Publicado originalmente em Água Lisa

Estamos decididamente em boa maré editorial no que respeita a história política. E, nas últimas novidades que deram á praia, o livro mais surpreendente e impressionante que encontrei foi, com a chancela da «Afrontamento», a edição de um velho diário de Flausino Torres (1) sobre os tempos vividos em Praga e imediatos à ocupação da Checoslováquia pelos tanques e tropas do Pacto de cinco países do Pacto de Varsóvia e cujos registos terminam no final de 1968 (2). E este é um livro de décadas de publicação adiada e evitada (3) que, simplesmente, constitui dos melhores testemunhos disponíveis sobre a primeira fase da «normalização checoslovaca», o que muito deve à argúcia de observação do autor e ao seu talento de escrita directa, impressiva e contextualizante (o autor era historiador e professor, além de transportar consigo uma longa militância comunista).

Flausino Torres inicia o seu «diário» já depois da ocupação consumada (neste sentido, o livro não trata, ou trata por evocação, quer da invasão propriamente dita como da «primavera de Praga» que antecedeu este estrangular da experiência do «socialismo de rosto humano» naquele país) e tem final antes da consumação do climax da «normalização» (ou seja, quando se dá a purga no PCC, com a expulsão de meio milhão de membros do partido, e Dubceck é silenciado e substituído por Husak, com o partido e o país reestalinizados integralmente à maneira de Brejnev e para felicidade tranquila de Cunhal) que se verifica mais tarde, em Abril de 1969. Portanto, o período abordado é ainda o da ocupação em compasso de espera, de compromisso, numa tentativa de os soviéticos deixarem acalmar a onda de indignação que a invasão suscitara (e que alastrara inclusive às hostes de alguns partidos comunistas) e em que ainda não tinham todos os dados geo-estratégicos para decidirem se haveria um confronto, que esteve eminente, com os Estados Unidos, ou proceder ao alastramento da ocupação, igualmente na agenda das probabilidades, a outros dois países socialistas recalcitrantes perante a ortodoxia do Kremlin, e que estavam na rota de imediatos caminhos dos tanques: a Roménia e a Jugoslávia, países dominados por comunistas heterodoxos. Pelo período abordado, julgo que o maior interesse do «diário» não será tanto a descrição e análise da invasão em si (que vai aparecendo em flash-backs) nem a «normalização» onde não chegou os apontamentos do autor mas antes dois depoimentos de interesse particular e muito mal conhecido nesta problemática: – a acomodação conciliatória e ingénua de compromisso de Dubceck e da sua equipa, confiando que era possível esperar algo de uma plataforma negociada com os invasores (num recuo que foi fatal para as esperanças autonómicas); – o nascimento e o desenvolvimento entre os checos de sentimentos antisoviéticos que não só se enraizaram profundamente entre as camadas mais vastas da população (quando a estima e admiração pela URSS tinham raízes fundas no povo checo pela libertação da ocupação nazi pelo Exército Vermelho ocorrida vinte e cinco anos antes) e que progressivamente se viria a transformar em anticomunismo atávico dos povos checo e eslovaco até ao crescendo da «revolução de veludo» e que hoje se exprime no facto de, actualmente, a apologia do marxismo-leninismo (a par da do nazi-fascismo) estar proibida por lei (e, antes, muitos eram os checos que aderiram ao comunismo e dele eram militantes).

Essencialmente, o «diário» de Flausino Torres é um ensaio de um observador privilegiado, pelos talentos de observação e escrita que possuía e por ser professor universitário em Praga e com vários contactos com a sociedade da capital checa, de dois aspectos peculiares do «caso checo»: a perfídia do ocupante, na forma como conciliava a brutalidade ocupante, o maquiavelismo da destruição da matriz autonomista do partido e do Estado, preparando caminho à instalação de uma clique estalinista dócil perante Moscovo; a ingenuidade dos «primaveristas» que confiaram no compromisso e no sentido de honra dos soviéticos, esperançados na «vitória de um novo soldado Scheveik». São estes ângulos de observação sobre a essência do Estado Comunista, ali consumada sob a forma de uma ocupação imperialista, que leva o autor a reflectir e rever muitas das suas convicções políticas e ideológicas que, procurando ainda âncoras em Marx e em Lenine, estão absolutamente datadas (entendíveis por isso mesmo) e que, reproduzidas hoje, revelam como perdurava, na época, o dogmatismo conceptual, eivado de muito maniqueísmo sistémico, mesmo nos recém desencantados com a prática comunista quando levada aos extremos.

Pela ilusão de tentar que o seu «diário» fosse publicado em Portugal, Flausino Torres expurgou as referências explícitas ao conflito que então liderou entre os comunistas portugueses exilados na Checoslováquia contra Cunhal e a sua direcção do PCP (um conflito violentíssimo em que este intelectual orgânico do PCP pediu a demissão de Cunhal e acabou por ser ele expulso do PCP). O livro não se ressente desse expurgo, pois transforma-o em foco de análise da realidade checoslovaca e permite que a atenção do leitor nesse aspecto se concentre. Mas, entretanto, a superação da mutilação pelo expurgo autodecidido «obriga» a que se leia, para cabal entendimento da perfídia checoslovaca com introdução da asa da componente estalinista pura e dura do PCP, o livro biográfico antes editado sobre Flausino Torres e da autoria do historiador (e seu neto) Paulo Torres Bento (4).

Os apontamentos de Flausino Torres são acompanhados de uma utilíssima introdução de enquadramento de Paulo Torres Bento e tem prefácio de Fernando Rosas. Este último assina um excelente texto de enquadramento e visão histórica do «caso checoslovaco» e valia uma edição autónoma. Embora não deixe de fazer sorrir a forma angélica como este historiador e autor do prefácio se cola, em viagem de memória, ao desencanto político gerado em 1968 por aquela brutalidade exemplar, como se todo o mundo não soubesse que ele rompeu então com o Estaline que habitava o PCP e que levou este partido a servilmente apoiar os tanques em Praga, não pela democracia traída nem pela primavera pisada, mas em busca de mais Estaline que acabaria por encontrar sentado ao lado de Mao.
(1) Sobre Flausino Torres, já tinha escrito aqui.

(2) Flausino Torres, Diário da Batalha de Praga, Socialismo e Humanismo, Edições Afrontamento, 152 p.

(3) Flausino Torres fez várias tentativas quando ainda vivo (faleceu em 1974) para editar este «diário». E foi nesse sentido que retocou a escrita do «diário» de forma a ser publicável e atribuindo a sua autoria a uma personagem não portuguesa utilizando pseudónimo. Nunca o conseguiu, tendo sido necessário que se passassem quarenta anos sobre a tragédia de Praga, para que visse o prelo e estivesse acessível nas livrarias.

(4) Paulo Torres Bento, Flausino Torres, documentos e fragmentos biográficos de um intelectual antifascista, Edições Afrontamento.

(Aqui e aqui encontram-se posts em que abordei o conteúdo deste livro)

Biografia de João Tunes

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