
Cinco crónicas contra o esquecimento
(3) 1967
É, ainda, um jogo de imaginação.
O telefone toca. É o princípio da tarde, ficaram em casa, para estudar para os exames, não esperam nenhum telefonema.
Mas o telefone toca e, claro!, precipitam-se para ele.
Ao princípio, a voz, do outro lado, parece desconhecida. Quase jurariam que nunca a ouviram. Mas é o vosso nome que perguntam. E, depois, de muito longe, como que sentindo a incompreensão do vosso lado, vem a pergunta: «Não te lembras de mim? Sou o Rui». (Ou o Miguel, ou o Pedro, ou o Luís, o nome pouco importa.) «Estava na guerra.»
Nessa altura, a voz ganha um rosto, e um lugar. Foi no bar da Faculdade, ele viera despedir-se dos amigos e, lembram-se agora, tinham tentado convencê-lo a desertar.
Vão estar os dois várias horas ao telefone. É evidente que ele precisa de falar, de falar muito, e talvez lhe seja fácil falar assim, de longe, pelo telefone, a outra voz, a um ouvido que o escuta algures no espaço.
Lembram-se agora de um poema de João Cabral de Melo Neto, Paisagem pelo telefone. Mas, do outro lado do fio, não é claridade o que vos chega. Do outro lado, a voz ultrapassou todo o desespero e despeja-vos, quase mecanicamente, factos que não consegue esquecer: mortos e feridos, claro, mas também combatentes negros com as costas retalhadas com lâmina, para que denunciassem outros combatentes; outros negros, queimados com maçaricos, para que falassem; homens enrolados em arame farpado e lançados, ainda vivos, sobre o mar. «E eu não podia fazer nada, eu não consegui fazer nada», soluça a voz, do outro lado do telefone.
Tem pouco mais de vinte anos e, lembram-se, um rosto de menino.
Quando finalmente o telefone se desliga, sentem que envelheceram muitos anos.
Era também assim, ter vinte anos, antes de 25 de Abril de 1974.
Foi também assim para muitos e muitos portugueses.
(Lida na RDP-Antena 1, em Abril de 1994. Publicadas em O escritor, nº 4, Dezembro de 1994.)
Um blogue sobre a guerra na Guiné.
Segunda-feira, 23.Jun.2008 at 09:06:18
Os nomes importam, são os nomes que dão identidade às pessoas.
«Combatentes negros que denunciassem outros combatentes», existiam combatentes brancos nos movimentos de libertação, existiam negros que combatiam ao lado das «tropas fascistas».
Dividir a guerra em África em negros e brancos, em bons e maus é, extremamente, redutor.
A guerra deixa sempre cicatrizes de ambos os lados, as piores são as interiores.
Terça-feira, 24.Jun.2008 at 12:06:09
Não creio que, neste caso, o nome importe, sobretudo porque mais pessoas têm histórias iguais.
E não se trata aqui de dividir a guerra em negros e brancos – mas, sendo certo que havia combatentes brancos nos Movimentos de Libertação e combatentes negros no Exército colonial, era certamente maior o número de combatentes negros dos movimentos de libertação capturados.
Quanto às cicatrizes, estamos de acordo. É essa, aliás, a razão da crónica.
Terça-feira, 24.Jun.2008 at 09:06:07
“…a voz ultrapassou todo o desespero e despeja-vos, quase mecanicamente, factos que não consegue esquecer: mortos e feridos, claro, mas também combatentes negros com as costas retalhadas com lâmina, para que denunciassem outros combatentes; outros negros, queimados com maçaricos, para que falassem; homens enrolados em arame farpado e lançados, ainda vivos, sobre o mar. «E eu não podia fazer nada, eu não consegui fazer nada», soluça a voz, do outro lado do telefone.”
É mais ou menos isso que se está a passar no Zimbabwe, não é? Ou não se pode dizer? A Tsvangirai, versus Mugabe, acontece o mesmo que a Delgado, versus Salazar, há precisamente 50 anos, dia por dia. A história repete-se. Em mais tragédia. Em mais assassinados nas fileiras da Oposição, em mais urgência em procurar asilo numa embaixada. Em tudo o resto, o “libertador” Mugabe é a cópia chapada do ditador Salazar. Convém não apagar a memória, nossa.
Terça-feira, 24.Jun.2008 at 12:06:18
É o que tentamos fazer. Na esperança – mesmo que muitas vezes pareça vã – de que a memória impeça a repetição, no mesmo ou em outros lugares. Mas, se não a conseguirmos evitar, a repetição também não pode servir para apagar a memória do que se deu antes, menos ainda o justificar. Se alguns libertadores de hoje se tornam nos ditadores de amanhã, é a liberdade que devemos culpar?
Quarta-feira, 25.Jun.2008 at 11:06:55
Movimentos de Libertação?De quem? Afinal não foram esses “movimentos de libertação” que, após se aliarem a traidores que se intitulavam portugueses e que após destruírem a vida de quem, para fugir à miséria no continente, quis ir trabalhar por conta de um patrão,mataram milhares de naturais do país (Angola e Moçambique são os exemplos)numa guerra civil fratricida! São esses movimentos de libertação que glorifica como heróis da nação? Já que querem recordar (eu também) porquê não começar por contar a história do financiamento de alguns traidores à pátria pela antiga URSS numa célebre mas camuflada conferência de Paris, em 1973!Terão a coragem de clarificar situações até agora escondidas?