(Publicado originalmente em Água Lisa)

Perfaz hoje exactamente 70 anos sobre a data de uma das maiores vergonhas da cobardia democrática, quando Neville Chamberlain, pela Grã Bretanha, e Édouard Daladier, pela França, baquearam perante Hitler e Mussolini através da assinatura do famigerado Tratado de Munique, em que aqueles estadistas entregaram aos dentes dos dois ditadores que buscavam o domínio do mundo o «osso» da Checoslováquia democrática na esperança oportunista de que, assim, lhes saciavam os apetites expansionistas e evitavam ter de defrontá-los pelas armas. 

Caracterizar assim o Tratado de Munique é, obviamente, um julgamento com o saber do posterior. Porque, na altura, quando Chamberlain e Daladier regressaram de Munique, eles foram saudados efusivamente, nos seus países e um pouco por toda a parte, como verdadeiros heróis pacifistas que tinham salvo a Europa e o mundo de uma guerra mundial. O que só pode significar que, então, as opiniões públicas não só estavam dominadas pelo medo do nazismo como se acreditava que os ímpetos bélicos de Hitler podiam ser saciados com alguns nacos. Ou seja, que a besta, quando de estômago cheio (supondo-se que a anexação da Áustria e das Sudetas, ambas habitadas predominantemente por povos germânicos), se deitaria a remoer, adormecendo, desta forma, os seus instintos de gula. E Hitler, formalmente, tinha para esgrimir perante a diplomacia conservadora e clássica que Chamberlain e Daladier representavam, um trunfo poderoso de legitimidade para anexar as Sudetas checoslovacas: ali viviam maioritariamente três milhões de alemães que, mobilizados pelo Partido Nazi das Sudetas, chefiado por Honrad Henlein, haviam votado esmagadoramente pela integração daquele território no Reich. E, formalmente também, os nazis afirmavam que da Checoslováquia lhes bastavam as Sudetas e que o resto da Checoslováquia se manteria independente e autónomo (o que desmentiram rapidamente ao ocuparem a Boémia e a Morávia sob a forma de um «Protectorado» e permitindo a separação da Eslováquia onde se instalara um regime clerical-fascista).   

Munique não foi uma traição isolada por cobardia e hipocrisia no processo do conflito gerado pelo expansionismo nazi. Em simultâneo com as negociações de Munique, Espanha estava ainda a ferro e fogo, numa guerra civil e internacionalizada, onde as mesmas democracias que baquearam em Munique já se haviam prestado a deixarem cair a República legítima espanhola através da representação da comédia da «não intervenção», enquanto Hitler, Mussolini e Salazar apoiavam e armavam Franco e Estaline prestava, com a companhia distante e pouco relevante do México, um apoio moderado e insuficiente ao lado republicano. Pior que isso, a traição de Munique foi, em si mesmo, um álibi indutor de novas traições e novos arranjos, como o que ocorreu no ano seguinte, quando Estaline, fazendo ainda pior que Chamberlain e Daladier (pois que se mostrou parte interessada no anexionismo), se aliou a Hitler, quando este deu o passo bélico seguinte, invadindo a Polónia (dividindo-a com a URSS e permitindo a esta que se apoderasse das repúblicas bálticas).

As consequências de Munique são conhecidas: a Checoslováquia foi desmembrada e desapareceu como Estado; em vez de se ganhar a paz acelerou-se a vontade de Hitler em precipitar a guerra; a guerra veio a travar-se em 1939 com o exército nazi mais forte do que estava no ano anterior; perdeu-se a oportunidade de travar Hitler por uma coligação antifascista e quando este estava confinado em território alemão.

Se o filme da história não é rebobinável, que lições se podem tirar hoje e à distância dos 70 anos de Munique? Muitas. Porque o hábito inveterado de as democracias contemporizarem com as ditaduras e os apetites expansionistas, hoje em nome dos interesses comerciais ou do fornecimento de energia, esse permanece. Em muitos lados, muito perto, aqui. E tal como as multidões que, em Setembro de 1938, ovacionaram Chamberlain e Daladier pela sua «esperteza pacifista», não faltam hoje os filisteus que trocam importações e exportações por liquidações de direitos democráticos e direitos humanos, nem um numeroso séquito de claques fascinadas pela maravilha pragmática da supremacia da «diplomacia económica» que ajusta défices comerciais e sustenta gorduras energéticas, descuidando, se for caso disso, os princípios e os valores.

 
Biografia de João Tunes.

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