Significativamente, e se as primeiras obras de fôlego sobre a guerra civil foram escritas por autores estrangeiros (Hugh Thomas, Anthony Beevor, Ronald Fraser, Paul Preston), a verdade é que os espanhóis têm vindo a revelar nos últimos anos um interesse espantoso pelo assunto. Basta efectuar um passeio despreocupado pelas livrarias de uma qualquer cidade do país vizinho para nos apercebermos da crescente historiografia dedicada ao conflito que opôs republicanos e nacionalistas. Também no campo da ficção têm aparecido obras – como este volumoso As Vozes do Rio Pamano, de Jaume Cabré – que se propõe tomar o evento como alavanca narrativa. No caso deste romance, trata-se sobretudo de abordar o tempo da «ressaca», o surdo e espaçado jogo do gato e do rato que a ditadura teve de travar, durante a década de quarenta, com os fogachos ainda acesos da resistência republicana.
A intriga passa-se numa zona rural da Catalunha, onde uma professora descobre inadvertidamente, numa escola em desactivação, uma caixa de charutos contendo o diário secreto de Oriol Fontelles, antigo mestre-escola naquele lugar e alvo na actualidade de um processo de canonização por ter defendido gloriosa e fatidicamente a igreja local aquando de uma incursão falhada dos maquis. É na distância – física, moral, geracional – entre as duas mulheres que se dedicam no presente a esse homem que se estabelece a trama: de um lado, Elisenda Vilabrú, antiga amante de Oriol, rica proprietária, mulher influente e principal preponente da canonização; do outro, Tina, a professora, terá de ir contornando a sombra de Elisenda de modo a poder contar a «verdadeira» história do suposto herói falangista. E que na verdade foi, afinal, um dos pilares fundamentais dos acossados maquis da zona.
Não se trata, porém, da história de alguém que por convicções ideológicas se transforma num espião. Oriol é um herói «cinzento», que desperta para a acção depois de ter assistido passivamente à morte de um rapaz inocente, de ser abandonado pela mulher grávida e, sobretudo, por ser obrigado pelos revoltosos a servir de ponto de apoio na aldeia, o que faz com relativo êxito. Sendo um livro que tem como tema a guerra civil e o período de consolidação do franquismo, As Vozes do Rio Pamano é um livro sobre vencedores e vencidos, isto é, sobre as execuções, as denúncias, as expropriações e as conivências entre os poderes fácticos. Mas é também uma poderosa narrativa sobre a fragilidade da memória e as marcas quase invisíveis que teimam em sobreviver, resguardadas, por exemplo, atrás de um quadro negro, numa escola em vésperas de ser demolida, à espera de que um presente mais propício as venha libertar.
Três notas finais, a letra miudinha: a primeira para dar conta da preparação deum filme, baseado no livro. A segunda para notar o cuidado gráfico da edição (belíssima capa), o que aliás tem vindo a caracterizar as edições da Tinta da China. A terceira para lamentar o preço elevado do livro: 29,90 euros. Para ler devagarinho, portanto.
Jaume Cabré, As Vozes do Rio Pamano. Lisboa: Tinta da China, 2008, Tradução de Jorge Fallorca, 653 pp. [ISBN 978-972-8955-72-4]
Também publicado em Os Livros Ardem Mal