Cinco crónicas contra o esquecimento

(2) 1967

 
Peço-vos, de novo, para imaginarem.

Têm vinte anos, são estudantes. É Primavera, o sol brilhou, todo o dia, sobre Lisboa. Saíram da Cidade Universitária, a pé, e vieram conversando por aí fora.

O ano? Sugiro-vos 1967.

De que falavam? Talvez de cinema, talvez de teatro, sem dúvida de livros. Certamente de política, porque a política, num tempo de guerra,  de censura, de repressão, fazia irremediavelmente parte do vosso quotidiano. Podia ser o filme cortado, a peça proibida, o livro que era preciso pedir a um amigo que trouxesse de Paris… Podia ser, também, o amigo que fora preso, ou o outro que, mobilizado para África, hesitava agora entre ir ou desertar.

Mas era Primavera, o sol brilhava, Lisboa estava linda, e tinham vinte anos. Mesmo a mais grave das conversas se entrecortava de risos. Eram amigos. A amizade era, só por si, motivo de alegria.

Chegaram assim, conversando, perto do Rossio. Está calor, têm sede, apetece-vos uma imperial.

O empregado já vos conhece, na cervejaria onde as toalhas e os guardanapos são alvíssimos, e o cinzeiro mudado mal dois ou três cigarros o maculam.

Continuam a conversa. Falam, talvez, do conceito de festa, de uma personagem de um livro de Osborne com quem cada passeio de autocarro era uma festa. Falam do Festival de Teatro Universitário de Nancy. Um de vós, que esteve recentemente em Paris, fala de um filme, La guerre est finie, A guerra acabou. O guião era de Jorge Semprún.

Depois acrescenta: «Comprei um livro dele. Chama-se A Longa Viagem. Gostava de vos ler uma passagem».

Abre o livro, começa a ler. E fala-vos da Ocupação, em França, de dois amigos, resistentes, que se encontram num jardim. Fala da amizade desses jovens, e de como, nesse mesmo instante, sobre essa amizade, paira uma dúvida: «Resistirá ele na Polícia? Se for preso, e torturado, não me denunciará? E eu, resistirei?» E diz como é terrível que essa dúvida tenha de existir, como é terrível ter vinte anos, estar com um amigo, e pensar na prisão, na tortura, na capacidade, ou não, de resistir.

A voz treme-lhe ligeiramente. Fecha o livro. Subitamente, a cervejaria parece-vos muito fria, e a cerveja perdeu o seu sabor.

Poucos meses depois, um de vós é preso, outro forçado a fugir a salto.

Era também assim, ter vinte anos, sob a ditadura.

 
(Lida na RDP-Antena 1, em Abril de 1994. Publicada em O escritor, nº 4, Dezembro de 1994.)

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