político Claudio Sanchez Albornoz, escreveu que entre os dois países se ergueu uma fronteira «mais alta que os Pirenéus: séculos de hostilidade, séculos de receio, séculos de incompreensão, séculos de ambições e medos», mas que também existia «um hilo escondido / que nos aprieta a los dos», como reza uma canção de amor andaluza.

Lei da Memória Histórica

Estou inteiramente de acordo com a iniciativa do actual Governo Espanhol ao promulgar em Agosto de 2006 a Lei da Memória Histórica ou Lei de Reconhecimento e Extensão dos direitos das vítimas da Guerra Civil e da Ditadura. Para que a transição democrática em Espanha se fizesse sem sobressaltos, em 1977, foi útil não se ter, desde logo, remexido num passado tão doloroso. Por isso se fez na altura um não-escrito «pacto de silêncio». Agora que a Espanha é membro da União Europeia e um Estado de Direito é tempo de abertamente recordar, honrar, reflectir. É sinal de maturidade e de justiça. Tal como também afirmou Paul Preston na conferência de abertura do Simpósio, memória não significa vingança e deixar no esquecimento episódios da história de Espanha não contribui para qualquer reconciliação. Acrescentou: «Durante 40 anos tentou-se destruir os arquivos e ocultá-los. É um insulto pensar que ao fazermos a história das vítimas estamos a proceder mal.» Aliás, as críticas que a lei tem recebido quer por parte de forças mais à direita como mais à esquerda indicam que é uma lei equilibrada e exequível. 64% dos espanhóis é favorável a esta iniciativa.

Acresce que nos últimos anos em Espanha têm sido abertos à consulta pública numerosos arquivos (mas ainda há muita documentação que permanece abafada) e em consequência a produção historiográfica espanhola e internacional sobre a Guerra Civil tem sido de tal monta que seria impossível ignorar o interesse que esta tragédia suscita.

No Verão de 2006 encontrei em jornais espanhóis, nomeadamente no El País e no El Mundo, uns pungentes anúncios necrológicos, mandados publicar por descendentes de mortos de ambos os lados.

Concluindo: É fácil corrigir a história do passado. Difícil é intervir na história do presente. Afinal é essa a nossa tarefa mais importante.

Biografia de Ana Vicente

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