Nasceu no Porto, em 5 de Setembro de 1926, no ano em que um golpe de Estado militar derrubou a I Republica portuguesa, filha de um comerciante, proprietário de uma loja de lanifícios na Rua de Santa Catarina, na baixa portuense, e de uma professora primária que faleceu muito cedo, quando Ângela era uma criança.

Em casa, segundo diria Ângela, coexistiam duas correntes que a marcaram na infância e primeira adolescência. A da madrasta, católica praticante, embora também se dedicasse ao espiritismo, que foi uma segunda mãe para Ângela e a influenciou, nomeadamente, no sentido de fazer a primeira comunhão. Quanto ao pai, era um republicano agnóstico e anticlerical, que lia muito literatura francesa e acreditava na educação inglesa, não deixando de ser severo e disciplinador. 

Foi através dele que, por volta dos treze anos, Ângela acedeu aos primeiros livros, até ali guardados numa estante fechada e foi graças a ele que ela nunca frequentou a Mocidade Portuguesa Feminina, nem foi forçada a frequentar as aulas de moral. No liceu, Ângela fez as suas escolhas, juntamente com quatro colegas e as primas. Rebeldes, partilhavam as mesmas ideias, trocavam livros, deixaram de ir à missa e tentavam sair à noite, até à Foz, algo de impensável para jovens de 18 anos do Porto, nos anos quarenta, mesmo para famílias da oposição. 

Durante a II Guerra Mundial, como o pai, Ângela foi aliadófila e frequentava o Instituto Britânico, uma lufada de ar fresco no ambiente conservador portuense. Começou a assistir aos primeiros comícios antifascistas, embora tivesse de pedir autorização ao pai que receava a repressão. Por volta dos 19 anos, em 1946, ingressou no Movimento de Unidade Nacional Anti-Fascista (MUNAF), órgão de frente oposicionista influenciada pelo Partido Comunista Português (PCP), e mais tarde no Movimento de Unidade Democrática Juvenil (MUD J).

Da revolta social e moral face ao Estado Novo, Ângela passou à oposição política organizada, ingressando no PCP, por volta dos 20 anos. A sua primeira controleira na célula comunista era uma mulher que Ângela tinha conhecido no Ginásio Feminino Atlético Clube e que muito admirou. Tratava-se de Maria Natália Maia, uma mãe que trabalhava para sustentar a família e com a qual Ângela resolveu fazer umas cadeiras do 7° ano. Ao mesmo tempo que trabalhava como funcionária da biblioteca da Faculdade de Medicina do Porto, Ângela foi convidada para uma actividade semi-clandestina, tendo por tarefa o apoio ao Secretariado do PCP.

Pouco tempo depois deixou de trabalhar, ingressando na total clandestinidade, juntamente com o companheiro, Rolando Verdial, do qual teve um filho. Os três instalaram-se numa casa clandestina na Lagoa Azul, onde Ângela se tornou uma «amiga» das casas clandestinas do PCP, assegurando que a «instalação» continuasse a ser um local seguro para o seu companheiro, quando ele regressava do trabalho clandestino. Posteriormente, com o companheiro e o filho, Ângela instalou-se noutra casa clandestina no Algarve (Albufeira), com outro funcionário do PCP, Carlos Costa, com o qual casaria mais tarde, em 1959, quando ambos estavam presos.

Em 24 de Maio de 1953, Rolando Verdial foi preso em Paderne (Albufeira), mas curiosamente acabou por ser libertado por parecer estar mentalmente desequilibrado e entregue à família, até voltar a ser detido, em 25 de Novembro, nas minas de Jales, onde estava na semi-clandestinidade. Entretanto em 12 de Junho desse mesmo ano, por suspeita de contrabando, a GNR entrara de surpresa na casa clandestina de Ângela Vidal, onde ela se encontrava sozinha com o filho, então com cerca de dois anos, e ali encontrou uma mala cheia de papéis ilegais. Essa detenção não se deveu assim a um trabalho prévio de investigação da PIDE, mas, sim, à desconfiança da GNR. Mais tarde, ao voltar de um encontro partidário, Carlos Costa foi, por seu turno, preso e os dois foram entregues pela GNR à PIDE.

Os dois foram transferidos para a prisão de Caxias, onde Ângela ficou numa cela, durante onze dias, com o filho, para o qual teve de exigir alimentos e cuidados de saúde. Nesse período, recusou-se a entregar a criança a um intermediário e exigiu que só o faria a um parente directo, o que demorou onze dias a resolver. Depois, continuou o isolamento, durante cerca de dois meses, sem recreio, visitas, livros e sem o filho, entregue a um familiar. Apenas tinha os ratos a quem dava de comer pão e a ela própria, enquanto aguardava as idas para interrogatórios, na sede da PIDE Lisboa, já condenada a dois meses de prisão, por não se querer sequer identificar.

Um dos que a interrogou foi o inspector Fernando Gouveia, que, face a ela declarar nada ter a declarar, assim procedendo «por sua honra», retorquiu brutalmente que ela nada sabia de honra, pois estava a viver com outro funcionário, e não com o marido, acrescentando: «causais-me tanto nojo (funcionários) que apetecia-me esmagar-vos como répteis». Durante um ano, como não tinha família em Lisboa e, por lei, só os parentes directos podiam visitá-la, só recebeu a visita do avô paterno do filho, Mem Verdial, e esporadicamente, o pai, quando este se podia deslocar do Porto. Por exemplo o director de Caxias, João da Silva, informou que não autorizava que Ângela fosse visitada pela sua prima, Natália David, pois que não era afecta à situação e trabalhava no escritório do advogado de presos políticos, Heliodoro Caldeira.

Segundo o processo da PIDE, «pela atitude» que Ângela tomava nos interrogatórios, se verificava que estava «cumprindo a “ordem” que o “PCP” impõe a todos os seus “militantes” de nada revelarem à Polícia, quando presos». Esclarecida «que a manter tal atitude prejudica(va) grandemente as investigações em curso e o consequente apuramento da verdade» e, «mais uma vez instada» para que revelasse «toda a sua acção como “funcionária” daquela organização secreta e subversiva», respondeu que não tinha declarações a prestar àquela polícia e recusava a assinar os autos. A PIDE concluiu que a recusa dela em descrever e confessar as suas actividades, só confirmava tratar-se de uma «funcionária» da «associação secreta» denominada PCP.

Além de ser arguida no processo 89/53, por ser funcionária do PCP, Ângela foi ainda acusada de fazer parte, com outros doze militantes comunistas presos, da organização prisional do PCP, em Caxias, após lhes serem apreendidos documentos. Apenas foi julgada e condenada, em 23 de Julho de 1957, a quatro anos de pena maior e medidas de segurança, pena da qual interpôs recurso, mas que foi confirmada pelo Supremo Tribunal. A seguir a Fernanda Paiva Tomás, foi a segunda mulher mais tempo presa por motivos políticos, dado que só foi libertada condicionalmente, nove anos depois de ter sido detida, ou seja, em 31 de Março de 1962. Esteve dois anos à espera de julgamento, quatro depois do julgamento e mais três anos de medidas de segurança.

Em Caxias, Ângela Vidal Campos foi castigada, doze vezes, entre 1953 e 1962, pelas mais variadas razões: «por cantar, porque se respondeu “assim” ou “assado”, porque se escreveu uma carta a protestar e por aí fora». Em Abril de 1956, o seu pai protestou por a filha, presa havia três anos sem julgamento, ter sido castigada com a privação de visitas, de correspondência e de receber lanche durante sessenta dias. A PIDE respondeu a essas instâncias, argumentando que ela era mal comportada, tendo já sido punida sete vezes e que estava então a cumprir dois meses de prisão em cela disciplinar, por ter arrombado a porta da sala e provocado alarido, juntamente com duas detidas.

Em 1959, com febres altas, uma colite, perturbações das vias biliares, do coração e do fígado, bem como com uma descalcificação e uma depressão, a própria Ângela queixou-se ao tribunal plenário, de que lhe eram negados dieta e tratamento, dando conta que, segundo a Junta médica que a havia observado, ela deveria ser libertada ou ser hospitalizada. Nada aconteceu e, em Novembro de 1960, foi a vez de sete advogados do Porto, Armando Bacelar, Mário e Carlos Cal Brandão, António Macedo, Taveira da Costa, Araújo Correia e Sousa e Castro, requereram ao Tribunal Plenário a documentação necessária para apresentar à ONU o caso de Maria Ângela Vidal, gravemente doente, presa havia mais de sete anos, embora tivesse sido condenada a três anos e meio de prisão. A resposta do Plenário foi a prisão desses sete juristas, pela PIDE.

Depois, devido à fuga de Carlos Costa, com o qual se tinha entretanto casado, a sua situação, como a de qualquer companheira ou mulher de fugitivo, piorou, pois a PIDE passou a alegar que, se fosse solta, juntar-se-lhe-ia, ingressando novamente na vida clandestina, ao serviço do PCP. Perante novo pedido de liberdade condicional, em 12 de Fevereiro de 1962, embora afirmasse que Carlos Costa tinha entretanto sido capturado e que a sua saúde precária não lhe possibilitaria o regresso à vida clandestina, a PIDE continuou a considerá-la uma reclusa indomável. Além deste, outro argumento, para que não fosse libertada, prendia-se com o facto de a sua família estar sempre a solicitar a sua libertação condicional, revelador, segundo essa polícia, de que estava a cumprir «ordens do PCP». Foi apenas libertada condicionalmente (ficando durante três anos com residência fixa), em Março de 1962, nove anos após a sua detenção.

Em 1964, Ângela Vidal e Campos rompeu com o PCP, devido a uma acumulação de factos que já vinham desde o XX Congresso do PCUS (1956) e da insurreição de Budapeste, em Outubro desse ano. Segundo disse Ângela, numa entrevista, teve de sair desse partido, revoltada com os métodos e a prática política do PCP, bem como com o afastamento de militantes, acusados dos piores crimes só porque discordavam desse partido. «Também e fundamentalmente» – disse – porque o PCP «permaneceu estalinista». Ela própria sofreria com esse rompimento, vindo a ser ostracizada por muitos dos seus antigos camaradas.

 
Um toque pessoal

Conheci Ângela Vidal e Campos pouco antes do 25 de Abril de 1974 e compartilhei com ela, e outros, jantaradas e mesmo idas ao Fado vadio.

Após o 25 de Abril, creio que pertenceu à comissão de trabalhadores da Clínica de Santa Cruz, onde trabalhava e era muito activa social e politicamente.

Admirei-a e gostei muito da sua personalidade firme, fraterna e solidária, e sobretudo do seu sentido de liberdade. Tinha opiniões próprias sem necessidade de cartilhas, em tempos de estalinismo, maoismo e outros dogmas. Depois, não a vi durante anos, até que a reencontrei várias vezes, a passear o seu cão, na Rua da Escola Politécnica, onde vivia, com dificuldades económicas e problemas graves de saúde, muitos deles devido à longa estadia na prisão. Em conversa sobre a indemnização legal que deveria, segundo eu, solicitar ao Estado português pelo tempo que esteve presa e clandestina, disse-me que nada tinha feito nesse sentido, mas que se o fizesse apenas pediria relativamente aos anos de prisão, dado que a ida para a clandestinidade tinha sido uma opção sua, voluntária e livre.

Assim era Ângela Vidal e Campos, cuja voz ouvi pela última vez ao telefone, quando me contactou para dizer que estava totalmente de acordo comigo relativamente a um artigo que eu tinha escrito dias antes a condenar a invasão do Iraque, por Georges W. Bush. Pouco tempo depois, em 14 de Março de 2004, tive a tristeza de saber que ela tinha falecido. No funeral e cremação no Cemitério do Alto de S. João, estavam alguns amigos e ninguém do PCP.

Dediquei-lhe, assim como a Fernanda Paiva Tomás, a minha tese de doutoramento, sobre a PIDE/DGS, que ela já não pôde ler, com muita pena minha, pois era uma das pessoas cuja opinião eu mais desejava ter tido.

 
Fontes e Bibliografia:

Arquivo da PIDE/DGS pr. 89/53, Rolando dos Santos Verdial, Carlos Campos Rodrigues da Costa e Maria Ângela Vidal e Campos; pr. pr. 232 GT, Ângela Vidal e Campos.

Conversas de Inverno, coord. António Melo, Isabel do Carmo, Lisboa, Biblioteca-Museu República e Resistência, Público, Ler Devagar, Dezembro 2001.

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