Cinco crónicas contra o esquecimento

(5) 1974

 
Convido-vos hoje para um tempo diferente: Abril de 1974.

Ao som de Grândola, saíram já dos quartéis as tropas do Movimento das Forças Armadas.

Os jornais não passam já pela Censura, cuja sede foi, aliás, invadida por populares. Cercada, também, pela população, a PIDE disparou, fazendo as últimas vítimas: quatro mortos, uma quarentena de feridos. Agora, são as Forças Armadas a controlar o edifício, e os agentes seguiram para Caxias, onde ocuparam as celas deixadas vagas pela libertação dos presos políticos.

Os exilados regressam. Os jornalistas aprendem a escrever em liberdade. E há sempre pessoas pelas ruas, que querem ver, saber, participar. Lisboa não dorme. Lisboa está em festa.

«É tão bonita a liberdade!», pensam vocês, correndo de lado para lado, como todos, empenhados, como eles, na criação de comissões de trabalhadores, de moradores, de sindicatos, de partidos, devorando os jornais finalmente livres, escutando a rádio, a televisão, onde também, por uma vez, as palavras são livres.

Até as pessoas vos parecem mais bonitas, aureoladas por uma nova dignidade. E as ruas enchem-se de sorrisos, como se todos se conhecessem, como se todos partilhassem um mesmo e entusiasmante segredo.

Num dia assim, entram no Metro. E enquanto avançam, chega-vos ao ouvido uma música. Uma música conhecida, mas diferente.

«Que música é esta?», perguntam-se, enquanto andam. É uma música que ouviram muitas vezes, estridente, interferida, em proibidas ondas de rádio. Que cantaram por vezes, entre amigos, baixinho, ou, desafiadora, na cela de uma prisão. Palavras em diferentes línguas surgem-vos na memória: «Debout, les damnés de la terre/ Debout, les forçats de la faim!», «Não há salvadores supremos: nem Deus, nem Césares, nem senhores», «És la lluita final,/ unim-nos i demà/ la internacional/ serà el gendre humà».

E de repente vêem-no. É o cego, o pedinte, o mesmo que, há dias ainda, tocava Lisboa antiga ou a Menina das tranças pretas – e que ataca agora, alegremente, orgulhosamente, a Internacional, no seu acordeão.

E essa canção proibida, tocada por um pedinte cego, no corredor do Metro, parece-vos a medida mesma da liberdade.

 
(Lida na RDP-Antena 1, em Abril de 1994. Publicadas em O escritor, nº 4, Dezembro de 1994.)




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