Mas de que amigo estou a falar, amigo de quem e em que circunstância? Refiro um evento trágico – a Guerra Civil que se desenrolou em Espanha entre 1936-39 e o apoio que o regime salazarista deu aos franquistas. Baseio esta série de textos numa comunicação que fiz num simpósio organizado pela Universidade Católica em 2006, cujas actas estão publicadas. (Jorge Fazenda Lourenço e Inês Espada Vieira (org), Guerra Civil de Espanha: cruzando fronteiras 70 anos depois, Lisboa, UC, 2007).

Primeira nota: Recordo as palavras de Antoine de Saint-Exupéry: «uma guerra civil não é uma guerra mas uma doença pois o inimigo está no interior de nós mesmos».

Não sendo historiadora por profissão, mas antes investigadora, nem por isso deixo de pensar que escrever História não é compilar dados e «factos», sendo muito mais a sua apresentação, consubstanciando uma perspectiva, neste caso a minha, com toda a sua subjectividade.

Servi-me de múltiplas fontes (veja-se a bibliografia) para estes textos que pouco terão, portanto, de original – e recordo o comentário assassino de Marcelo Caetano dirigindo-se a ao candidato em provas de doutoramento: «o pior é que nesta tese o que é bom não é original e o que é original não é bom.»

Entrando no tema da minha intervenção – A minha hipótese é a seguinte: o apoio do Amigo Lusitano, ou seja de Salazar e das estruturas do Estado Novo, à preparação e ao desencadear da rebelião militar que se manifestou em Espanha a partir de 18 de Julho de 1936 contra um governo democraticamente eleito (mas que tinha grandes dificuldades em garantir que as instituições funcionassem democraticamente) foi imprescindível para a vitória dessa rebelião, que, por sua vez, introduziu um Governo ditatorial, liderado por Francisco Franco, de ideologia de extrema direita, que governou a Espanha durante 40 anos.

Contudo, acrescento de imediato que sem desfazer a importância desse apoio, proponho ainda que o maior beneficiário do apoio foi o próprio Salazar.

Ou seja: Salazar, com a sua imensa habilidade política, teve artes de se servir da Guerra Civil a seu favor – não só para garantir no país vizinho, um regime autoritário, ideologicamente próximo do seu, mas porque através do uso intenso de propaganda e de estratégias psicológicas, consolidou a sua missão salvítica junto à população portuguesa, consolidou o seu próprio regime. Aliás houve pessoas que foram presas em Portugal por serem a favor dos Republicanos. Segundo Manuel Loff, a Guerra Civil e os seus antecedentes coincidiram, não por acaso, com o pior momento da repressão portuguesa (Tarrafal etc.) À custa do fantasma do perigo espanhol, Salazar desenvolveu o nacionalismo português. Aliás Salazar admitiu-o com toda a frontalidade:

«Em todos os domínios em que era livre a nossa acção ajudámos no que pudemos o nacionalismo espanhol e a civilização cristã, directamente ameaçados por doutrinas e regimes que só os que andam à cata de desilusões esperam converter ou tornar inofensivos». Termina: «Vencemos, eis tudo!»

António Ferro não podia ter sido mais claro: «Creio não me enganar se afirmo que a revolução espanhola e a Guerra Civil muito contribuíram para a união de todos os portugueses em volta do seu Chefe Salazar, e para a consolidação do regime por ele criado.»

Não vou abordar o desenrolar da Guerra em si, das suas tremendas crueldades – do medo e do ódio que a impregnaram. Gostaria antes de citar o meu antigo professor de Teoria da Literatura na Universidade Complutense de Madrid, Fernando Lazaro Carreter, que também foi presidente da Real Academia de Espanha. Um dia disse numa aula: «A Espanha teve uma guerra onde era possível ser-se executado por ter ido à missa ou por não ter ido à missa.» Dito isto e para que fique bem claro: O meu coração e a minha razão estão com o governo legítimo de Espanha em 1936, embora obviamente não seja conivente com as injustiças e violências que também se praticaram do lado republicano.

Na minha perspectiva para actos criminosos não devemos procurar justificações mas antes explicações e sobretudo interrogações. Antony Beevor, a quem voltarei mais tarde, também diz que, no momento presente, acha que face a esta guerra há cada vez menos respostas e cada vez mais interrogações. Recorde-se a observação feita por Paul Preston na conferência de abertura do Simpósio: «A culpa é dos Republicanos – se não tivessem tentado promover a liberdade das mulheres, se não tivessem desencadeado campanhas de alfabetização, se não tivessem procurado fazer uma reforma agrária, não teria havido guerra civil.»

Aqui anoto que numa atitude abjecta e absurda, e que nada deve ao cristianismo que pretendiam defender, os vencedores executaram, depois de 1 de Abril de 1939 (data em que Salazar felicita Franco pela vitória e em que os EUA reconhecem o governo franquista) cerca de 200.000 pessoas suspeitas de republicanismo. A título de exemplo, uma historiadora espanhola, Ángeles Egido, investiga as histórias de muitas raparigas adolescentes executadas (algumas foram executadas depois de darem à luz crianças resultantes de violações) ou condenadas a 10 e a 12 anos de cadeia, (algumas destas ela ainda conseguiu entrevistar) cujo crime tinha sido pertencer ao Partido Socialista.

Ela está a conseguir fazer esta investigação porque abriram os arquivos do Ministério da Guerra, encarregado da repressão. O último fuzilado da Guerra Civil foi-o 24 anos após o seu término – trata-se de Julián Grimau, dirigente comunista, julgado sumariamente a 18 de Abril de 1963 e morto em 20 de Abril, apesar do furor internacional provocado por tal acto. Voltando a Beevor, ele considera que os insurrectos foram responsáveis por muito mais atrocidades do que os republicanos – talvez entre cinco a dez vezes mais mortos se devem aos vencedores do que aos vencidos.

 
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Biografia de Ana Vicente

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