Cinco crónicas contra o esquecimento

(4) 1970

Convido-vos, de novo, a imaginarem-se num tempo anterior.

Estamos em 1970. Marcelo Caetano substituiu Salazar, caído de uma cadeira. A PIDE chama-se agora DGS, a Censura passou a Exame Prévio, e fala-se muito de Primavera política.

Meses antes, fizeram uma viagem a Paris. Alguém vos pediu, então, que levassem uma carta. A carta de um homem sob vigilância para o irmão, exilado em África.

Disseram que sim.

Puseram a carta no correio, viram filmes, compraram livros, estiveram com amigos também eles exilados, voltaram a Lisboa.

Passaram meses. A carta varreu-se-vos da memória.

E depois, numa manhã, não são ainda oito horas, batem-vos à porta de casa. É uma brigada da PIDE, entretanto baptizada DGS. Vêm-vos prender.

Conduzidos primeiro à António Maria Cardoso, depois a Caxias, vão passar dois meses isolados, sujeitos a interrogatórios ocasionais. Parece evidente, no entanto, que não há nada de importante contra vós: nada, excepto a tal carta já esquecida, que um dia levaram para Paris.

Ao fim desse tempo, mandam-vos em liberdade.

Voltam a casa, ao emprego, ao dia-a-dia. Esquecem, devagar, as grades, o postigo por onde espreitava o rosto dos guardas, a frase terrível: «Prepare-se para ir a Lisboa», que indicava um novo interrogatório. Esquecem, lentamente, a sala fechada, os pides que vos guardavam, as perguntas e as ameaças do inspector. Começam a esquecer o medo. E depois, certa manhã, tudo recomeça: a PIDE bate-vos novamente à porta, leva-vos de novo para Caxias. Parece que essa carta é um crime que não admite caução.

Passam mais onze meses na prisão. Depois vem o julgamento, no Tribunal Plenário, entre outros presos – o que escreveu a carta, o que vo-la entregou, por exemplo. E a sentença: «Absolvição». Mas a sentença não vos retira os meses e meses passados na prisão. Treze meses, por uma carta posta no correio.

Podia ser assim, em Portugal, antes de Abril de 74. Foi assim, em Portugal, antes de Abril de 1974.

(Lida na RDP-Antena 1, em Abril de 1994. Publicada em O escritor, nº 4, Dezembro de 1994.)

(Desenho de Dias Coelho – FMS)

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