A Censura tentava não dormir. Os censores de serviço, uma grande parte dos que exerciam aquela actividade faziam-no como sinecura do regime e para engordar o soldo de militares na reserva, vigiavam a escrita e as voltas que se tentavam dar ao texto para disfarçar implicações, mensagens e notícias capazes de perturbarem o sono cidadão que o regime cultivava.

Não só os grandes jornais diários e as revistas de maior tiragem eram especialmente vigiados. Também as publicações de menor tiragem, incluindo as publicações da imprensa regional, eram atentamente vigiadas para que uma frase ou sequer uma palavra não despertasse apetências insólitas relativamente ao modelo totalitário. Por exemplo, o Noticias da Amadora, semanário que, durante a ditadura e sob direcção de Orlando Gonçalves, representou uma voz de ampla difusão alternativa de opiniões, ultrapassando largamente a difusão regionalista, foi particularmente castigado pela Censura. Até porque, pela colaboração naquele Semanário, passou muita gente do jornalismo, da crítica, da acção política e da opinião antifascista, gente «perigosa» a pensar que tendia a piorar as coisas quando escrevia.

Segundo um apanhado feito por este periódico, entretanto desaparecido, o «lápis azul» dos censores entre 1958 e 1974, cortou ou retalhou, 2.776 artigos ou notícias (2.108 tiveram cortes parciais, 668 foram cortados na íntegra), 502 autores e autoras viram escritos seus objecto da sanha censória.

Curioso é, à distância, lembrar o ranking dos 43 autores e autoras mais visados e visadas pela censura (com mais de 5 artigos censurados) nos seus escritos para o Notícias da Amadora:

1º) Orlando Gonçalves – Censurado em 111 artigos
2º) Correia da Fonseca – em 58
3º) Soeiro Sarmento – em 49
4º) João Tunes – em 26
4º) Orlando César – em 26
6º) Molarinho Jacinto – em 25
7º) António dos Santos – em 24
8º) António Caeiro – em 23
9º) Sérgio Ribeiro – em 20
10º) A-da-Maya – 17
10º) José Freire Antunes – em 17
12º) Fernando Dacosta – em 16
12º) Joaquim Assunção Leal – em 16
14º) Afonso Cautela – em 15
14º) Arlindo Mota – em 15
14º) Eufrázio Filipe – em 15
14º) Manuel Azevedo – em 15
18º) Antunes da Silva – em 13
18º) Deodato dos Santos – em 13
20º) Alice Nicolau – em 12
20º) Eduardo Olímpio – em 12
20º) Torres Rodrigues – em 12
23º) Joaquim Benite – em 11
23º) Manuel Geraldo – em 11
23º) Manuel João Gomes – em 11
23º) Rui Pires – em 11
23º) Torquato da Luz – em 11
28º) António Amaral – em 10
28º) Eugénio Rosa – em 10
28º) Helena Neves – em 10
28º) Muradali Mamadhusen – em 10
32º) Carlos Carvalhas – em 9
32º) José Antunes Ribeiro – em 9
34º) Afonso Praça – em 8
34º) Agostinho Chaves Gonçalves – em 8
34º) Francisco Marcelo Curto – em 8
34º) J.J. Magalhães dos Santos – em 8
34º) João Paulo Guerra – em 8
39º) Arnaldo Pereira – em 7
39º) Luís Ganhão – em 7
39º) Raul Calado – em 7
39º) Tito Lívio – em 7
43º) A. Krusse Afallo – em 6
43º) Alexandre Silva – em 6
43º) António Rico – em 6
43º) Fernando Marrazes – em 6
43º) Fernando Sequeira – em 6
43º) José João Louro – em 6
43º) Lauro António – em 6
43º) Leopoldo Gonçalves – em 6
43º) M.F. Tavares Sousa – em 6
43º) Mário Rodrigues – em 6
43º) Vítor Ângelo – em 6

 
Colaboradores do NA havia que, para tentarem dar a volta à Censura, escreviam com um ou vários pseudónimos. É natural, assim, que alguns apareçam mais que uma vez no «ranking» e só aparentemente não surjam «melhor classificados».

Notas:
1) A sanha da Censura sobre o Notícias da Amadora foi tratada e documentada por Orlando César (último director do NA e filho de Orlando Gonçalves, que foi o seu director mais conhecido e influente). Foram editados vários cadernos sobre o «NA censurado» e aqui pode ser feita a sua web-consulta.
2) Daniel de Melo, historiador e investigador associado do ICS-UL procedeu a um estudo-resenha sobre o tema que pode ser consultado aqui.
3) O autor deste post foi crítico de cinema do NA no período 1972-74. Destas críticas, acumulou 26 acções censórias por cortes ou por proibição de publicação. Sobre a censura às críticas de cinema do NA, ler aqui.

Imagem:
O cabeçalho do Notícias da Amadora, bem conhecido antes do 25 de Abril pelos seus muitos assinantes sedentos de informação e opinião fora da propaganda do regime. A sua extraordinária difusão, levando o NA a ser só formalmente um semanário regionalista, suscitava uma particular fúria de vigilância e perseguição por parte da Censura.

Biografia de João Tunes.

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