Em 1954, com nove anos e ainda a iniciar-me na condição de barreirense adoptivo (tinha ido para lá morar no ano anterior), como consequência de um absurdo meteorológico, apanhei com um forte nevão em cima.

Então, pouco mais se respirava que fumo no Barreiro. Quem lá chegasse tossia, tossia, até os pulmões se habituarem aos fumos sulfurosos e nítricos da CUF, depois, com o tempo, deixava de tossir porque os gases poluidores entravam-nos no corpo e ganhavam foros de cidadania. Aliás, os barreirenses conheciam os forasteiros à légua porque esses eram os únicos que, entrados na vila, tossiam e se queixavam. Alfredo da Silva e herdeiros tinham doado aos barreirenses o «privilégio» de deixarem de ser alérgicos aos óxidos e anidridos nítricos e sulfurosos saídos abundantemente das chaminés do Império CUF. Como uma espécie de recompensa por deixarem que eles construíssem a sua fortuna avantajada a fabricarem e venderem adubos, enquanto sulfatavam e azotavam os pulmões dos trabalhadores e outros habitantes da vila operária. O Outono e o Inverno eram as épocas favoráveis ao smog. As névoas que eram frequentes pela proximidade do rio, misturavam-se então com o fumo e formavam uma mescla turva a fazer de atmosfera. Nessa altura, a agressão aos pulmões era maior porque os óxidos ácidos misturavam-se com o vapor de água e, então, aquilo que era respirado tinha um teor considerável de ácidos agressivos. As casas do Barreiro, talvez porque tinham sido construídas com pulmões mal acabados, ficavam rapidamente com sinais precoces e indeléveis da agressividade ácida. As paredes eram enegrecidas e escuros eram os telhados. E as árvores, as poucas árvores que teimavam em vegetar, tinham um aspecto lúgubre bem vincado como se quisessem exibir uma desdita de protesto contra os sádicos que as plantavam ali e depois davam-lhes fumos ácidos para respirarem. Como tantos outros, também eu me habituei e adaptei. E a paisagem humana, social e cultural do Barreiro, o feio e industrial Barreiro, passou a preencher a minha natureza como pessoa.

Nessa manhã do ido 54, preparando-me para sair para o caminho da escola, abro a janela e o que vejo? A vila negra de ácidos estava coberta por uma camada fortíssima de neve. Que deslumbramento. O Barreiro negro tinha sido substituído por um Barreiro vestido de branco alvo. Repentinamente, a neve caíra aos montões e vencera os fumos da CUF. Foi o delírio. Os barreirenses, a maioria dos quais nunca vira neve, abriam a boca de espanto ao verem a sua vila de branco como se ela se tivesse vestido, sorrateiramente e no escuro de madrugada, de noivado e ali se estivesse a exibir para compensação de tantos anos a vestir o feio smog. Não se foi à escola nesse dia. As crianças andavam espantadas e meio loucas, atirando-se para a neve, construindo infindáveis bonecos de todas as formas e feitios e prolongando batalhas de atira e apanha. Mas, com os adultos, foi pior. Aquele operariado triste, vida queimada em fornos das fábricas e transformado em limalhas pelos tornos das oficinas, resignados a assim ganharem o pão a alimentarem as chaminés com fumos, sempre com a GNR, os legionários e os pides à perna, portou-se pior, bem pior (ou melhor, muito melhor) que as crianças. Pessoas de todas as idades competiam com a criançada na loucura lúdica. Mulheres com alcofas para as compras, esqueciam as hortaliças para a sopa e usavam-nas para tentarem armazenar neve, o máximo de neve, talvez na miragem de a guardarem como um tesouro que dificilmente voltaria a cair do céu. A então vila do Barreiro enlouqueceu mesmo, toda vestida de branco, alva e pura. Deixou de ser negra, negra dos fumos da CUF. Também deixou de ser a vila vermelha, vermelha das insubmissões operárias e dos «Avantes» passados à socapa, tão suspeitamente vermelha que desde 1943 tinha, a par da Marinha Grande, o estatuto de vila guardada de arma em riste pela GNR. Ficou apenas branca. Branca como a neve. Branca com a loucura de ser absurdamente branca. Por um dia.

 
Biografia de João Tunes.

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