Tem sido um filão muito explorado, e de grande popularidade, a recuperação de figuras históricas, através da sua dimensão humana, numa conjugação de dados históricos com ficção literária. Quando essa operação se faz através das relações amorosas mais ou menos conhecidas, de preferência infelizes, o sucesso está garantido, independentemente do real valor de muitas dessas obras.

Também o amor funesto de Sá Carneiro e Snu Abecassis tem inspirado despretensiosas revisitações um pouco por toda a imprensa escrita ou falada. Deste conjunto uniforme e pouco exigente, destaca-se o livro de Miguel Real O último Minuto na Vida de S., apresentado na própria capa como «o último grande amor português visto pela imaginação romanesca e pelo talento de um dos mais importantes ficcionistas nacionais da actualidade». Contudo, da leitura das breves 125 páginas conclui-se pelo manifesto exagero da avaliação (de quem? onde?). Não que a ideia não fosse boa: uma narrativa no feminino, acção desenrolada numa fracção de 50 segundos em tempo real, em constantes flashbacks, um cenário que invoca a realidade portuguesa das décadas de 60 e 70.

O resultado, pelo contrário, é decepcionante: através de intermináveis tiradas ora de lirismo extremo, ora de crítica social sardónica e jocosa, alternando com sínteses rápidas, a pretensa busca estilística, com neologismos de duvidoso gosto, surge totalmente desajustada aos objectivos anunciados. Aquele país, aquele Sá Carneiro e sobretudo aquela Snu não têm qualquer consistência dramática, são puras abstracções, pois nem por um momento o autor consegue captar-lhes a alma, e fazer o que faz qualquer escritor: caminhar até onde eles o possam levar. Compensa o vazio das personagens com o longo monólogo feminino, tão improvável quanto absurdo, naquela situação-limite (a morte eminente) e na boca daquela heroína. A realidade portuguesa que o autor pretende vista pelo olhar de uma mulher «bela, escandinava, independente, culta, desinibida, divorciada» não passa no filtro do próprio olhar de Miguel Real, cuja «erudição» gratuita e dispersiva, característica da sua obra ensaística, se torna numa obra literária descabida e insuportável.

Ficamos, pois, por visões exteriores, sínteses simplistas, muito à beira do cliché e da caricatura. Sá Carneiro e Snu ficaram assim mais longe da imortalidade que aquele grande amor lhes prometia.

Miguel Real (2007), O último minuto na Vida de S., Edições QuidNovi, 130 págs.

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