Nos 40 anos do fim da Primavera de Praga

Allegro vivace. Conta Mark Kurlansky que em Julho e Agosto de 1968 muitos jovens europeus, tanto do leste como do ocidente, e alguns americanos também, fizeram as malas para irem até Praga ver em que consistia esse novo tipo de liberdade a que os checos chamavam «socialismo de rosto humano». As muralhas enegrecidas da cidade cobriam-se então de graffiti em diversas línguas. Os exíguos sete mil quartos de hotel disponíveis estavam permanentemente ocupados. Era difícil encontrar uma mesa livre nos restaurantes e quase impossível vislumbrar um táxi que não estivesse ocupado. O New York Times escrevia no princípio de Agosto: «Para aqueles que têm menos de trinta anos, Praga parece ser o sítio onde vale a pena estar neste verão». Na rua, um ambiente inusitado de ruído, alegria, companheirismo e descoberta. Nos jornais, na rádio, nas praças, nos cafés e nas sedes do próprio PC, os debates pareciam infindáveis. Vaclav Havel contará mais tarde que o actor Jan Triska, seu amigo, dizia então, no meio do entusiasmo geral, que aquele era um verão «lindo demais para acabar bem».

Adagio con variazoni. Esse incerto «rosto humano» pressupunha, naturalmente, um outro que para muitos o não era. A conhecida imagem do fotógrafo Josef Koudelka foi tirada exactamente às 6 da manhã do dia 21 de Agosto de 1968. Poucos minutos depois, os tanques do Pacto de Varsóvia entrariam a alta velocidade nas ruas de Praga, acabando com a tentativa dos comunistas renovadores checos, conduzidos por Alexander Dubcek, para porem termo ao regime de partido único e para abrirem a sociedade ao pluralismo cultural e político. Às ruas desertas da sua cidade de adopção, Koudelka sobrepôs o braço esquerdo e o seu próprio relógio, conferindo à imagem um sentido de simultâneo movimento e suspensão, e também de solidariedade para com os milhares de praguenses que naquele momento pareciam dormir ainda e em breve iriam acordar para o pesadelo.

Intermezzo I. «Ficámos meio atordoados; todos nós estávamos meio atordoados! Cada um falava para seu lado. Cada um se sentava, e levantava imediatamente. Seria possível? A União Soviética, a Pátria do Socialismo, como todos os que a amamos tínhamos o costume de chamar-lhe, (…) invadia um país amigo…! (…) Ficámos todos atordoados; continuámos todos atordoados com o que estávamos ouvindo (…). Seguimos imediatamente para o centro, em busca de informações. Era no centro que a batalha rugia: centenas de tanques rodavam barulhentamente, pesadamente, mas com uma agilidade incrível, pelas ruas calcetadas de Praga. Não se viam soldados, não se viam homens – apenas metralhadoras duplas e canhões compridíssimos. Naquela manhã de 21 em que atravessámos a cidade de automóvel não vimos uma farda soviética: tanques, tanques e somente tanques; carros blindados e metralhadoras; canhões de um verde cinzento – tudo de um verde cinzento. A cidade estava sem transportes colectivos; homens e mulheres caminhando apressadamente, viravam-se para um lado e para o outro; e quando passavam os comboios de tanques, paravam de olhos esgazeados. Voltei para casa a pé: 14 quilómetros. Mas não vinha sozinho. Muita gente vinha para os mesmos bairros; caminhando ao lado uns dos outros, com poucas palavras ou sem palavras. Tudo estava atordoado. Tudo continuava atordoado. Ninguém compreendia coisa alguma.» (Flausino Torres, Diário da Batalha de Praga, Afrontamento, 2008, pp. 19-20)

Intermezzo II. «Dois anos depois de ter deixado a Boémia, [Sabina] encontrava-se por acaso em Paris no dia do aniversário da invasão russa. Havia uma manifestação de protesto a que não pôde deixar de ir. Jovens franceses de punho erguido berravam palavras de ordem contra o imperialismo soviético. Eram palavras de ordem que lhe agradavam, mas constatou com surpresa que era incapaz de as gritar em uníssono com os outros. Só conseguiu aguentar a manifestação durante alguns minutos. Contou esta experiência a uns amigos franceses. Espantados, estes perguntaram-lhe: ‘Mas então tu não queres lutar contra a ocupação do teu país?’ O que tinha vontade de lhes dizer era que o comunismo, o fascismo, todas as ocupações e todas as invasões ocultam o mesmo mal fundamental e universal; para ela, a imagem desse mal eram as manifestações com gente a desfilar de braço erguido e a gritar em uníssono as mesmas sílabas. Mas sabia que não poderia explicar isso aos seus amigos.» (Milan Kundera, A Insustentável Leveza do Ser. Dom Quixote, 1985, trad. Joana Varela, pp. 119-120)

Andante con moto. Finale. A vida entretanto continuara. Dubcek fora rapidamente neutralizado e a «ordem socialista» anterior à Primavera voltara, mais intransigente e repressiva ainda após subida ao poder, por imposição dos soviéticos, do sector ortodoxo minoritário dirigido por Gustáv Husák. Em Outubro desse ano – dando um sinal que descontentaria muitos comunistas portugueses, alguns dos quais se encontravam aliás em Praga, e assumindo uma posição que a generalidade dos «partidos-irmãos» hesitava ainda em tomar – o Avante! transcrevia uma declaração da direcção do PCP na qual se podia ler que «os marxistas-leninistas não podem contestar em princípio a legitimidade revolucionária de uma intervenção de países socialistas noutros países socialistas a fim de defenderem as conquistas do socialismo, impedirem a contra-revolução, assegurando ao mesmo tempo a defesa do campo socialista no seu conjunto». Impedida uma perestroika avant la lettre, viu-se então gorada a possibilidade de construir uma experiência de poder inteiramente nova dentro do quadro do chamado «socialismo real». E em 1989, durante os dias e as noites da Revolução de Veludo, aqueles que se manifestavam nas ruas já não tinham vontade alguma de verem instalado um «socialismo de rosto humano». Preferiam antes qualquer coisa – literalmente qualquer coisa – que simplesmente lhes não fizesse lembrar a sociedade bloqueada dentro da qual haviam sido forçados a viver todos aqueles anos.

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