
Um texto de Helena Cabeçadas (*)
A consulta dos processos individuais da PIDE/DGS na Torre do Tombo pode tornar-se numa verdadeira descida aos infernos ou, no melhor dos casos, numa aventura inquietante. Foi essa, pelo menos, a minha experiência pessoal. Quando, oito meses após o pedido formulado, tive finalmente autorização para consultar o meu processo da PIDE/DGS na Torre do Tombo, não tinha a mínima ideia do que iria encontrar, ou mesmo se iria encontrar algo que me dissesse respeito.
Sentei-me, pois, à espera do que viesse. A funcionária traz-me um processo, abro-o e o primeiro choque é deparar-me com uma fotografia minha ampliada, aos 15 anos e em que eu estou com um sorriso luminoso. A segunda surpresa foi constatar que estava a ser seguida pela PIDE desde os meus 12 anos, quando ainda não tinha qualquer actividade política, nem sequer ainda tinha integrado a Comissão Pró-Associação dos Liceus, o que só aconteceria dois ou tês anos mais tarde. No entanto, já lá estava a correspondência por mim trocada com jovens estrangeiros que conhecera no Parque de Campismo onde passava férias. As cartas, escritas em francês e em inglês, estão bem traduzidas para português, nomeadamente poemas de Aragon e Éluard, enviados pelos meus amigos…Discutiamos sobre a repressão e a falta de liberdade em Portugal; eu estava ainda à vontade para abordar estes temas porque não tinha actividades políticas. É na sequência destas cartas (percebo só então) que um pide vem a minha casa, informa-se junto dos vizinhos e interroga a minha mãe, que lhe diz «Não entendo as suas perguntas, a minha filha é uma criança». Nessa altura eu chego do Liceu, de bata, rabichos e soquettes. O pide fica confuso, não devia esperar encontrar uma miúda e vai-se embora, sem me interrogar, escrevendo um relatório ameno, que está no meu Processo: «É uma menina de boas famílias, vão à missa todos os Domingos; o pai parte àmanhã para o Ultramar…» Lembro-me vagamente deste homem, com aspecto gorduroso, a falar com a minha mãe, à porta de casa; desses meus amigos estrangeiros já nem me lembrava…
Mas fica a questão: como é possível perderem assim tempo a investigar, ler e traduzir cartas longas de uma garota de 12 anos, sem qualquer actividade política na altura? Pode haver como «explicação» o facto de o meu nome de família ser conhecido nos meios oposicionistas: o meu tio-avô, republicano histórico e o meu primo Rui Cabeçadas, então dirigente da Frente Patriótica de Libertação Nacional, sediada em Argel. Mas não deixa de ser perturbante esta questão: que quantidade enorme de informadores não seriam precisos para que tal acontecesse?
Neste primeiro processo, para além da fotografia, destas cartas distantes, deste relatório quase anedótico, do meu número de inscrição no Cine Clube Universtário de Lisboa «organização subversiva dominada por comunistas», da prisão na Cantina Universitária em 1965, está a denúncia de pertencer ao PCP pelo controleiro do sector estudantil da altura, passado para a PIDE, e que provocou a prisão em massa de estudantes. Nada que me causasse grande abalo, a não ser a fotografia, que me irritou sobretudo pelo meu sorriso tão alegre, jovem e confiante nas mãos daqueles seres repugnantes. Se eu estivesse com um ar duro acho que não teria ficado tão zangada.
Julguei que era tudo, e quando fui entregar o processo perguntaram-me se não queria ver os outros. Disse que sim, e chegaram então mais três grossos volumes. Explicaram-me que outros três volumes estavam desaparecidos/não localizáveis, mas classificados. Estes que posso consultar são os volumes que correspondem aos anos do exílio, e que se estendem dos meus 17 aos meus 27 anos e é aqui que surgem as cartas aos/dos meus familiares, amigos, namorados. Constato então que ao longo de dez anos a minha vida íntima, assim como a dos meus familiares e amigos, foi devassada de forma totalmente despudorada. Há em muitas destas cartas comentários obscenos feitos à margem pelos pides (ex.«esta gaja é do tipo galdério», a propósito de uma certa rapariga), setas com os números dos processos na PIDE das pessoas referenciadas, algumas com múltiplas setas correspondentes a múltiplos processos, e as que não tinham processo aberto passavam a tê-lo pelo simples facto de serem nomeadas: «Abra-se processo» era a ordem expressa na seta correspondente, já com o novo número atribuído.
Algumas destas cartas são as originais, o que significa que nunca as recebi ou nunca foram recebidas pelos seus destinatários; outras eram fotocópias de cartas que seguiram o seu destino depois de lidas pelos pides ou que estarão incluídas noutros processos, outras cartas ainda estão escritas à máquina, o que me deixou intrigada: porquê perder tempo a escrever estas cartas à máquina, tão longas, com tantas páginas? Sairiam as fotocópias mais caras do que pagar a dactilógrafos/as que as decifrem? Mais uma vez se põe a questão inquietante da imensidade de colaboradores necessariamente envolvidos nestas actividades pidescas. É o caso da carta, que nunca recebi, de uma das minhas grandes amigas, em que que ela me fala apaixonadamente da sua descoberta do amor; é uma carta muito bela, intensa e luminosa, daquelas que só se escrevem quando se tem 18 anos…Os comentários abjectos dos pides causam-me náuseas. Faço uma fotocópia da carta e pergunto à minha amiga porque é que me tinha escrito à máquina. Ela ficou muito admirada: «nunca te escrevi nenhuma carta à máquina; de facto, estranhei nunca me teres respondido a esta carta, mas pensei que estavas ocupada com outras coisas, que tinhas mais em que pensar…» assim se criavam mal-entendidos, falhas de comunicação, quando não mesmo rupturas afectivas com consequências irreparáveis e dramáticas.
Eu estava preparada psicologicamente (penso) para ler dados relativos a denúncias, interrogatórios, etc. Mas não estava, de modo algum, preparada para esta devassa despudorada da minha intimidade e da dos meus familiares, amigos, namorados…Era uma época em que se escreviam longas cartas – é bom recordar que não havia telemóveis nem internet – telefonar e/ou viajar era caro e pouco acessível – a solidão do exílio exacerbava a necessidade de comunicação à distância com os amigos e a família. Evitávamos falar de política nas cartas, claro, pois sabíamos que a correspondência era vigiada, mas sobre os afecto e os sentimentos escrevíamos sem restrições, para não perdermos as raízes e não nos perdermos a nós próprios – era uma necessidade vital.
Ver assim expostos aos olhares dos pides os sonhos, amores, frustrações e angústias das pessoas que me eram mais queridas, algumas das quais já desaparecidas, causou-me um mal-estar profundo e uma indignação que ainda hoje sinto dificuldade em dominar. Senti-me roubada, violentada no que de mais íntimo e secreto havia em mim.
O que constava nos processos, para além das cartas pessoais, incomodou-me menos: relatórios de pides belgas, redigidos em francês, denunciando as actividades anti-fascistas de portugueses exilados na Bélgica, um relatório da Interpol…sugestivo da ligação (inquietante) entre as polícias internacionais e a PIDE; outras pequenas/grandes denúncias que não me surpreenderam verdadeiramente.
Ao entregar os processos à funcionária da Torre do Tombo perguntei-lhe porque tinha sido necessário esperar oito meses para os poder consultar. «Porque tivemos que fazer o expurgo», foi a resposta. «O que é isso?» perguntei. «É tapar os nomes dos informadores». «Mas com que objectivo?» indaguei, «Porque tem de ser» foi a resposta burocrática. Fiquei atónita e ainda mais revoltada. Porquê esta protecção aos denunciantes? Imagino que para «proteger» a podre paz social em que vivemos.
Quando, finalmente, saí para o ar livre, tinha a sensação de que se me colara à pele algo de viscoso e repugnante. Passei pela Biblioteca Nacional e vi que estava lá uma exposição sobre a vida do humanista Damião de Góis. Entrei e confrontei-me com o seu processo da inquisição e com os interrogatórios que lhe foram feitos: a linguagem dos inquisidores é semelhante à dos pides, as acusações são idênticas, o espírito é o mesmo. Constato a perturbante continuidade de uma História que, em Portugal, ao longo dos séculos, se foi fazendo recorrendo à tortura, à denúncia, à prisão arbitrária e à humilhação sistemática. Tento consolar-me com a convicção de que também se fez com a resistência daqueles que conseguiram, nestes períodos sombrios, ter a coragem de dizer não à violência e à barbárie.
(*) Biografia de Helena Cabeçadas.
Domingo, 29.Jun.2008 at 01:06:22
Texto comovente, que nos lembra um tempo que pensamos que nunca mais há-de voltar.
Quanto à sua fotografia recorde se a mesma não é de tipo passe, pois nessa altura o ficheiro, com as fotografias de todos os sócios do Cineclube Universitário, foi levado pela PIDE quando assaltou o cineclube, na sequência da prisão do seu presidente, o Mário Neto, do Técnico (24/11/64). A tentativa de recuperação desse ficheiro, que estava na posse da PIDE e que nunca nos foi devolvido, ainda causou alguns incómodos aos dirigentes que se dirigiram àquela polícia.
Domingo, 29.Jun.2008 at 02:06:36
Olá Jorge,
A Helena responderá provavelmente ao teu comentário, mas julgo que a fotografia não é a que referes. Ela tem-na (deve ter pedido cópia na Torre do Tombo), ainda quis publicá-la aqui mas infelizmente não a encontrou.
Domingo, 29.Jun.2008 at 11:06:37
Belíssimo texto. Ele mostra bem que mais chocante que tomar conhecimento das torturas, vexames e patifarias políticas da polícia para as quais estamos prevenidos e sabemos ser “o seu trabalho” é confrontarmo-nos com o inesperado. Com a interferência na nossa vida pessoal. Ficarmos a saber que puderam até,fora do âmbito político, sem nos darmos conta, manipular as nossas vidas ou as dos nossos amigos.
Segunda-feira, 30.Jun.2008 at 08:06:03
Hoje, a “democracia real”, considerando os novos meios tecnológicos de que dispõe, incomensuravelmente mais poderosos que os de antigamente, e a necessidade de fazer face ao “terrorismo internacional” (onde e há quantos anos eu já ouvi isto ?)não é menos ineficaz no controlo da vida de um número certamente muito superior de cidadãos. (Descontando aquele lápso do Ministro Veiga Simão, há uns anos atrás, ao dar conhecimento público de uma lista de “agentes secretos”).
Segunda-feira, 30.Jun.2008 at 02:06:16
Por mera coincidência sou também um velho amigo da moça, hoje moça veterana, a quem a PIDE profanou a carta de “descoberta do amor” que escrevera à Helena e que esta veio encontrar nos arquivos do Tombo. E sei-o porque pude constatar como lhe doeu, à tal amiga comum de que não revelo a sua graça, sentir que houve uma época em que nem a intimidade, mesmo a mais funda e reservada das intimidades, escapava às patas policiais. Este exemplo de dor retroactiva significa que, porque há sempre uma faceta ignóbil com que não se conta nem se imagina, até a memória (que é registo de resistência mas também guarda as marcas das infâmias) é capaz de ferir, duplicando o efeito do mal. Por exemplos como este, embora gabando a coragem de partilha da Helena, é que ainda não tive a “coragem” de consultar o meu dossier da PIDE.
Segunda-feira, 30.Jun.2008 at 08:06:15
Ainda bem que ouvi a entrevista do Pedro Rolo Duarte a dois colaboradores de “os caminhos da memória”. Sem a pista dada nesse programa talvez não viesse a conhecer mais uns traços da repugnante acção pidesca do regime do “fradeco de Santa Comba”. Não tinham respeito por ninguém, nem por nada. Era uma perseguição afrontosa. Não é para me gabar mas desconfio que o meu nome também deve andar por esses sítios. Fui um dos fundadores, em 1967, de um jornal regional, que ainda existe, na Lousã, chamado TREVIM, que, para não fugir à “praxe”, sofreu as vilanias dos pides da censura. Há tempos fui à Torre do Tombo à procura do processo do jornal nas caixas da Censura, mas apenas encontrei uns cortes que, por sinal, também tenho em arquivo. Consultei um dossier da Direcção de Censura de Coimbra, que tinha lá vários processos de jornais do distrito, mas o do TREVIM não estava lá. Foi-me dito por um funcionário que não estava ainda tudo catalogado. Um dia destes volto lá, para nova investigação. Não vos doa a mão, nem a cabeça para darem a conhecer tudo o que é preciso para manter a memória dos dias trágicios do fascismo. Aliás já tive opoetunidade de ler o livro de Joana Lopes sobre as actividades dos católicos durante a ditadura. Um bom exemplo do que acho que deve ser feito na denúncia e crítica ao fascismo. Gostarei de receber notícias vossas e eu voltarei quando puder. Obrigado pelo vosso trabalho.
Coimbra, 30 de Junho de 2008.
Segunda-feira, 30.Jun.2008 at 08:06:54
Pela parte que me toca, tanto quanto à colaboração neste blogue como pela atenção que o meu livro lhe mereceu, muito obrigada.
A cabeça não nos doerá e a mão vai continuar a bater os nossos teclados – assim o esperamos.
Terça-feira, 01.Jul.2008 at 12:07:07
Olha, Helena, cara colega, sempre tão viva te conheci, e longos anos antes e pos 25 de abril leccionamos juntos a mesma filosofia aqui na escola que ainda deviso de minha janela, por essas e por outras é que não me dou ao trabalho de ir a essa torre de tombo ou «tumba»… pois acharia surpresas bem desagradáveis que antevejo mas nem calculo. Era frequente a devassa da correspondência e da intimidade — tanta carta a não chegar a fim ou a chegar aberta e conspurcada! Em Buarcos me aconteceu de uma minha queridíssima Esmeralda tal surpresa. Tempos estes serão mesmo outros — um beijinho para ti.
Manuel Ângelo Ochôa de Castro, prfessor aposentado do 10º Grupo B Filosofia do Antigo Liceu de Setúbal, natural de Alfândega da Fé e durante quase 30 anos «coleguinha» da Helena como ela gostava tento de dizer.
Terça-feira, 01.Jul.2008 at 08:07:13
Ao verificar a «biografia» de Helena Cabeçadas confesso que me equivoquei — o que poderia dar a entender que meu anterior comment — não fosse este esclarecimento — pudesse parecer uma «brincadeira» de mau gosto… É que tive e tenho uma coleguinha de nome de guerra Helena Cabeçadas… Daqui a confusão natura… Desculpe-me a Helena Cabeçadas outra. Mas permitiu meu desabafo quanto a correspondência íntima vigiada e controlada.
Sábado, 05.Jul.2008 at 09:07:29
Angelo:
Essa Helena é outra, minha prima, casada com o irmão do Rui Cabeçadas, que refiro no texto,então dirigente do MAR (Movimento de Acção Revolucionária), que integrava a FPLN (Frente Patriótica de Libertação Nacional)sediada em Argel e que coordenava a oposição antifascista no estrangeiro. Não tenho nada que desculpar. Um abraço, Helena.
Segunda-feira, 05.Out.2009 at 08:10:10
Eu nunca estive preso. Por isso a minha perspectiva será diferente.
Não consigo perceber porque razão não é possível (não será mesmo possível?) exigir a listagem com os NOMES e actuais MORADAS dos PIDES e dos informadores. E se isso não é oficialmente possível, porque não se organiza um grupo de voluntários para fazer e publicar essa listagem?
Perguntarão para quê? Não é para lhes fazer mal (eu não estive preso…) Mas quero conhecer quem me rodeia.