Setembro 2008


Nascida em Mortágua em 8 de Novembro de 1928, Fernanda Paiva Tomás cursou a Faculdade de Letras de Lisboa, cidade onde foi presa pela primeira vez em 1950, quando, integrada numa manifestação pela paz, ia depositar flores no monumento aos mortos da Grande Guerra. 

Militante do PCP, passou à clandestinidade em 1952, com 23 anos. Um relatório do Gabinete Técnico da PIDE, assinado por Fernando Gouveia, atribui a Fernanda Paiva Tomás ter feito parte do «pessoal técnico» na preparação do V Congresso do PCP, realizado em Outubro de 1957 e ter, até finais de 1958 e sob o pseudónimo «Maria», controlado o sector intelectual do Porto, além de colaborar na imprensa clandestina do PCP, nomeadamente no Militante [1]. 

Nesse ano de 1958, o seu companheiro, Joaquim Augusto da Cruz Carreira, com quem teve um filho, é preso pela PIDE – sendo condenado, no ano seguinte, a quatro anos de prisão maior. Para Fernanda, que chegara a protestar com a Direcção do PCP por, durante um período de separação forçado pela clandestinidade [2], lhe dificultar os encontros com o companheiro, a prisão deste não justifica a interrupção da actividade política. Prossegue, portanto, na sua militância, sendo – segundo o mesmo relatório policial – cooptada em 1960 para membro suplente do Comité Central do PCP, fazendo parte da Direcção Central da Organização Regional de Lisboa e controlando o Sector Oriental da capital. 

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O fascínio da autora, Clara Queiroz, pela personalidade de Emma Goldman resulta da impressionante actualidade da análise política, da defesa dos direitos das mulheres e dos trabalhadores, da justiça social e política e, sobretudo, da intransigente luta pela liberdade.

Cada obra acaba por ter algo de autobiográfico, mesmo que seja a biografia de outra personagem. A autora, cuja empatia com a biografada é muito grande, revê-se no seu pensamento e na sua personalidade e retira do silêncio para o público português esta personagem, malquista e malvista pelos hegemónicos na esquerda europeia durante tantos anos.

Através da narrativa escorreita do livro, assiste-se à vida de uma judia russa, nascida na Lituânia e emigrada para os EUA, onde se abriu para a revolução e para o anarquismo. Este seria, aliás, na sua vivência, intimamente relacionado com o feminismo. Emma Goldman participou também em reuniões com socialistas alemães que tentavam organizar o movimento operário norte-americano e acompanhou as lutas operárias pelas oito horas de trabalho.

Esteve presa durante dois anos e, em 1919, foi deportada para a Rússia com Berkman, seu marido. Aí, depressa descobriram que a revolução, na qual tantas esperanças tinham depositado, também encarcerava anarquistas e outros dissidentes. E ouviram da boca do próprio Lenine que a liberdade de expressão era um conceito burguês.

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  «Nasceu algures numa choupana…»
   João Abel Manta
   In: José Cardoso Pires, Dinossauro Excelentíssimo

Pretendia abordar, tão só, a temática dos dirigentes fundadores do MES, neste caso os que foram eleitos no I Congresso, realizado nos dias 21 e 22 de Dezembro de 1974, na Aula Magna da Cidade Universitária, de Lisboa. Mas, neste caso, terei que ser um pouco mais extenso já que o I Congresso, como é do conhecimento geral, foi marcado pela cisão protagonizada pelo grupo que viria a dar origem ao GIS («Grupo de Intervenção Socialista»).

Esse conjunto de activistas do MES apresentou ao Congresso um longo, e muito bem estruturado, documento intitulado: O MES E A ACTUAL FASE DA LUTA REVOLUCIONÁRIA – AS TAREFAS IMEDIATAS DO MOVIMENTO, datado de 30 Novembro de 1974, subscrito por Armando Trigo e Abreu, César Oliveira, Francisco Soares, Joaquim Mestre, João Bénard da Costa, João Cravinho, Jorge Sampaio, José Manuel Galvão Teles e Nuno Brederode Santos [1].

Reli, quase 34 anos depois, com os olhos de hoje, as 39 páginas (3 delas quase ilegíveis) do documento em apreço e senti uma inesperada sensação de espanto e perplexidade acerca das razões dessa ruptura protagonizada por algumas das personalidades mais proeminentes da esquerda portuguesa.

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O primeiro texto desta série e a Bibliografia podem ser lidos aqui.
 
Volto às palavras iniciais do texto 1 – Mas de que amigo estou a falar, amigo de quem e em que circunstância? Refiro um evento trágico – a Guerra Civil que se desenrolou em Espanha entre 1936-39 e o apoio que o regime salazarista deu aos franquistas. Baseio esta série de textos numa comunicação que fiz num simpósio organizado pela Universidade Católica em 2006, cujas actas estão publicadas. (Jorge Fazenda Lourenço e Inês Espada Vieira (org), Guerra Civil de Espanha: cruzando fronteiras 70 anos depois, Lisboa, UC, 2007).

E se o governo legítimo de Espanha tivesse conseguido ganhar a guerra? O que teria acontecido? Ter-se-ia implantado posteriormente uma ditadura comunista? O que teria acontecido em Portugal se fosse esse o caso? Podemos enveredar por este tipo de especulação mas não é esse o caminho que eu aqui escolhi.

Voltando ao tema, sublinho que, durante largos anos, o apoio prestado pelo amigo lusitano não foi reconhecido pela historiografia espanhola e internacional. Por exemplo, o livro de Hugh Thomas, A Guerra Civil Espanhola, que durante anos foi a principal obra de referência, refere o apoio mas sem lhe dar a devida importância. Mesmo o notabilíssimo ‘The Battle for Spain’ (La Guerra Civil Española) de Antony Beevor, publicado em 2005, (refazendo completamente um seu livro de há 22 anos) não aprofunda suficientemente, a meu ver, a contribuição do regime salazarista para a vitória franquista. Contudo há uma tese de doutoramento do espanhol Alberto Pena Rodríguez cujo tema é precisamente El Gran Aliado de Franco – Portugal y la Guerra Civil Espanhola: Prensa, Rádio, Cine y Propaganda, mas terá tido uma distribuição muito limitada, pois Beevor não o inclui na sua extensa bibliografia. A única obra portuguesa que aí figura é a coordenada por Fernando Rosas – as actas de um colóquio internacional realizado em 1996 (Portugal e a Guerra Civil de Espanha).

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Acaba de ser atribuído o «Prémio Especial Máxima» a Irene Pimentel, pelo seu livro A história da PIDE.

  Um texto de José Pedro Barreto (*)
  Adaptação de texto original publicado na revista Egoísta de 9 de Dezembro de 2001

O filme passou em Portugal com o título de 0 Rato Que Ruge. Era uma daquelas deliciosas comédias inglesas dos anos 50, com o impagável Peter Sellers. Contava a história de um minúsculo principado imaginário da Europa, que vivia confortavelmente da exportação da sua única riqueza, o vinho. Até que um dia deu uma qualquer maleita nas videiras e tudo se perdeu. Ante a perspectiva de uma completa bancarrota, alguém teve uma ideia genial: que tal declarar guerra aos Estados Unidos? É que, sendo a derrota óbvia, os americanos tomariam conta dos vencidos e haviam de ajudá-los copiosamente, com programas à maneira do Plano Marshall. 0 futuro ficaria garantido. Dito e feito: o governo do principado compra passagens num cargueiro rumo a Nova Iorque e nele envia a fina flor das suas Forças Armadas – um punhado de valentes munidos de lanças, cotas de malha e ordens para se renderem ao primeiro cidadão que encontrassem, mal invadissem a América.

Mas, no dia da chegada, um exercício de alarme em Nova Iorque levara toda a gente para os abrigos antinucleares. Quando a valorosa força desembarca encontra a cidade deserta – aparentemente porque os americanos fugiram espavoridos. 0 que a leva a conceber a perspectiva acabrunhante de estar a ganhar a guerra. O resto do filme é uma sucessão de coincidências hilariantes – incluindo a posse inadvertida de uma bomba atómica verdadeira pelos invasores – que tornam cada vez mais difícil atingir o objectivo da operação e acentuam os riscos de uma desastrosa vitória militar sobre os Estados Unidos.

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