A Irene Pimentel referiu, em «A pessoa depois do prémio», uma sessão que encerrou um ciclo destinado ao estudo do Estado Novo, numa escola secundária em Rio Maior. Porque, nesse mesmo dia, tínhamos ambas um outro compromisso na região, acompanhei-a e assisti à apresentação e ao debate.

De Rio Maior, só recordava umas mocas que me barraram uma estrada nos idos de 75, numa escola secundária não entrava há muitos anos. Reforço o que a Irene disse sobre interesse e dinamismo de professores e alunos. Aliás, neste caso concreto, foi uma aluna que liderou a organização, que enviou mails, que nos esperava com rosas. Todos – e eram dezenas – ouviram interessadamente, sem telemóveis nem qualquer espécie de balbúrdia, fizeram perguntas, umas elementares, outras nem por isso. E, como era de esperar, veio à baila o concurso sobre «Os Grandes Portugueses».

Mostraram-nos depois uma exposição – «naïve», certamente, «à antiga», sem qualquer recurso a meios tecnológicos sofisticados, com muitas coisas recuperadas em sótãos de avós, desde livros escolares a uma colecção de Sandokan, fardas da Mocidade, objectos, diplomas, muitas fotografias e, cereja em cima do bolo: Salazar num caixão. Mas, também e sobretudo, textos, cronologias, muita informação recolhida, sistematizada e bem apresentada.

Saí de lá com duas certezas. Primeiro, e como a Irene já referiu, que há muito mais vitalidade e vontade genuína de saber do que provavelmente julgamos, consumidores passivos que somos daquilo que alguns meios de comunicação, ávidos de sensacionalismos, nos querem servir. Segundo, que é muito fácil concretizar iniciativas deste tipo, mesmo sem o cartão de visita que um prémio Pessoa representa (sem desprimor para o mesmo e, muito menos, para a Irene). Pode-se – e deve-se – ir às escolas para falar, explicar, mostrar, também ouvir, porque não aprender.

Existem já várias iniciativas neste sentido e a Associação «Não Apaguem a Memória!» tem um plano para concretizar muitas outras.

Porque a reconstrução da memória passa também por aqui – inevitavelmente e sem qualquer especie de dúvida.

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