A pedido de Edmundo Pedro, informo que o texto que se segue fará parte de um capítulo do segundo volume das suas Memórias, neste momento em fase de redacção final. Joana Lopes

 
Um texto de Edmundo Pedro (*)

Desembarquei na então «Capital do Império» em Agosto de 1945 – no mês em que se calaram, em definitivo, com o lançamento da bomba atómica sobre Hiroshima e Nagazaki, os últimos ecos da hecatombe mundial em que os países do eixo nazi-fascista (Berlim-Roma-Tóquio) tinham mergulhado, durante seis anos, a humanidade. Acompanhara, ao longo do derradeiro ano da guerra, com uma apaixonada expectativa, o desenrolar dos acontecimentos internacionais que anunciavam claramente a derrota daquela sinistra coligação. Sentia aproximar-se a hora da liberdade.

A relação que tinha com o PCP alterara-se radicalmente. Terminara o «castigo» que o Partido me aplicara no Tarrafal (*). Essa sanção chegara ao seu termo pouco antes de partir para Lisboa. Reassumira, automaticamente, o estatuto de membro do Partido com todos os deveres e direitos que lhe estavam associados. Mas ficara de tal modo ofendido com o modo como fora tratado pelos meus camaradas, depois de tantos anos de dedicação e de incontáveis sacrifícios ao serviço do projecto social e político representado pelo PCP, que não solicitara a reintegração na organização partidária.

A atitude que pensava assumir não era fácil de concretizar. Abandonar o movimento comunista, com o qual, a despeito do modo como fora tratado, continuava, no essencial, identificado, revestia-se para mim de uma tal transcendência pessoal e política que exigia uma profunda ponderação.

Tinha decidido, desde a puberdade, dedicar a minha vida à causa dos oprimidos. Associara a sua libertação e emancipação ao poderoso movimento comunista que, pela primeira vez na História da Humanidade, se propunha estabelecer uma sociedade baseada em novas relações sociais, decorrentes da radical alteração das relações de produção previstas no projecto comunista. Essas relações implicariam, de acordo com o projecto que tinha interiorizado, uma liberdade real e uma justiça que consagraria, finalmente, um tratamento igual para todos os seres humanos. A imaginária sociedade prevista no projecto comunista propunha-se acabar, em definitivo, com a «exploração do homem pelo homem». Dispusera-me, sem reservas, desde a adolescência, a lutar pela concretização desse ideal profundamente altruísta.

(A exploração do homem pelo omnipotente patrão-Estado, levada a cabo pelos comunistas em toda a parte onde chegaram ao poder, não podia ser por mim ainda equacionada nesses recuados tempos do fulgor militante. Aquele era o tempo das verdades inquestionáveis e absolutas. O significado dessa exploração só viria a ser por mim claramente compreendido muito mais tarde.)

Na altura em que regressei da deportação continuava, pois, totalmente identificado com o projecto libertador anunciado – com grande coerência teórica e o apoio de uma experiência prática que parecia confirmá-la em absoluto – pelo movimento comunista internacional. Pensaria, durante muito tempo ainda – ao longo de cerca de dez anos – que a União Soviética continuaria a sua marcha triunfal em direcção a um futuro radioso.

A injustiça com que fora tratado pelo Partido não afectara a minha confiança no projecto de radical transformação do mundo defendido pelo movimento comunista. Ajudar à emergência de uma sociedade sem descriminação de classes continuava a ser, para mim, o mais nobre objectivo do mundo. A injustiça fazia parte dos inevitáveis erros humanos que acompanham sempre as grandes experiências sociais. Aquela que sofrera não teria qualquer significado em face do evidente êxito do projecto em curso… Além disso, depois do que sofrera e vira sofrer, o meu desejo de combater, por todos os meios, o regime que fora responsável por tais crimes tornara-se, se possível, no termo do meu longo cativeiro, mais intenso ainda.

Por três vezes, durante a minha permanência no «Campo da Morte Lenta», fora autorizado a acompanhar ao cemitério os cadáveres dos meus jovens camaradas ali falecidos. Jurara, à beira das suas campas, dedicar o resto da minha vida à luta contra os responsáveis pelas suas mortes absurdas e prematuras. O Partido tinha representado para mim, até ali, a garantia de que os autores materiais daqueles crimes contra a Humanidade não ficariam impunes. O sentimento que animava o meu espírito não era, de modo nenhum, o espírito de vingança. Repudiei sempre a mera vendetta. O que me impunha o dever de continuar a luta em que tão cedo me empenhara era um profundo desejo de Justiça. Era levar a julgamento os responsáveis pelos crimes praticados no Campo de Concentração do Tarrafal contra presos indefesos. Era o meu desprezo por um regime que fazia de tais práticas a sua imoral base de sustentação. Era, enfim, lutar para fazer chegar a Justiça a todos os que dela estavam carecidos.

Mas se é certo que continuava fiel ao solene compromisso que assumira perante os corpos dos meus companheiros assassinados no Tarrafal, a verdade é que perdera a confiança cega que até ali depositara no instrumento político que constituíra, desde a minha puberdade, o garante de que esse objectivo seria cumprido.

Na altura em que fui libertado o Partido perdera, aos meus olhos, a sua «virgindade» moral. Deixara de ser para mim, depois da brutal e estúpida punição que me fora aplicada, e das várias injustiças a que assistira no seu seio, o depositário não só da infalível sabedoria revolucionária, inspirada pelo marxismo-leninismo – que garantiria o desaparecimento da degradante exploração de classe -, mas também o símbolo de uma prática interna justa, inspirada no respeito pela dignidade dos militantes. Não era mais o instrumento político em que acreditara acrítica e cegamente. Os seus insensíveis dirigentes tinham-me ferido no mais íntimo de mim mesmo. O modo brutal como fora tratado depois daquele incidente acabaria por vencer as minhas hesitações quanto à maneira como iria cumprir, no futuro, os compromissos morais que tão solenemente assumira perante as campas dos meus camaradas no cemitério onde foram enterrados.

Tinha a certeza de que honraria esse compromisso. Continuaria a lutar contra o criminoso regime salazarista. Mas tal compromisso não implicava a obrigação de me lançar, logo que atingisse a liberdade, numa luta frontal contra o regime salazarista. Recomeçaria o combate, com todos os riscos implícitos – mesmo o da própria vida! -, logo que considerasse que chegara o momento crucial para dar o golpe de misericórdia ao regime salazarista.

Ao atingir os vinte seis anos, tinha cumprido onze anos de cadeia! Nove desses onze anos tinham sido passados no inferno do Tarrafal!

Não estava, de modo nenhum, arrependido dos sacrifícios a que voluntariamente me expusera. Mas considerava que a acção que desenvolvera no intervalo das duas prisões – e que motivara, aos dezassete anos, a deportação para Cabo Verde – não tivera, em termos de enfraquecimento do regime, um significado comparável à enormidade do sacrifício que a minha actividade implicara.

No futuro, o meu sacrifício, associado ao meu renovado combate à ditadura, tinha de resultar de uma acção verdadeiramente válida – tinha que decorrer de algo que estivesse ao nível do meu eventual sacrifício.

Mas a actividade política em que viesse a participar, necessariamente virada para a luta armada, não seria conduzida no âmbito do Partido. Não voltaria a submeter-me à sua disciplina. O trauma que abalara a minha sensibilidade fora profundo demais para permitir a minha continuação num partido que desprezara, com tal ligeireza, o total sacrifício da minha juventude. Seria conduzida com o estatuto de um anti-fascista independente.

Entre os pensamentos que dominavam o meu espírito, ao desembarcar no cais de Alcântara, para além daqueles que acabo de referir, avultava a preocupação de ver como reagiria a minha família ao ver as profundas alterações do meu aspecto físico. Com efeito, partira um jovem adolescente – e regressara um homem com cabelos brancos… O meu aspecto, no decurso dos últimos nove anos, mudara substancialmente… A família fora informada do meu regresso. Era natural que a maioria dos meus familiares estivesse presente no momento do desembarque.

Depois das naturais efusões, a que os membros da PIDE não se opuseram, fui transportado para a sede da polícia política. Actualizaram a minha fotografia. Aquela que constava dos seus ficheiros deixara de exprimir o meu aspecto físico. O inevitável acompanhamento policial do curso da minha vida futura implicava o registo do meu aspecto como adulto… A que constava dos seus arquivos, tirara aos dezasseis anos, deixara de permitir a minha identificação…

Em seguida, enviaram-me para o Aljube.

 
(*) Biografia de Edmundo Pedro.

(1) Nota da Redacção – O castigo a que Edmundo Pedro se refere foi a suspensão, durante dois anos, das actividades políticas e culturais do Partido, na sequência de uma tentativa de fuga falhada do campo do Tarrafal, por parte de um grupo de presos. Ver Edmundo Pedro, Memórias – Um Combate pela Liberdade, Âncora Editora, Lisboa, 2007, pp. 513 e 521-522.

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