O primeiro texto desta série e a Bibliografia podem ser lidos aqui.
 
Volto às palavras iniciais do texto 1 – Mas de que amigo estou a falar, amigo de quem e em que circunstância? Refiro um evento trágico – a Guerra Civil que se desenrolou em Espanha entre 1936-39 e o apoio que o regime salazarista deu aos franquistas. Baseio esta série de textos numa comunicação que fiz num simpósio organizado pela Universidade Católica em 2006, cujas actas estão publicadas. (Jorge Fazenda Lourenço e Inês Espada Vieira (org), Guerra Civil de Espanha: cruzando fronteiras 70 anos depois, Lisboa, UC, 2007).

E se o governo legítimo de Espanha tivesse conseguido ganhar a guerra? O que teria acontecido? Ter-se-ia implantado posteriormente uma ditadura comunista? O que teria acontecido em Portugal se fosse esse o caso? Podemos enveredar por este tipo de especulação mas não é esse o caminho que eu aqui escolhi.

Voltando ao tema, sublinho que, durante largos anos, o apoio prestado pelo amigo lusitano não foi reconhecido pela historiografia espanhola e internacional. Por exemplo, o livro de Hugh Thomas, A Guerra Civil Espanhola, que durante anos foi a principal obra de referência, refere o apoio mas sem lhe dar a devida importância. Mesmo o notabilíssimo ‘The Battle for Spain’ (La Guerra Civil Española) de Antony Beevor, publicado em 2005, (refazendo completamente um seu livro de há 22 anos) não aprofunda suficientemente, a meu ver, a contribuição do regime salazarista para a vitória franquista. Contudo há uma tese de doutoramento do espanhol Alberto Pena Rodríguez cujo tema é precisamente El Gran Aliado de Franco – Portugal y la Guerra Civil Espanhola: Prensa, Rádio, Cine y Propaganda, mas terá tido uma distribuição muito limitada, pois Beevor não o inclui na sua extensa bibliografia. A única obra portuguesa que aí figura é a coordenada por Fernando Rosas – as actas de um colóquio internacional realizado em 1996 (Portugal e a Guerra Civil de Espanha).

Cláudio Sanchez-Albornoz, o historiador, intelectual e lusófilo, que foi embaixador de Espanha em Lisboa entre Maio de 1936 até ser expulso pelo Governo português em 23 de Outubro desse ano, deixou um grande número de escritos que testemunham eloquentemente as características e os detalhes desse imenso apoio, e descreve a imensa hipocrisia de quem mantinha a fachada de uma falsa neutralidade, para agradar sobretudo aos britânicos. Aliás, Cláudio Sanchez-Albornoz resume tudo isto numa frase: «A História fará algum dia justiça dos políticos portugueses de hoje e de nós.»

Beevor realça na sua introdução ser esta uma guerra em que os vencidos a escreveram com mais eficácia do que os vencedores, sem tentar dar uma explicação para este facto.

Verifico também que se encontra actualmente a circular, em Espanha, para subscrição, um manifesto intitulado «República – com orgulho, com modéstia e com gratidão», que é promovido por destacadas figuras da cena espanhola. Refere a «ajuda dos regimes fascista e nazi» à sublevação mas mais uma vez o apoio português é omitido. É como se a pequenez portuguesa não merecesse reconhecimento.

Vejamos como poderemos descrever sumariamente esses apoios que se inserem numa lógica mais que evidente:

 
Antes da sublevação:

Antes de 18 de Julho de 1936, e sobretudo depois da vitória nas urnas da Frente Popular, em Fevereiro desse ano, foram dadas todas as facilidades aos espanhóis da Falange que se instalaram em Portugal para preparar o golpe. Essas facilidades não se traduziam apenas a fechar os olhos às actividades dos conspiradores mas a ajudas directas embora necessariamente oficiosas.

Sabe-se que Salazar não podia gostar de Azãna, pois este teria apoiado a tentativa de um golpe de estado contra o governo português, em aliança com refugiados políticos portugueses acolhidos por sua vez, em Espanha, entre os quais Jaime Cortesão. Além disso nutria ambições federalistas para a Península Ibérica, na qual Portugal estaria inserido.

Recorde-se que o General Sanjurjo, director da Guarda Civil, se tinha exilado em Portugal a partir de 1934. Em Portugal não mais parou para, e cito, «organizar um movimento nacional que salvará a Espanha da ruína e da desonra.»

Cláudio Sanchez-Albornoz considera que, indirectamente, contribuiu para a morte de Sanjurjo porque, ao protestar veementemente contra a hipótese de Sanjurjo sair de Lisboa a partir de um aeródromo militar (aliás o Governo Espanhol também apresentou queixas ao então encarregado de negócios de Portugal em Madrid, Riba Tamega), Salazar proibiu essa hipótese mas disse que já não tinha nada a ver com o que se passava nos aeroportos privados. A 20 de Julho, Sanjurjo partiu da Quinta da Marinha em Cascais para dirigir a insurreição, mas o avião caiu e ele morreu. O avião talvez tenha sido sabotado, ninguém jamais saberá a verdade.

Outra figura importante que antes de 18 de Julho teve acolhimento em Portugal foi Gil Robles, dirigente da CEPA – Confederacion Española de Derechas Autónomas. Outros que por cá passavam, muitos enviados pelo general Mola (que também falhou o comando da sublevação por morte) ou até que cá viveram – o Marquês de Quintanar, (que chegou a ser recebido por Salazar, segundo Maria Inácia Rezolla) e até Nicolas Franco, irmão do ditador e futuro embaixador de Espanha em Lisboa durante quase 20 anos.

 
Depois de 18 de Julho:

Aí atrevo-me a dizer que os apoios foram tantos e tão úteis, com especial realce para as primeiras semanas, que porventura orientaram os ventos da guerra no sentido da vitória franquista de uma forma determinante.

Poder-se-á listar esses apoios que, a partir de Outubro de 1936, puderam contar com a presença logística e política de uma Junta de Representação do Estado Espanhol em território português.

Armamento, munições e outros mantimentos – através de Portugal, com a conivência do Governo, obviamente, chegavam aos insurrectos armamento, vindo de Itália, da Alemanha, de outros lugares nestes casos transportados por traficantes, mas também da fábrica de armamento pertencente ao Estado, situada na Barcarena. Mas também alimentos, gasolina, material de socorro chegaram aos revoltosos através do país.

Transportes e Comunicações – segundo Pedro Ramos Brandão, «os insurrectos puderam utilizar os aeroportos civis portugueses e outros improvisados no Alentejo para receber os aviões de transporte e de bombardeamento enviados por Berlim». Assim os portos portugueses estavam completamente abertos a esse comércio. Os insurrectos chegavam a referir Lisboa como «el puerto de Castilla». As estradas também podiam ser livremente utilizadas. Beevor refere que foi montada uma central telefónica no Hotel Aviz em Lisboa, onde confluíam as linhas de Burgos e de Sevilha.

Financiamento – dado que o governo não podia disponibilizar oficialmente fundos, pediu aos bancos que o fizessem e, segundo Iva Delgado, tolerou que operações financeiras dirigidas por Juan March e Gil Robles para compra de material bélico fossem aqui realizadas. Segundo Sanchez-Albornoz: «Foi emitido, com a participação do Governo português, um empréstimo que foi coberto na sua totalidade. Ignora-se a quantia.» Segundo Rezola, o industrial Alfredo da Silva entregou, a 11 de Agosto de 1936, 175 000 libras a Andrés Amado, representando a Junta de Burgos.

Entrega de refugiados aos rebeldes – Diversas testemunhas, entre as quais Mário Neves e Cláudio Sanchez-.Albornoz, atestam que enquanto os refugiados das zonas governamentais recolhidos em presídios militares portugueses não eram entregues aos rebeldes para serem fuzilados, já o mesmo não acontecia com aqueles que ficavam nas mãos da PIDE. Assim nunca se saberá quantos espanhóis foram fuzilados porque entregues por autoridades portugueses às mãos dos insurrectos.

Forças Militares – A partir da formação da Legião Portuguesa, nascida no fervor de apoio aos insurrectos, em Agosto de 1936, nasceu a ideia de lhes enviar tropas – não uma unidade autónoma, (por razões dos compromissos internacionais de Salazar) mas incorporados em divisões espanholas. É toda uma saga que viveram os Viriatos, como vieram a ser chamados. Muitos destes eram soldados regulares que recebiam o seu soldo. Eram enquadrados pela Missão Militar Portuguesa de Observação em Espanha. Ninguém sabe ao certo quantos foram – a contrapor aos números empolados do regime – que falavam em 15.000 ou 30.000, segundo César Oliveira, seriam entre 2.500 a 8.000. Teriam morrido cerca de 600. Em torno deles não existe qualquer aura romântica mas apenas discursos ocos que escondem uma imensidade de pequenas tragédias individuais vividas por estes infelizes, alguns dos quais tentavam desertar por serem maltratados pelos comandos espanhóis. Outros ainda perderam as poupanças na travessia da fronteira, no final da guerra, alegando as autoridades espanholas que eles estavam a traficar divisas. Quando regressaram em Junho de 1939 foram aclamados nas ruas e nas estações mas Salazar recusou-se a dar qualquer subsídio para a sua reintegração.

Propaganda – O estudo de Alberto Pena Rodriguez sobre o papel da propaganda é muito valioso – e leva-me a concluir que foi certamente a primeira vez em que a propaganda foi utilizada, aliás de parte a parte, como uma peça essencial do esforço de guerra. Aí o Estado Novo foi exímio, trabalhando em todas as frentes para fazer valer as teses franquistas – a imprensa portuguesa alimentava-se diariamente da guerra, (o Diário de Notícias, o Século, A Voz, Novidades, Diário da Manhã, (excepção era A República) chegaram a fazer grandes tiragens que eram levadas e distribuídas em Espanha na zona tomada pelos rebeldes, e avidamente lidas por populações sedentas de notícias) – a Rádio, com destaque para o Rádio Clube Português, o cinema, os cartazes, tudo foi bem pensado e bem utilizado. Salazar sabia, conforme o disse: «A opinião pública é indispensável à vida de qualquer regime.» Assim, quer o Secretariado de Propaganda Nacional, quer os Serviços de Censura actuaram com a maior eficácia: «até o tamanho dos títulos eram determinados pelos serviços de censura» (Cláudio Sanchez Albornoz). Foram muitas as queixas apresentadas pelo Governo da República, muitas também em seu nome pelo próprio embaixador espanhol, directamente em Lisboa, contra a campanha de propaganda desenvolvida em Portugal, mas de nada serviram, obviamente. Segundo o estudo de Pena Rodriguez a eficácia da propaganda portuguesa a favor de Franco também teve influência a nível internacional.

Relações internacionais – Segundo Fernando Rosas, Salazar foi o verdadeiro Ministro dos Negócios Estrangeiros do Governo de Burgos – por exemplo, ao empatar as decisões no Comité de Não Intervenção em Espanha, formado pelo governo britânico em Londres. Contudo, não podemos ignorar que os britânicos também actuavam de forma dupla pois não lhes agradava a hipótese de um eventual governo comunista em Espanha e também não apreciavam a Frente Popular. Além disso, segundo Freire Antunes, a Espanha absorvia 21% do total das exportações da indústria militar de Inglaterra. Acabaram por apoiar Franco por omissão – ao não ajudarem o Governo de Madrid contribuíram para a sua derrocada. A actuação diplomática de Portugal junto à Sociedade das Nações também foi importante. Ou seja o empenhamento de Salazar na promoção da causa franquista a nível internacional foi absoluto e total e mobilizou toda a diplomacia portuguesa.

Salazar só reconheceu o governo de Franco relativamente tarde (14 de Maio 1938), uma manobra destinada a agradar aos ingleses e que não retirava nem diminuía a continuação de todo o apoio logístico.

 
Biografia de Ana Vicente

Anúncios