A. M. Cunha, hoje engenheiro agrónomo reformado
(Nesta história, só o nome A M. Cunha não é verdadeiro.)

1948 – Lisboa. Rua de S. Bento, em frente da Assembleia Nacional

No liceu Passos Manuel, as aulas começam às oito e meia. Por isso saio logo à pressa. A tia Madalena já saiu àquela hora. Trabalha fora a dias e a Senhora Joana (que me aluga o quarto a mim e a um casal que vem às vezes e nunca se vê) deixa-a dormir lá em casa. Como já não há quartos nem ela tinha dinheiro, dorme à entrada da porta numa cadeira de braços, toda embrulhada em cobertores.

À saída, encontro sempre o Quinas no patamar da escada mas não me faz mal. Ele é mais velho que eu uns cinco ou seis anos, vende rifas mas nunca sai nada e vive com a mãe que é peixeira de canastra à cabeça e gritos de «Oh viva da cooosta!» e com o pai que é funileiro mas passa o tempo a beber copos. Uma vez espreitei. Até faz impressão. A casa deles é o vão da escada. Tem quatro passos aí por uns seis e metade de cabeça baixa por causa da escada. Fazem o comer à entrada do prédio.

Ontem foi a maior vergonha da minha vida. Era Sábado (é às Quartas e aos Sábados de tarde, formamos no pátio do liceu como na tropa, aprendemos a marchar e fazemos a continência de braço estendido ao comandante de Castelo. Às vezes dizemos «Viva Salazar!» (mas é só no meio de discursos e assim) e levei a farda da Mocidade Portuguesa vestida logo de casa. Era a primeira vez. Mesmo à esquina das Escadinhas de Arrochela, há uma cozinha económica que dá sopa aos mendigos. Aquilo é a escada toda cheia de desgraçados a levarem a lata de alumínio à boca com a sopa. Também há gente mais composta que não são pobres de pedir e que estão mais calados.

Ia eu a subir as escadinhas, começam-me a gritar «Piolho verde, piolho verde!», outros apontavam-me o punho e gritavam «Bufo, seu bufo não tem vergonha!», eu desatei a correr por ali acima… Mas o que mais me admirou foi que o que me acusou primeiro «Olha o piolho verde, olha o piolho verde!» e açulou os outros foi o Espinafre, o empregado da carvoaria e que nem é mendigo. Nunca mais vesti a farda na rua.

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