Um rapazinho negro, criança ainda, marcado a ferro em brasa na testa, por ter perdido uma cabeça de gado. Tratado como gado ele próprio, a marca do proprietário a explicitar esse direito total sobre os seus trabalhadores. A criança olha-nos de frente, sob o oito deitado que lhe sulca a testa. Não nos interroga, não nos julga. Talvez se espante, isso sim, por haver um fotógrafo para a sua dor – que talvez, na sua curta vida, se tenha habituado a ver como normal, que talvez não imagine sequer que pode ser condenada por um homem que, armado de um máquina fotográfica, não teme as armas do patrão da criança.

Não admira, portanto, o título escolhido por Licínio de Azevedo, cineasta brasileiro há muito radicado em Moçambique, para um documentário sobre o autor da fotografia: «Ricardo Rangel, Ferro em Brasa». Um documentário que, para lá do homem, nos mostra a sua circunstância, o Moçambique dos anos pré-independência, esse Moçambique que tantos, ainda hoje, se recusam a ver, preferindo recordar a qualidade de vida da pequena parte da população que representavam.

O Moçambique onde um amigo – branco – de Rangel, desejoso de ser fotografado junto a um negro, se vê em apuros para o conseguir. O fotógrafo recorda os esforços com humor: a câmara preparada, o amigo pronto a, ao ver passar um negro, colocar-se-lhe ao lado – e, um após outro, o escolhido afastar-se, sobressaltado, temendo a má interpretação desse lado a lado com um branco.

É também com humor que conta uma outra história: preso por agressão a um homem casado que perseguia a sua irmã, é alvo, na esquadra, de uma estranha pergunta. «És assimilado ou não és assimilado?», pergunta o agente, terminado o auto de ocorrência. «É que se és assimilado, vais para o calabouço dos brancos; se não és, vais para o dos negros.»

Digam-nos, depois, que nas colónias portuguesas não havia racismo…

«Ricardo Rangel, Ferro em Brasa», passou há pouco em Lisboa, na iniciativa que levou por nome «Os dias do Desenvolvimento». Devia passar muitas vezes, muitas, para que não nos esqueçamos – cada vez que nos apiedamos sobre o Moçambique de hoje – o que era, também era, o Moçambique de então. Ao som de jazz, a música da vida de Ricardo Rangel.

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