Segundo noticiou o jornal Público, de 25 de Setembro de 2008, a Fortaleza de Peniche vai ser transformada em Pousada de Portugal, devendo abrir portas até 2013. «Com um investimento previsto de dez a 15 milhões de euros, a nova unidade deve compatibilizar a função hoteleira com a “preservação da memória da prisão política”» – disse António Correia, presidente da Câmara de Peniche. O autarca acrescentou que essa «pousada será diferente», pois «será construída num local que é visitado por milhares de pessoas à procura da memória do que ali se passou» (*).

Esta declaração parece uma anedota (de mau gosto).

Será que o Sr. Presidente da Câmara está à espera de «clientes» bebam um copo, num hipotético bar, erguido junto ao «parlatório», onde os familiares visitavam os presos políticos com uma placa de vidro encimado por uma rede de permeio e os guardas a vigiarem? Ou que dêem um mergulho na piscina, junto à «furna» isolada em cimento, que servia de «segredo», para punir os presos políticos? Ou ainda que façam parapente para o mar, ou escalada dos muros, para reviver as fugas audaciosas dos presos políticos?

As declarações do autarca de Peniche revelam também que a questão da preservação da memória está a «passar» em Portugal e até a tornar-se numa moda. Não se trata porém de criar espaços museológicos, necessários a um trabalho de memória, que não só a possa preservar, pacificá-la nos que sofreram a repressão da ditadura de Salazar e Caetano, como servir de ponte actuante entre o passado, o presente e o futuro, bem como de solidariedade entre as gerações. Não. O que se pretende é utilizar a mesma memória para efeitos comerciais, até com algo de macabro. Pelos vistos, o exemplo da sede da PIDE/DGS, na Rua António Maria Cardoso em Lisboa, transformada em condomínio de Luxo, «pegou». Só que desta vez, até uma propriedade pública que serviu de centro de detenção política para os opositores a Salazar e Caetano cumprirem as penas a que eram condenados pelos Tribunais Plenários do Estado Novo parece poder vir a ser transformada numa Pousada de Portugal privada.

(*) A notícia também refere que do grupo Pestana-Pousadas de Portugal fará essa transformação, ao abrigo de um contrato que já terá já sido assinado, no passado dia 25, entre ele e os organismos estatais Turismo de Portugal, Enatur (Empresa Nacional do Turismo) e Direcção-Geral do Tesouro e Finanças.

Texto integral da notícia.

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