A entrevista que aqui se publicará em três partes foi efectuada no final de Janeiro de 2008, pouco antes de Francisco Martins Rodrigues falecer, vítima de cancro. Martins Rodrigues acedeu a percorrer os principais momentos do seu trajecto político até ao 25 de Abril, tal como já tinha feito numa conversa com Carlos Morais, bem como em inúmeros textos de reflexão e memória que foi escrevendo ao longo da vida.

Nascido em Moura, em 1927, Francisco Martins Rodrigues começou a interessar-se pela política na sequência da prisão do seu irmão José Leonel, vindo posteriormente a ingressar no MUD–Juvenil e no PCP. Fez parte do Comité Central e da Comissão Executiva deste partido a seguir à famosa evasão da cadeia de Peniche a 3 de Janeiro de 1960, da qual tomou parte. Nos anos seguintes entraria em ruptura com o PCP, fundando a FAP e o CMLP. Torna-se então na principal referência teórica do maoísmo desta primeira fase. Em Janeiro de 1966 é preso pela PIDE e condenado a dezanove anos de cadeia. Permanecerá nos calabouços da ditadura até ao dia 27 de Abril de 1974. Posteriormente, fez parte do PCP(R) e da UDP, de onde viria a sair, em meados da década de oitenta, para constituir o colectivo Política Operária.

O excerto que a seguir se apresenta trata dos anos de militância no MUD-J e no PCP. Aproveita-se para informar que um texto autobiográfico sobre o período será em breve lançado pela Dinossauro e a Abrente, com o título Os Anos do Silêncio. Mas avancemos para a conversa.

Nasceu no Alentejo, uma região onde o Partido Comunista sempre teve um peso particular. Foi aí que entrou na política?
Não. Os meus pais vieram para Lisboa, teria eu seis ou sete anos, e desde essa altura que passei a viver aqui.

O que é que os seus pais faziam?
O meu pai era funcionário público e a minha mãe era doméstica. O meu pai tinha sido opositor ao regime e, por isso, tinha muitos problemas. Durante a Guerra de Espanha, era eu miúdo, ele comprou, de propósito, um rádio e um grande mapa de Espanha. Punha-se a ouvir e dizia-nos para procurar no mapa as terras… Éramos crianças e estas coisas marcam.

Ele chegou a estar preso?
Nada.

Nem ligações ao Partido Comunista…
Não, era uma pessoa que tinha seis filhos, preocupadíssimo em sustentar a família. Só que em casa desbobinava as suas opiniões. Ouvia por vezes a Rádio Moscovo – era um pesadelo, o barulho que aquilo fazia, cheio de interferências… Não seria nenhum entusiasta da Rússia, mas dizia que aquilo era «um país diferente»…
Depois, o meu irmão mais velho – o único que ainda é vivo, os outros já morreram todos – foi preso, mais ou menos no tempo do Norton de Matos. Comecei a ir vê-lo à prisão, no Aljube e em Caxias, e isso aí marcou-me muito, porque ele lá dentro começou a ficar um bocado perturbado. Apanhou ano e meio por ter sido preso com outros a escrever nas paredes. Foi suficiente para darem cabo dele. Foi aí que comecei o meu tirocínio, a frequentar amigos que ele também tinha, a participar em encontros em cafés, a ter ligação ao MUD-Juvenil.

A entrada para o PCP é posterior…
Muito posterior. Eu estava interessado em entrar, mas não se entrava facilmente. Muito secretamente, um rapaz que era barbeiro nos Anjos e que já tinha estado preso, começou a dar-me uns Avantes, mas que dizia que não tinha ligação nenhuma. Todos diziam que não tinham ligação nenhuma… A malta mais nova era canalizada para o MUD-Juvenil para ver o que é que valia. A minha militância aí deve ter rondado os três anos. Fui da Comissão Central do MUD Juvenil e tornei-me funcionário do MUD-J na clandestinidade Ainda sou preso algumas vezes…

É julgado?
Não, pequenas prisões de dois ou três meses cada uma. Apanham-me papéis, nos interrogatórios digo que sou do MUD-Juvenil, que não tenho nada a ver com o Partido Comunista e a coisa passava assim.

E quando é que entra para o PCP?
Em 1951. Mas mantive-me no MUD-Juvenil. Em 1954 entro para funcionário do PCP. O partido começara a controlar a minha vida, a dizer que eu devia de casar porque um funcionário sozinho na clandestinidade não podia ser, tinha de se arranjar uma amiga para ir viver com ele e isso era um problema. Eu já namorava com uma moça [Fernanda Alves] do MUD-Juvenil, que também tinha estado presa e casámos. Entre 1953 e 1954 tive uma recidiva da minha tuberculose (em 1951-52 já tinha estado doente). Ainda estive oito meses no Hospital do Rego. Também foi o partido que arranjou médico e que me meteu lá, para me preparar para ir para funcionário. Então, em 1954 saio já curado, casado…

E funcionalizado.
Exacto! (risos). Fizemos um casamento com a família, onde dissemos que íamos para o Porto, despedimo-nos, e fomos para uma casa que já estava alugada aqui nos arredores de Lisboa. E eles nunca mais nos viram.

Mas eles sabiam que estavam a entrar para a clandestinidade?
Sabiam, claro! Só que era uma coisa que não podia ser dita. Ela já tinha estado presa, eu já tinha estado preso, agora desaparecíamos, aquilo estava na cara.
Passamos então a andar por várias casas clandestinas e eu aí faço a vida do militante clandestino. O que em relação aos três anos do MUD-Juvenil era frustrante, porque era uma vida de isolamento total. Só se contactava com pessoas esporadicamente, as saídas eram de táxi, não se discutia com ninguém… Senti muito. A minha companheira ainda sentiu mais. Deixou de ver pessoas, passava o tempo a tratar da casa e a escrever à máquina.

Além de viverem sob outra identidade, passavam a maior parte do tempo escondidos…
Sim, porque já tínhamos estado presos e podíamos ser reconhecidos. Eu passava a maior parte do tempo em casa, saía à noitinha, podia andar dois dias em encontros aqui e ali, e depois regressava. Na minha ausência, ela ficava sozinha, arranjava uma qualquer desculpa para o merceeiro lhe ir levar comida a casa… também não podia andar na rua.
Depois ela engravidou, fomos presos novamente e ainda foi maior a complicação. Eu estive preso três anos, ela dois. Ela esteve com a criança até aos dois anos em Caxias, de modo que o miúdo ficou conhecido dos guardas, dos Pides, etc. Passou a ser outro problema. De maneira que, quando fomos libertados, tínhamos de ter o miúdo guardado em casa: não podia ir à janela, não podia falar com ninguém…
Depois passámos a viver com outras mulheres, por questões de segurança. A Albina Pato, que depois se suicidou, esteve connosco; a ex-mulher do Armando Norte também, junto com uma criança… Havia assim várias situações, também para deslocar mulheres que andavam «penduradas» devido ao facto do companheiro ser preso. Estivemos também em duas tipografias do partido. A primeira com a Albina Pato, com a Fernanda Tomás, com o Joaquim Carreira, a minha companheira e eu. Estivemos lá por alturas do XX Congresso, talvez em 1957.

(continua)

Uma biografia do percurso político de Francisco Martins Rodrigues foi recentemente colocada, numa série de posts da autoria de José M. Martins, no blogue Almanaque Republicano.

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