Fotografia de António Pais
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Para concluir esta breve digressão pelas minhas memórias do MES (Movimento de Esquerda Socialista), pessoais e subjectivas, publico dois posts que abordam alguns aspectos cruciais da aventura da criação e extinção formal do MES. É curioso que o MES deve ter sido o único partido português, criado na III República, que se pode orgulhar de ter tido um princípio e um fim. Com ironia poderei dizer que o problema esteve no intervalo entre o princípio e o fim. Na verdade os actos de criação e extinção do MES, cada qual à sua maneira, separados por quase sete (7) anos, foram marcados pela generosa autenticidade de activistas políticos que nunca se envergonharam das suas opções políticas. Uma nota final para assinalar que o jantar de extinção do MES ocorreu, no antigo Mercado do Povo, em 7 de Novembro de 1881. [Os textos são transcritos tal qual foram publicados aqui e aqui no início de Abril de 2004.]

  
Do MES à «Nova Esquerda»

Nas reuniões e discussões prévias ao I Congresso lembro-me de ter, em diversos momentos, divagado a sós, angustiado pela percepção da «quadratura do círculo» que constituía, naquelas circunstâncias, conciliar a democracia representativa com a democracia directa, ou «poder popular».

Uma síntese impossível. Era necessário ganhar tempo, mas a gestão do tempo não era o nosso forte, nem o «espírito da época» favorecia as esperas sábias e pacientes.

As revoluções criam uma especial escala do tempo em que nos sentimos atraídos pela acção e a acção exige mais acção. A única saída possível para tornar o MES um Partido útil, na construção da democracia representativa e participativa, tinha-se esfumado com o desenlace daquele Congresso.

Os que romperam prepararam pacientemente a sua integração no PS. Os que ficaram, por convicção ideológica ou devoção a amizades autênticas, forjadas nas lutas do passado, foram absorvidos pela voragem dos acontecimentos e foram saindo, em levas sucessivas, até à extinção do movimento no célebre jantar do Mercado do Povo.

Após a extinção do MES alguns de nós dinamizaram, no início dos anos 80, a criação da «Nova Esquerda» em cuja declaração de princípios se preconizava o

«…desenvolvimento de um novo pensamento de esquerda que, assentando fundamentalmente na ideia do socialismo democrático, clarifique as suas fronteiras, encare os valores da liberdade individual, da solidariedade social e da iniciativa modernizadora (tanto ao nível económico como cultural), como elementos constitutivos essenciais».

Defendia-se, num notável documento de Julho de 1984, que mantém plena actualidade, entre outros objectivos, o debate «aberto e inconformista que envolva todos os sectores interessados na modernização do país», o «reforço da democracia» e a «adesão à CEE».

Esse documento preparado para a criação de uma abortada «Cooperativa Nova Esquerda» foi assumido por Afonso de Barros, Agostinho Roseta, Eduardo Ferro Rodrigues, Eduardo Graça, Eurico de Figueiredo, Jofre Justino, José Leitão, Júlio Dias, Margarida Marques, Sara Amâncio, Tereza de Sousa e Vitor Wengorovius.

Em 21de Abril de 1986 a Comissão Coordenadora da «Nova Esquerda», constituída por Afonso de Barros, Agostinho Roseta, Eduardo Ferro Rodrigues, Eduardo Graça e Vitor Wengorovius anuncia que, após seis anos, a «atitude de solidariedade crítica externa ao PS se esgotou e deve ser superada por uma intervenção política concreta que, para a maioria dos membros desta comissão, pode e deve ser realizada, desde já, dentro do PS».

Em consequência, no decurso do ano de 1986, todos os membros da Comissão da «Nova Esquerda», com excepção de Vitor Wengorovius, entre outros ex-activistas do MES, aderiram colectivamente ao PS.

 
As duas mortes do MES

A sessão final do I Congresso, calorosa e colorida, o símbolo do MES em pano de fundo, desenhado com os pés descalços dos militantes calcando a tinta vermelha, escondia a ruptura que todos assumimos com mais ou menos amargura.

Pela minha parte não falei nem subi ao palco. O argumento da minha recente saída do serviço militar e a invocada necessidade de salvaguardar, por razões de segurança, alguns dirigentes da exposição pública, ajudaram a compor a argumentação que me «salvou» desse sacrifício que a minha timidez natural também favorecia.

Tinha sido o nome mais votado para a Direcção o que pude verificar, pessoalmente, no momento do escrutínio. Mas a lógica colectivista já se tinha imposto, na prática, às afirmações individuais e todos a aceitamos sem questionar o sentido dos acontecimentos.

Assisti a essa sessão de encerramento nos bastidores da Aula Magna, a sós, na companhia de Jorge Sampaio. Posso agora dizê-lo sem constrangimentos: sentia-me um vencedor derrotado e o meu coração estava destroçado. Foi a primeira morte do MES.

Mas a vida tinha de continuar e não deixei de ser solidário, até ao fim, com todos os que julgaram, em boa fé, que o melhor caminho era aquele que a maioria tinha acabado de escolher.

Essa solidariedade assumida, de forma colectiva e responsável, até ao fim, continua presente na convocatória para o jantar de extinção do MES, datada de 31 de Julho de 1981, na qual se afirmava: «Pretende-se assim extinguir o MES, política e publicamente, com a dignidade que a sua rica experiência merece, assegurando, ao mesmo tempo, um destino útil para o seu património.»

Os contactos deveriam ser efectuados para o subscritor destas notas e para A. Borges da Gama, dos quais se indicavam os contactos pessoais para recolha das necessárias inscrições prévias. A data apontada para a reunião, que deveria assumir a forma de «almoço ou jantar», era 4 ou 5 de Outubro de 1981. Acabou por ser jantar e deve ter decorrido num destes dias.

Na cópia da convocatória que tenho na minha posse, certamente por ter sido dirigida a um destinatário muito íntimo, escrevi, à mão: «Com mil lágrimas mas com um olhar seco que nestas coisas é preciso. Para tomares conhecimento.»

E assim, de forma digna e original, o MES morreu pela segunda vez. Bem hajam todos os que nele acreditaram.

 
Na fotografia:
1.César de Oliveira; 2.Eduardo Ferro Rodrigues; 3.Paulo Bárcia (Didas); 4.Eduardo Duarte; 5.José António Vieira da Silva; 6.Carlos Figueiredo; 7.Sérgio (?); 8.Paulo Brito; 9.António Silva; 10.Fernando Ribeiro 11.Vítor Nogueira; 12.Emília Pereira de Moura; 13.Maria Luís Pinto; 14.José Elias de Freitas; 15.Margarida Guimarães; 16.Mila (?); 18.Paulo Trigo; 19.Celeste de Jesus; 20.Francisco Cal; 22.Joffre Justino; 26.Eugénia Cal; 27.Carlos Pratas; 28.Pedro Pais; 29.Teresa Pato; 32.José Lemos; 33.Amadeu Paiva; 34.Luis Félix; 36. Rosário Belmar da Costa; 37.Eduardo Graça; 38.Félix (?); 40.Nuno Ribeiro da Silva; 41.Julieta Mateus; 42.Leite Pereira.

 
Biografia de Eduardo Graça

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