Não é fácil julgar os crimes de uma ditadura. Em França, depois da ocupação em 1945, os collabos que tinham denunciado, ou mesmo torturado, os resistentes foram julgados por juízes que tinham prestado juramento de fidelidade ao Marechal Pétain como condição para manter o seu cargo.

Os assassinos do Gen. Humberto Delgado foram julgados por um tribunal militar (como se sabe a justiça militar está para a justiça, como a música militar está para a música) cujo acórdão nos fez acreditar até hoje que o general tinha sido morto a tiro, limitando a responsabilidade dos assassinos como uma versão judicial que ia contra os dados contidos na autópsia.

A primeira biografia séria de Humberto Delgado, feita por um seu descendente sem formação académica como historiador mas com todas as qualidades para o ser, tem esta grande revelação. O resto, mais coisa menos coisa, já sabíamos. O seu passado de ultra (Da Pulhice do Homo Sapiens) do regime, a sua lenta passagem para a esfera aliada, a sua transformação num oficial NATO que vai criando a pouco e pouco uma relação especial com o regime (depois da guerra Salazar precisava a todo o custo de um oficial com credenciais pré-aliadas) e depois o “obviamente demito-o”.

No entanto, esta biografia de Delgado é uma obra notável: a chegada apoteótica de Humberto Delgado ao Porto depois de uma viagem de comboio marcada pela incerteza com aplausos e apupos é do melhor que já foi escrito sobre a resistência ao salazarismo. Os factos conhecem-se: Delgado chega ao Porto e depara com uma recepção apoteótica – temos as fotografias – que nada fazia prever. De repente, o regime treme. Há uma espécie de milagre nesta recepção porque não havia anda nem organização, nem propaganda. Meia dúzia de apoiantes e mais nada. A estrutura clandestina que tradicionalmente animava a oposição – o PCP – estava ainda contra e procurava lançar Arlindo Vicente. Delgado chega, o Porto vem para a rua (quem foi que passou palavra?) e tudo muda.

O modo como foi recebido, os testemunhos que foram reunidos de cidadãos anónimos que na véspera mal pensavam (ou não pensavam mesmo) na política e que de repente se vêem a afrontar a polícia – ou o episódio de polícias ainda mal enquadrados que vão na onda e aplaudem Delgado – são o sinal de que tudo irá mudar. O regime nunca mais seria o mesmo.

Na sua biografia de Álvaro Cunhal, Pacheco Pereira descreve-nos uma conferência de imprensa da oposição onde o representante do Governo Civil e candidato a deputado pelo regime (Soares da Fonseca) discutia com o representante de oposição (Lima Alves) se as listas de assinaturas onde se apoiava a oposição eram ou não autênticas. As ameaças policiais pairavam no ar; e a reconstituição destes episódios mostra-nos o que eram as eleições de Salazar.

Com Delgado já nada foi assim: o profundo, irracional, ilimitado ódio de Salazar (e a PIDE) a Delgado vinha desse medo que percorreu as fileiras da situação quando todos os diques se quebram e as eleições já não são, como costumavam ser, a ilustração da força e da prepotência do regime.

Contudo, se o General sem medo tem na sua biografia o retrato que merece (o autor escreve bem e faz-nos percorrer todas aquelas páginas quase sem se conseguir parar) isso não impede que mostre, por vezes, algumas ingenuidades. Por exemplo, quando acentua as preocupações de Delgado com a justiça social como se isso o colocasse na esquerda do regime: o justicialismo anti-capitalista era uma componente essencial do discurso fascista. Até Salazar, sempre tão cuidadoso as palavras, falava dos plutocratas, como flores do mal do capitalismo.

Delgado pertencia à ala republicana do regime (A Pulhice tem no seu frontispício uma citação de Marat…) e foi sempre um daqueles apoiantes ligeiramente incómodos no meio da imensa hipocrisia do regime. Mas começou como um homem da Direita mais radical e mais violenta.

A sua biografia também não explica por que motivo um homem que não receava a prisão nem a tortura cometeu o suicídio político de se refugiar na Embaixada do Brasil e se condenar àquilo que era, para ele, à morte lenta do exílio.

Delgado reflecte muito bem a dificuldade dos militares que rompiam com o regime a sustentar a luta prolongada que o derrubamento do regime exigia. Veja-se o fim trágico do Cap. Almeida Santos que acaba por ser morto pelos seus companheiros de fuga, desesperados com o seu comportamento errático. E dá-nos uma imagem muito ligeira do manicómio de Argel onde anti-fascistas acolhidos por um regime policial adoptavam práticas fascistas.

Estamos no entanto perante uma obra rara: um estudo da nossa história contemporânea que constitui (juntamente com a biografia de Cunhal por Pacheco Pereira) uma obra à altura da época que retratam, com os seus actos heróicos e as suas pequenas misérias.

Frederico Delgado Rosa, Humberto Delgado. Biografia do General Sem Medo, A Esfera dos Livros, Abril 2008, 1328 pgs.

Biografia de José Luís Saldanha Sanches.

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