Um texto de Jorge Martins (*)

 
O Posto de Comando do MFA foi recuperado em 2001, numa parceria entre a Câmara Municipal de Odivelas e o Regimento de Engenharia Nº 1. Metade do edifico – onde está a Sala de Operações – foi preservada. A outra metade foi objecto de obras e da dotação, entre outros melhoramentos, de um auditório. Procurou reconstituir-se naquele pavilhão pré-fabricado o ambiente vivido durante o comando das operações do 25 de Abril. Assim, podem encontrar-se na Sala de Operações telefones, mapas das estradas, mantas a tapar as janelas, um rádio, comunicados do MFA e figuras dos operacionais.

Podem fazer-se visitas guiadas, mediante marcação através da Câmara Municipal de Odivelas. As escolas são as principais utentes. No mês de Abril de 2008 registaram-se 777 visitantes.

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Comunicado do MFA – 4:26

Comunicado do MFA – 7:30

 
A freguesia da Pontinha e o concelho de Odivelas ficaram indelevelmente inscritos na história do 25 de Abril. Com efeito, a instalação do Posto de Comando do Movimento das Forças Armadas no Regimento de Engenharia 1, tornou a Pontinha no coração da revolução. Foi no RE-1 que o MFA comandou as operações, sofreu nos momentos de incerteza, prendeu Marcelo Caetano, o paladino do regime, reuniu a Junta de Salvação Nacional, redigiu a maioria dos comunicados à imprensa, percebeu, finalmente, que o movimento tinha triunfado.

A escolha do Regimento de Engenharia 1 para Posto de Comando das operações do 25 de Abril partiu de uma sugestão do tenente-coronel Nuno Fisher Lopes Pires – que havia sido 2º comandante daquela unidade até 6 de Março daquele ano – e apoiada pelo capitão Luís Macedo, militar em funções no RE-1. Não houve dúvidas em aceitar a sugestão de Lopes Pires, visto que reunia todas as condições necessárias: estar perto de Lisboa, mas fora da cidade; ser uma unidade da confiança do MFA; dar poucas probabilidades de as forças governamentais a descobrirem, dado que se tratava de uma unidade de engenharia. Assim, na  «Ordem de Operações» de Otelo Saraiva de Carvalho, o RE 1 teria a seguinte missão:

«Protege e defende a unidade a todo o custo. Selecciona um local elevado para montagem do PC. Selecciona um local, bem guardado, onde possam ser recebidos os oficiais superiores e os agentes da Brigada de Trânsito da GNR presos, a seguirem ao seu destino findo o estado de insurreição. Prepara a central telefónica para a emissão e recepção de telefonemas.»

Garcia dos Santos tratou de montar o esquema de comunicações, com material previamente “desviado” da Academia Militar e da Escola de Transmissões, tarefa iniciada no dia 23 de Abril e concluída na noite de 24. Luís Macedo encarregou-se de distribuir tarefas pelos seus camaradas do RE 1, e da montagem do Posto de Comando. A “sala de operações” do MFA foi montada num pavilhão pré-fabricado: uma grande mesa ao centro, outras com aparelhos de rádio e telefones, um armário metálico com pistolas e granadas, janelas tapadas por cobertores, uma prancheta de contraplacado, um mapa das estradas do país (do Automóvel Clube de Portugal) e algumas cartas locais. No exterior do pavilhão estava montada uma pequena tenda para o pessoal de transmissões, com antenas vertical e dipolo. Junto ao Posto de Comando, uma camarata improvisada, com camas militares com colchão, travesseiro e mantas.

Dali, seis oficiais – os tenentes-coronéis Nuno Fisher Lopes Pires e Garcia dos Santos, os majores Otelo Saraiva de Carvalho, Sanches Osório e Hugo dos Santos e o capitão-tenente Vítor Crespo -, coadjuvados pelo capitão Luís Macedo, comandaram as operações de uma forma tão surpreendentemente eficaz, que as forças do regime só durante o dia 25, já muito tarde, souberam onde era o Posto de Comando e o país soube-o na manhã de 26, quando ali se realizou a primeira conferência de imprensa da Junta de Salvação Nacional. O carácter rudimentar daquele posto de comando era tão evidente, que o comandante Vítor Crespo, após ter perguntado a um polícia onde era o RE 1 (que se surpreendeu, aliás, por verificar que tantos civis se dirigiam para o regimento naquela noite), quando entrou na sala de operações duvidou que se conseguisse comandar uma revolução naquelas condições. Mas comandou-se e com eficácia!… Os seis, isolados do exterior, conduziram as operações que fizeram com que acordássemos inacreditavelmente num país livre no dia 25 de Abril de 1974.

Às 22.55h. do dia 24, tal como estava previsto, o locutor João Paulo Dinis apresentava aos microfones dos Emissores Associados de Lisboa a canção “E Depois do Adeus”, de Paulo de Carvalho. Era o primeiro sinal de que tudo corria bem para o MFA. Cerca da meia-noite e vinte, no Posto de Comando, todos à volta da telefonia de Lopes Pires ouviam Paulo Coelho a anunciar no programa “Limite” da Rádio Renascença a canção “Grândola, Vila Morena” de José Afonso, cuja primeira quadra foi lida por Leite de Vasconcelos:

«Grândola, vila morena
Terra da fraternidade
O povo é quem mais ordena
Dentro de ti, ó cidade»

Era o segundo sinal, a senha para o início das operações em todo o país. A partir das 3 horas alcançavam-se os principais objectivos previstos: Mónaco (R.T.P.), México (R.C.P.), Tóquio (Emissora Nacional). Mais tarde, outros objectivos foram sucessivamente ocupados: Canadá (Quartel General/R.M.L.), Nova Iorque (Aeroporto), Toledo (Terreiro do Paço), Bruxelas (Banco de Portugal), Viena (Rádio Marconi)…

Às 4.26h., Joaquim Furtado lia o primeiro comunicado do Posto de Comando do M.F.A., previamente escrito por Vítor Alves e entregue por Sanches Osório a Otelo, que o enviou do RE 1 para o Rádio Clube Português. Os comunicados vão-se sucedendo – sendo telefonados do Posto de Comando para o RCP -, mas só o das sete e meia é que esclareceria o sentido do movimento:

«Aqui, posto de comando do Movimento das Forças Armadas. Conforme tem sido difundido, as Forças Armadas desencadearam na madrugada de hoje uma série de acções com vista à libertação do País do regime que há longo tempo o domina.
(…) Consciente de que interpreta os verdadeiros sentimentos da Nação, o Movimento das Forças Armadas prosseguirá na sua acção libertadora e pede à população que se recolha às suas residências. Viva Portugal!

Já de nada valia apelar à população para recolher a casa. As ruas enchiam-se cada vez mais de povo, ávido de liberdade, que mostrava não ter dúvidas quanto ao sentido da revolução.

Cerca das 12 horas, Salgueiro Maia foi incumbido de cercar o Quartel do Carmo, onde deveria obter a rendição de Marcelo Caetano, o que simbolizaria o golpe final no regime. Assim aconteceu, após alguns tiros das tropas de Maia sobre o Quartel: Marcelo rendeu-se a António de Spínola, para que «o poder não caísse na rua». O Carmo seria palco de outro grande momento de tensão entre os homens do Posto de Comando. O paladino do regime seguiu, sob prisão, no chaimite “Bula” para o RE 1, onde chegou cerca das 21 horas e ficou detido até à manhã do dia seguinte.

Entretanto, Spínola, que chegara meia hora antes à Pontinha, reuniu com os restantes elementos da Junta de Salvação Nacional, numa sala contígua ao Posto de Comando e deslocou-se à R.T.P., à uma da madrugada, para ler uma proclamação ao país. De regresso ao RE 1, a Junta reatou a discussão do programa do MFA e deu a primeira conferência de imprensa na «sala de operações», pelas 8.15h. do dia 26, algum tempo após a saída de Marcelo Caetano com destino à Madeira. O Posto de Comando manteve-se em funções até à noite de 27 de Abril, 72 horas depois de lá se terem iniciado os trabalhos de comando das operações que libertariam Portugal da ditadura.

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(*) Biografia de Jorge Martins
 

 

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