O primeiro texto desta série e a Bibliografia pode ser lidos aqui e o segundo aqui.

 
Volto às palavras iniciais do texto 1 – Mas de que amigo estou a falar, amigo de quem e em que circunstância? Refiro um evento trágico – a Guerra Civil que se desenrolou em Espanha entre 1936-39 e o apoio que o regime salazarista deu aos franquistas. Baseio esta série de textos numa comunicação que fiz num simpósio organizado pela Universidade Católica em 2006, cujas actas estão publicadas. (Jorge Fazenda Lourenço e Inês Espada Vieira (org), Guerra Civil de Espanha: cruzando fronteiras 70 anos depois, Lisboa, UC, 2007).

Aproveitei uma estadia num Curso de Verão ligado à Universidade de Oviedo, nas Astúrias, precisamente sobre relações Portugal-Espanha, para recolher uma reflexão de dois estudiosos:

Juan Velarde Fuertes – historiador económico, professor catedrático jubilado, conselheiro do Tribunal de Contas de Espanha:

«A reacção de Salazar frente ao Governo da República foi muito forte porque ele sabia que Azaña tinha na cabeça (e é ele que o diz nos seus Diários) deixar uma grande herança histórica, que era o retorno ao Iberismo – à União Ibérica – além disso deu apoio a exilados portugueses em Espanha o que leva Salazar a ajudar Sanjurjo e todos os que fossem contra a II República e dar-lhes todo o amparo. Depois de 18 de Julho de 36, os inimigos de Salazar estão com a República. A partir desse momento houve três tipos de ajuda:

  1. Garantir uma fronteira exterior, que era a fronteira portuguesa a oeste, para poder apoiar a marcha das colunas que vinham do sul e que procuravam atingir Madrid, e também procuravam juntar-se ao exército dos rebeldes na Galiza e que, por sua vez, se dirigia para as Astúrias. Os Portos de Lisboa e Porto funcionam como uma espécie de retaguarda segura e tranquila para receber o material que chegava de Itália e da Alemanha. Ter uma fronteira tranquila foi fundamental. Este apoio foi muito sério e importante.
  2. Obtenção de créditos. Salazar chamou à sua residência privada, um a um, uma série de banqueiros, entre os quais o Espírito Santo, e dizia-lhes que era necessário ajudar as tropas de Franco. Contaram-me pessoalmente, foi Solis, o antigo ministro que me contou, que numa caçada poucos anos antes de morrer, encontraram-se Franco e um Espírito Santo. Franco teria agradecido dizendo: ‘Nós em Espanha devemos-lhe muito’, ao que o Espírito Santo comentava: ‘Podia ter devolvido alguma coisa – tudo aquilo foi a fundo perdido. Não creio que jamais devolva nem um escudo.’ Ou seja não foram créditos, foram uma série de identidades que deram dinheiro – não se sabe quem nem quanto – porque obviamente os documentos estão nos respectivos bancos e arquivos privados e por isso nunca se saberá.
  3. Um mecanismo de apoio frente à Inglaterra – porque Salazar conseguiu que o Banco de Espanha em Burgos fizesse um pacto com o Banco de Inglaterra (isto em plena Guerra Civil) através do qual o Banco de Inglaterra abriu um crédito elevado para compensar os desequilíbrios na balança comercial entre a Espanha Nacionalista e a Inglaterra. Também queria relatar um incidente que se passou em Valladolid. Estava lá organizado o chamado Auxílio Social gerido pela Falange (de início chamou-se auxílio de Inverno em imitação ao alemão). Dirigido aliás por uma mulher. Em conformidade com a sua ideologia ultra-nacionalista, editaram uns mapas de Espanha onde Portugal estava integrado em Espanha. Quando isto foi conhecido pelas autoridades em Burgos, ficaram furiosos. Quem me contou foi ele próprio objecto de insultos por parte do Serrano Suñer (tratava-se de Luís Purgos Hueso que era falangista e que mais tarde foi funcionário do Ministério do Trabalho, onde o conheci). Chegou a ser ameaçado de execução aos gritos. Tudo isto demonstra até que ponto o Governo de Burgos não queria irritar os portugueses, por terem uma autêntica preocupação com a amizade lusa.»

José Ramón Gómez Fonz – historiador asturiano, autor de 3 livros sobre o pós guerra civil nas Astúrias. Segundo ele:
«foi o local mais duro em toda a Espanha. Porque houve muitos combatentes republicanos que não se entregaram e se refugiaram nas montanhas formando um maquis. Para lá foi mandado um corpo especial da Guarda Civil, a que se chamava a Brigadilla e que os perseguia. Há aqui ódios ancestrais. Logo que estes combatentes eram encontrados eram mortos imediatamente. Tenho fotografias horríveis que o comprovam e que já publiquei. Isto durou até 1952. Alguns destes guerrilheiros fugiram para França e para outros países, por exemplo para a América do Sul, através de Portugal, mas foram poucos, daqui tinham que ir à Galiza (onde também havia guerrilheiros) e daí para Portugal onde eram ajudados por membros do Partido Comunista Português. Eu quero fazer uma biografia do general Yague que quis logo avançar sobre Madrid e talvez a guerra tivesse acabado logo ali, mas Franco retirou para Toledo e assim retirou-lhe o poder. Salazar apoiou Franco militarmente, economicamente e moralmente. Contudo Franco não era santo da sua devoção.»

O pós-guerra

Para garantir ainda mais as relações luso-espanholas pós-guerra civil, altura em que poderia haver um renascer de veleidades anexistas por parte espanhola, (e é indiscutível que os Falangistas sonhavam com a integração de Portugal na grande Espanha), Salazar negociou rapidamente e os dois ditadores subscreveram, logo em 17 de Março de 1939, o Tratado de Amizade e Não Agressão entre Portugal e Espanha, que mereceu um protocolo adicional em 29 de Julho de 1940.

O Franquismo e o Salazarismo constituíram um sistema de coabitação na Península Ibérica durante cerca de 30 anos, que se revelou mutuamente útil. Os dois homens que deram nome a esse período eram, contudo, personalidades muito díspares. Francisco Franco Bahamonde (1892-1975) não foi feliz na infância. O pai, que chegou a Intendente-Geral da Marinha espanhola, era extremamente violento e os progenitores do Generalíssimo, como veio a ser conhecido, acabaram por viver separados. António de Oliveira Salazar (1889-1970) cresceu no seio de uma família de pequenos agricultores, num ambiente tranquilo, e estudou no seminário entre 1900 e 1908. Por outro lado, Salazar nunca casou e tanto quanto se sabe, não teve filhos. Franco era casado e pai de uma filha, e foi avô extremoso de seis netos. Salazar era professor universitário, Franco um militar de carreira. Salazar era oriundo de uma pequena burguesia profundamente rural, enquanto a família de Franco vivia e trabalhava na administração naval, na cidade de El Ferrol, na Galiza, desde o princípio do século XVIII. Franco abertamente cruel e sanguinário, Salazar calculista e simulado na sua crueldade. Franco gozando com a aquisição e o usufruto de bens materiais, Salazar de uma austeridade e de uma modéstia de estilo de vida muito acentuada. Franco praticando a caça e a pesca assiduamente, Salazar preferindo ocupar todo o seu tempo em estudo e trabalho.

No entanto, os pontos de convergência eram também muito vastos – um obsessivo apego ao poder que justificavam pela missão salvítica em que ambos se consideravam investidos; o culto do patriotismo e do nacionalismo; a prática do catolicismo como forma «tradidional/nacional» da expressão religiosa; uma atitude profundamente conservadora perante a vida; uma valoração grande da autoridade, da ordem e da hierarquia; um anti-comunismo visceral; uma representação de como «devia ser» a vivência em sociedade que passava pela atribuição de papéis rígidos, mitificados e bem distintos às mulheres e aos homens. Contudo, poder-se-á afirmar que a «dedicação» que Salazar ministrava ao seu país era mais desapegada e mais desinteressada do que a de Francisco Franco em relação a Espanha, pois o Generalíssimo cultivava uma marcada auto-adulação e incentivava o culto da personalidade.

Mas há que sublinhar que também houve profundas diferenças nas visões e estratégias que um e outro ditador tiveram ao longo das décadas de governação dos seus respectivos países, das quais a mais saliente tem a ver com a sucessão. Salazar não cuidou da evolução do regime nem permitiu que outros o fizessem. Os espaços de reflexão e de interrogação foram asfixiados. Em 1950, já com dezoito anos de regime, não se vislumbrava um futuro. Nos anos 60 a indefinição acerca desse mesmo futuro permanecia. Em contraste, desde 1947 que Franco tinha definido a sucessão, delineara horizontes, apontando para um regime monárquico, mesmo que se possa considerar que a principal motivação do espanhol teria sido garantir a sua manutenção no poder absoluto.

Biografia de Ana Vicente

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